sexta-feira, 4 de maio de 2007

Da Capital do Império

Olá,

Antes de vos falar da minha recente visita a Nova Iorque onde aproveitei para visitar amigos no maior edifício de “tachos” do mundo (a ONU) para ouvir as últimas histórias histéricas dos males da civilização ocidental em geral e dos americanos em particular, tenho que vos dizer uma coisa:
Ao contrário do que vocês podem pensar na América não há mais malucos do que aí do outro lado do charco. O que se passa é que aqui os malucos não são obrigados a estar fechados em asilos ou casas e podem em alguns locais ir a uma loja e comprar uma Glock que leva 17 balas no seu carregador ou mesmo uma AK 47 e depois ir dar azo às suas paranóias e/ou fantasias mortíferas.
Não vem isto a propósito da globalização (a Glock é fabricada na Áustria) ou das heranças do socialismo (a AK 47 - a única herança do socialismo científico que continua a funcionar e a ter impacto no mundo)
Vem isto a propósito do recente massacre na Universidade Técnica de Virgínia que pelo que eu li nos comentários publicados em muitos jornais europeus é mais uma prova de que os americanos são uns tipos que adoram a violência e vivem na violência.
Vi que uma cadeia de televisão alemã fez uma reportagem sobre isso com fotos e filmes do Charleston Heston com uma espingarda na mão. Não sei porquê o Charleston Heston e não o Gary Cooper ou o John Wayne mas sei que prova – como já afirmei – que também há muitos malucos por aí, que alguns deles escrevem em jornais e para a televisão mas que felizmente para vocês (e para os americanos que vão aí de férias) não têm acesso a Glocks ou a Aks.
O que me leva mais uma vez a vez falar daquelas diferenças culturais com os americanos que muitos não compreendem e que mesmo que para quem aqui vive não deixa de constituir um espanto.
Primeiro ponto: O direito a ter uma arma de fogo é algo imbuído no espírito dos americanos. É assim como o uso do alho na cozinha tuga. Pode se falar em restringir o uso do alho, aumentar o preço do alho, diminuir o tamanho do alho mas nunca tirar o alho.
Nenhum político na América da esquerda ou direita tem a coragem de falar em proibir o uso de armas através do país por leis federais. É uma combinação eleitoral letal pois para além de interferir com aquele “direito” é visto como uma interferência do governo federal nos direitos de estados.
Rebolei-me de riso a ver os políticos de esquerda (os da direita aqui apoiam sem vergonha o “direito” às Aks) a darem cambalhotas linguísticas e de lógica para evitarem a questão.
A “estrela” do Partido Democrático e candidato à presidência Barrack Obama disse que era “também preciso falar da violência cometida contra homens e mulheres que subitamente ficam desamparados porque os seus empregos foram transferidos para outros países”. Faz rir não é?
Eu cá já pensei em sugerir que para contornar o problema os legisladores americanos deveriam concentrar-se em proibir as… balas. Ou então torna-las de tal modo caras que mesmo os malucos teriam dificuldades em arranjar munições. Seguir o exemplo europeu de “quanto mais impostos melhor para todos” e impor impostos tão altos nas balas que a a malta é toda obrigada a comprar espingardas e pistolas de pressão de ar.
Isto porque para além do aspecto cultural há também o aspecto jurídico. O direito às armas está na constituição Americana. Tudo por causa de uma emenda à dita cuja que afirma que “sendo a existência de uma milícia regulamentada necessária à segurança de um estado livre, o direito do povo a manter armas não será infringido”. Foi aprovada em 1791 numa era em que se vivia numa sociedade agrária precária em comunidades onde caçar e andar à porrada com os índios era o pão nosso de cada dia e que creio eu pouco tem que ver com a realidade actual dos americanos. Mas convencê-los disso é algo que não vai acontecer em breve.
Vejam por exemplo que visitei uma loja de armas na Virgínia (onde me apaixonei por um revolver Colt P1676 357 7.5 “clássico”igual aos filmes dos cowboys) e onde o comerciante me disse que a razão porque o crime é baixo na zona desse estado onde eu vivo é porque na Virgínia toda a gente pode comprar armas de fogo. Na vizinha Washington, disse-me ele com toda seriedade, há mais crime porque há muitas leis a restringirem o porte de armas.
Sugeri-lhe que a malta deveria começar todos a levar pistolas para dentro dos aviões para impedir os Bin Ladens de desviar aviões. Respondeu com um ar sério que “talvez não fosse má ideia”. Mas depois riu-se muito e quando eu peguei no revolver deu-me a primeira lição “de responsabilidade para quem tem armas”.
“Nunca se esqueça,” disse ele “que não há armas descarregadas e portanto nunca aponte uma arma a ninguém.” Fez uma pausa e acrescentou: “A não ser que você queira foder a cabeça do individuo à sua frente”. E depois riu-se muito.
O que não significa que ao contrário do que vocês possam pensar todos os americanos possuem armas. Embora ninguém saiba ao certo porque em muitos estados as autoridades estão proibidas ou não podem manter controlo sobre a compra de armas as estatisticas indicam que na verdade apenas entre 20 e 25% dos Americanos possuem armas de fogo e que desse numero a esmagadora maioria (74%) possui mais do que uma . O que dá quase um total de 200 milhões de armas fogo (incluindo caçadeiras) em todo o pais . Nada mau!
Segundo ponto: Ao contrário do que se diz por aí não é verdade que os americanos em qualquer ponto da América podem comprar armas de fogo sem qualquer restrição. Os estados podem e impõem condições. O estado de Nova Iorque por exemplo impõe restrições que não existem no estado da Virgínia onde eu vivo e onde o acesso é praticamente livre.
Claro esta que a lei não impede na pratica a bandidagem da cidade de Nova Iorque de vir à Virgínia comprar armas através de terceiros e vendê-las ou usá-las nessa grande cidade. Os policias da Virgínia chamam à auto-estrada 95 que liga a Virgínia ao norte a “gun route”. Em Washington DC ( a capital do Império) as restrições são tão grandes que ‘é mais pratico atravessar o rio Potomac e ir ao estado da Virgínia comprar uma Glock e depois regressar a Washington.
Tudo isto para vos dar uma certeza: Nos próximos tempos vai haver mais massacres ao estilo do que se passou na Universidade Técnica da Virgínia. É inevitável. As armas são parte da cultura. Os malucos há-os em toda a parte. A mistura de armas com malucos é …. Explosiva.
Podem portanto começar a preparar mais artigos e reportagens sobre a violencia dos americanos. É boa leitura e faz a malta aí do outro lado do charco sentir-se bem na sua auto identificada superioridade moral
Um abraço

