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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Da Puta cebola

a cebola é uma metáfora
e a sucessão ritual das cascas
em subtracção
seu fluxo descodificador

uma a uma
como botões soltando-se
metáfora e não cópia
batendo a asa
botões que não rosas nem pétalas esboçadas
pura transparência

uma coisa é certa
a cada descasque explícito
interpelando com as suas estrias em cobra sigilosa e curvilínea
o voyeur pensa
nos translúcidos efeitos burka
flor de amora a explodir preta na menina do olho
e suspende na respiração a prosa de imagens
então a pétala vai no rio mastigado de palavras
pelo frenesim de afluentes quotidianos e horas de ponta
mais do que metáfora
metáfoda
na sombra a ciência artesanal dos dedos
malhando na nova casca
sem especiaria nem cor de época e fruta
aluando na aleatória inversão de ocasos

trágico é habitar cebola o fim
na cebola envolvente
e nem o cru sublime do vazio divisar
da matrioska
esse aberto oposto do caroço
polegar desunhando-se
em abismo no nada rarefeito

do dedo o pulsar de articulações
no âmago em asas e fogo
remeteria a origem
no ser assim:
cebola és

o que cinicamente vence:
o perfume da cebola

convívio difícil
que os contemporâneos
trocaram pelo consenso
dos pequenos nadas em sindicatos a dias
os rumos apesar de tudo podem florir em rimas

do livro horto meu horto
de entreanov espasmodicus
poema mudado para português por

f.arom

sexta-feira, 26 de março de 2010

EM CONTRATEMPO TÁCTIL

Passo com os dedos
O teu rosto
De um fôlego apaziguado
As pálpebras borboletando no batimento cardíaco
Percorro lábios que tinham amanhecido
E nas covas fundas do rosto
Onde se tecem as doces olheiras
Azeitona escuro incólume e amendoado
Prego o silêncio

Olhos a promessa cantam solta
Irradiam palavras apetrechadas de asas
Em estrias de transparência e pele monologando
Esse aberto de esforço que as olheiras habita em dias longos e intensos
São as caudas da visão em cometa
Marés nas planícies deslizando a noite e nos despertam

Dessas deambulações cresce
Um absoluto de manufactura
Olimpo de cravinas em assembleia
Que a infância tece sempre de volta

Aí estamos algures fora da moldura

f. arom

quarta-feira, 24 de março de 2010

O TREMOÇO NO GOTO AUSTRAL

Agora que vou para quase velho
Vejo que não prestei a devida atenção
Ao modo como o tremoço
Me cai no goto
Não esse do engasgar
Mas o outro
O goto dos afectos
Primeiro o respeito da pele
Da casca entre os dedos
Num movimento simples de descascar
Levado no tempo de o fazer
Assim como observar a imobilidade da cadeira
Que ali está e estará até que perca a utilidade

Mas mais que o tremoço e a casca
E o miolo
Já que o essencial também não deve esquecer-se
Quando o acessório se torna visível
É poder seguir as nuvens
De um ponto absolutamente único
Na janela do quarto mais oriental da casa
- Oriental nas contas feitas de geografia instintiva –
Pois aí
Elas passam de um modo que é mais cinético do que todos
Passam mais esguias
Pondo-se a jeito para o meu cinema
E para a minha expectativa de águas ainda não passadas

Toda esta prática
É de amores com a terra que nos pariu
Ou assim me parece
Como me parece sê-lo
O modo como uma árvore se inclina quando um velho passa
Na saudação primordial
- diálogo mais que ecuménico -
Creio que o vento que a sopra o adivinha
E leva as folhas na prosa que a brisa escreve

E mais do que estas práticas
Gosto de linhas do rosto
E de as escutar no silêncio que toca
No Outono amarelecido da foto

O sorriso ter permanecido
Diálogo fundo
O que persiste
Certo é que as balizas lá estão
Na Sá de Miranda
Nos mesmos portões metálicos
Simétricas e ali postas para o nosso futebol
Cósmico de 10 metros entre as linhas extremas
E do mesmo modo
A parte não cimentada do passeio lá está
À espera da cova longa do paulito

