sábado, 5 de maio de 2007

Presidenciais Francesas: Todd e Gauchet analisam ao pormenor



Os dois politólogos ultrapassam o bla-bla rotineiro dos Médias e surpreendem as linhas de força do futuro da França e da Europa...

Emmanuel Todd e Marcel Gauchet, há muito que nos habituaram a uma superlativa qualidade teórica das suas análises políticas. Trata-se de peritos singulares e, cada um no seu espaço de análise, beneficia de uma aura de prestígio e rigor que ultrapassa em muito as fronteiras hexagonais francesas. No conjunto de mais de 50 análises políticas de projecção política qualitativa, destacamos os textos que eles subscreveram como os mais acutilantes e os melhores e que foram saindo no Nouvel Observateur, Le Monde e Libération. Os dados estão lançados, pois. E só Ségolène pode construir uma França melhor e mais democrática, não nos esqueçamos disso .

1. Participação eleitoral: Todd alerta para "a pobreza do conteúdo da campanha. As questões sobre a Globalização, as deslocalizações, a subida das desigualdades e o medo do futuro não foram quase tratadas pelos candidatos. E éra isso que contava acima de tudo para as pessoas". E aponta: "Se existiu paixão e angústia nesta campanha, foi porque Sarkozy colocou conscientemente as questões de identidade no centro do seu discurso, baralhando assim a problemática económica". Marcel Gauchet sobre o mesmo tema diz: "Depois de 1988, o mitterrando-chiraquismo paralisou o país e fechou-o no marasmo político. O milagre, é que, nos estamos talvez a sair deste ciclo depressivo. Finalmente, o mal não era assim tão irremediável como se temia".
2. Estratégias: Todd põe o dedo na questão essencial: "Assistimos com a sua acção (Sarkozy) à subida de uma direita governamental que não hesitará a adoptar uma estratégia de violência racionalizada empregando os meios do aparelho de Estado. Estamos confrontados, por isso, com qualquer coisa de muito grave. Nestes tempos de tensões sociais e económicas, há o risco que se instale no poder uma direita radicalizada que sabe que a estratégia de provocação pode ser uma técnica eficaz de governo". Gauchet precisa: "A diabolização do sarkozismo feito pela Esquerda foi politicamente contraproducente. Não dissuadiu o eleitorado natural de Sarkozy (o pequeno comerciante revoltado da região parisiense e do Sul) e facilitou-lhe o apoio do eleitor de extrema-direita".
3. Reformar o quê? Gauchet observa : "O verdadeiro problema político francês, é o como fazer: Toda a gente sabe localizar as dificuldades, mas ninguém até hoje as soube tratar. A questão é de encontrar um método. Royal e Sarkozy têm pelo menos em comum a constatação de que um certo estilo de organização político-administrativo está falido". Por sua vez, Todd avança com esta tese: "Se por acaso Sarkozy se tornar Presidente, é preciso saber que todo o seu discurso actual está em contradição com as aspirações profundas do seu eleitorado. Se ganhar, entrará fatalmente em choque frontal com os seus eleitores." E mais esta, em fine: "O gaullismo de Sarkozy é uma panaceia. Ele fará da França um país que não será nem belo, nem grande, nem generoso. O gaullismo com o seu nacionalismo tinha uma certa loucura das grandezas. O sarkozismo é, a meu ver, um gaullismo encolhido onde a França se definirá como grande apenas dentro do seu território... ".
4. Direita/ Esquerda- Se calhar só em Portugal se pretende ultrapassar tal dicotomia. Gauchet avisa os incautos: "Creio que a oposição esquerda-direita funciona sempre. Permanece o eixo fulcral da vida democrática. A Esquerda ganhou culturalmente. Em termos de valores, a direita tornou-se de esquerda. Por isso, assistimos a um gigantesco cruzamento multiforme que fomenta as incertezas contemporâneas". E adianta: "Isto constitui a grande revolução contemporânea: a Esquerda, que era materialista, tornou-se idealista e reclama-se de valores, enquanto a direita, que se postulava como moral e religiosa, não acredita senão na economia". Todd não acredita que foi ultrapassada a "decomposição do sistema" e que se ultrapassou o desaparecimento das "ideologias políticas": "Não partilho desse entusiasmo".

FAR

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