Da capital do Império

Jota Esse Erre

PS – Aquele Colt histórico custa 1.779 dólares. Mas o vendedor talvez ao ver que eu era um falido disse que para auto defesa eu ficava mais bem servido com uma Smith and Wesson 432 PD Magnum. Preço:400 dólares (cerca de 260 Euros) mas tinha que esperar uns dias porque de momento .. estava esgotada. Aparentemente na Virgínia devido ao massacre na Universidade Técnica houve uma corrida …às armas!

3 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Não creio que os filmes ou fotos mostrados nessa reportagem televisiva estivessem relacionados com a actividade cinematográfica de Charleston Heston para poder ser substituído por outro qualquer fazedor de filmes de caubóis. Ele é muito referido pelos jornalistas que falam sobre armas no USA por ser a cara mais conhecida da National Rifle Association. (A tal organização que defende a 2ª emenda com unhas e… balas). Charleston aceitou aparecer na convenção de 2000 com o tal rifle em punho dizendo que só lho tiravam das mãos depois de morto. A cena ficou famosa. Ver um velho, muito velho, empunhando uma arma deu vontade de rir. Na Europa pensava-se que os velhinhos americanos ricos passavam os seus últimos dias enquanto a carroça não vem correndo atrás de gajas boas e novas.

Claro que os políticos, (sejam de esquerda, direita, frente, trás), não se meterão na proibição das armas. É só ver o valor das contribuições da National Rifle Association para as campanhas eleitorais.

Aposto na Glock para defesa da liberdade nas cidades. Por cá, um brasuca stressado (dizia ele) limpou o sarampo a dois bófias na Amadora com uma. Em terrenos mais primitivos (com água e areia) nada bate a velha Kalashnikov.

AZUL DRAGÃO disse...

Excelente crónica !

Cristóvão Colombo disse...

mr. Jota Esse Erre, habitante da Capital do Império, terá corado de vergonha perante a douta explicação de "Táxi Pluvioso" vinda do outro lado do charco? Estará finalmente elucidado sobre a causa do J. Wayne não aparecer?