O meu tempo intocado ali
Porque o tempo que se lhe seguiu
Nada tinha com este que cresceu comigo
E nossos
Restam dos maços de Caravela
Grandes fumaradas
Pelas barreiras abaixo acima
Fumados colectivamente
Assim como caminhadas
Intermináveis até aos mares da Xefina
Nunca lá chegados
Caminhando o mar salgado entre tubarões imaginados
Sob o mar encrespado de pequena vaga e areias revoltas

Do que hoje me lembro
É que por muito que se tenham somado promessas de novos mundos
Nada vivi mais absolutamente igualitário
Que o mundo daquela rua
De goeses changanes híbridos e lusos ibéricos

Outros mundos havia
Por certo
Como certo era existirem ainda mais
Do que esses outros e piores e melhores
E certo é também
Como diz o outro
Tudo ser relativo

f. arom

segunda-feira, 1 de março de 2010

alfabetu

Começar pelos pés
de cima vistos
numa hierarquia sem tensão
de mim para eu para eles
sem alter egos nem pose
apenas o mesmo mar que o mar e que conhecem
quando pousa lento na asa do pássaro morto a sua espuma final

O verbo corre pelas nervuras dos dedos em sílabas salinas
De louco no campo aberto do corpo
As unhas silenciadas
quando tentamos olhar para outro corpo no próprio
O voo abortado

Só com truque
Tirar os pés da cartola coelhos
Uma fragmentação não do eu mas do corpo
Os pés horizonte e tu de cima como soba nas nuvens e olhando após os peitos
Vacas de culto sagradas

Mas os pés não lembram a engenheiros
Enfiados na organização das suas estruturas
A vida a horas
e dois mais dois não são cinco
Um pináculo no sustento precário de uma certeza
Mais a ideia de que a arte é intangível
Como fazê-la sem um pouco de areia que ajude
E o nível
A pá
O cimento
E a merenda em sequências e equações
Impressão de tinto digital

Pego no silêncio que está parado sobre o peito do pé esquerdo
E coloco-o sobre o peito do pé direito
Calo-me
Os ouvidos não têm a cera do hábito accionada
e o hálito deixou o corpo por um outro estatuto em cerimónia específica para vocábulos de exterioridade ostentada
Mas estão saturados do que soma nada a nada na paz que não mora

Bonança? Sombra no tempo de um baloiço de olhares embalado

Os pés
esquerdo direito a tropa
e não são os dias esquerdos raros tão diversos
êxtase no nome soletrado a lábios suspenso do trapézio da fala
e derramando letras de sabor a ela uma
e o tempo emaranhado de algas em parágrafos e maresia partilhada
Nunca o mesmo e no segundo seguinte
Um rumor de folha na brisa de uma fresta aberta no horizonte
O que não é metafísica mas pode ser uma pneumonia

Pneumonia a palavra seduz como deixar correr o marfim
Deixar correr o marfim tem uma luz de sangue

Um bando de vogais chilreando faz ninho entre os meus pés que se encontram estranhamente irmanados como menires indisciplinados no espaço
Ninguém faz ideia do que possa suceder
Mas não há jornalistas por perto
Nem há qualquer tentativa de performance e de durar no tempo essa impossibilidade de o pássaro quebrar a casca num directo original

Criar pardais entre os polegares
É circo
Já com as vogais é diferente
Como é diferente atar latas aos peixes nas caudas como a gatos

Desenho umas letras como fogo acenando para longe
Esboroam-se cadentes no espelho fugaz da imagem tempo

Faço oscilar o eco de que disponho à mão
Sons ecoados com perícia subjectiva
Fazem um teatro de sombras nos olhos dos ouvidos

Na viagem foram-se os pés
Nas mãos veios nas palmas alinham a vida por um fuso mais prescrito
Ervas deitadas sem pai nem deus nem chefe
Caiem caroços sobre o papel que explode à vista
Florações incandescentes nos interstícios que o ecrã possa arborizar
Mas a pele de onde vem sem que venhas
Alfabeto o corpo teu no rosto comum

f.arom