sábado, 12 de maio de 2007

A propósito da foto da carga policial

UMA CARTA PARA O ARMANDO...

Esta merda dá que pensar, pá.
A sério, continuo a remoer ideias, ando apreensivo, cabisbaixo, mesmo, pá.
Chega um gajo à meia idade; viu chegar a liberdade, participou como pôde, interveio, viveu tempos de incertezas, ilusões, empenhou-se. Nunca alinhou, aquilo que se chama alinhar. Andou por lá. Nunca ‘encarneirou’, nem encarreirou.
Fez-se cidadão.
Um apenas na massa anónima, um único a pensar por si, a ser civilizado, a usar do civismo, a respeitar o próximo mesmo quando o próximo se revelava egoísta, tacanho. Mesmo quando o próximo lhe causava náuseas ou mesmo um asco profundo.

Esta merda faz-me pensar, pá.
Que é que queres?
Uma carga policial é uma carga policial é uma carga policial...
Eles estão do lado de quem manda. E quem manda está a mandar porque tipos como tu lhes deram a sua confiança: um voto.
Com a tua concordância explícita deixas-te governar por dois exemplares de um tempo e de um país no qual não nos revemos nem queremos: uma autoridade máxima preenchida por um indivíduo criado no bafio de uma província, trepando a pulso nos coqueiros que a vida lhe foi apresentando; pouco culto, terra - a – terra, no pior sentido da palavra. Alguém que nunca deveria ter sido chamado à vida pública, mas que alguém terá apostado em fazer dele Presidente da República...
Com a tua concordância implícita permitiste que nos governe um ‘aparatchik’. Sim, um homem do aparelho, alguém que resolveu fazer-se à vida através de um partido político.
Este subiu a pulso nas concelhias, nos secretariados, na secreta vida de um partido estranho – uma enorme manta de retalhos, um imenso albergue espanhol onde todos são bem-vindos (sem que alguém lhes pergunte se vêm por bem) .
Esta merda desta fotografia tira-me o sono, pá. Obriga-me a escrever. A gastar em claro as noites que as horas de produtividade me recusam. Exigem-me que produza e eu, obediente, produzo.
E tu também. Tu também, pá. Não estás na crista da onda porque não queres. Nunca quiseste, pá. Nunca foste de dobrar a cerviz a nada.
E isto dá que pensar, pá.
Falo-te de uma ética, de uma estética. De uma forma de estar, desta maneira de ser.
A distância entre a bota e o cravo é tão somente o espaço que me impediu de malhar com os ossos numa guerra na qual não me revia.
E isto faz-me pensar, pá.
Muito.
No dia a dia constatamos como é forte o poder da imbecilização das gentes. A todo o momento nos vemos confrontados com o factor concessão.
Este é o meu “FMI”.
Não ganho, no fundo, nada.
Adio, apenas, o caminho para “o Abismo e o Silêncio”.
Mas que isto dá que pensar, lá isso dá.


Ao contrário de ontem estamos enjaulados virtualmente.
Até podemos pensar e exprimir os nossos pensamentos.
As cadeias de verdade com grades, celas e tudo o mais, essas, são para os do crime violento, não para os do pensamento.
Que grande conforto isto me dá!

Pago impostos, estou recenseado, tenho morada fixa
Sou taxado, impostado e mal-pago.
Confronto-me a cada passo com um país no qual não me revejo.
Apetecia-me viver um século mais noutro lado,
Começar tudo outra vez.
Mesmo sem saber nada, mesmo a partir de nada.
(Tudo seria melhor do que isto...).

Uma carga policial em 25 de Abril de 2007 é uma carga policial é uma carga policial...

Quando a bota pisar o cravo está o caldo entornado, percebes, pá?
Os sinais estão lá e nós nunca os quisemos ver.
Nas mortes do Escoural. Na ponte. Nos polícias enxovalhados à mangueirada.
Fechámos os olhos (ou chorámos às escondidas, as humilhações...).
Calámo-nos.
E a bota, entretanto, foi pisando, espezinhando o cravo.

Numa alternância do S com o SD, deixámo-nos embalar.
Como cordeiros votivos deixámos que nos levassem ao altar.

Esta merda, pá, dá que pensar.

Sinto-me profundamente incómodo, pá, nesta pele de ser daqui.
Neste lugar onde não me revejo.
Entre uma gente que se acomoda, se encarneira.
( Nem sempre posso criar mundos artificiais, quase nunca me apetece sair da Realidade...)
entre uma gente que é rude e grosseira.

E esta merda, pá, dá-me para desesperar.


Talvez me apeteça voltar ao tempo da meia - azul e meia - branca enfiadas à pressa nos pés ávidos dos caminhos de terra dos campos da minha infância. Da manhã trepando à figueira de figos generosos cheios de mel, das tardes a abrir regos e ver a maravilha da água surgindo na garganta ávida da terra castanha, do poço misterioso, do monte de caruma, dessa recordação cálida dos meus avós maternos. Um menino a crescer despreocupadamente, enfiando os pés numas galochas intermináveis.

Muitos anos mais tarde recordo-me de ter saído no labirinto da estação da Rotunda e de ouvir ao longe um acordeão que tocava a ‘Internacional’, os meus olhos iam-se enchendo de lágrimas à medida que os sons se tornavam mais próximos.
Nesse momento senti-me atirado para a minha infância. Voltei a sorver os cheiros dos campos, da grande liberdade, do céu azul, da magia daquele mundo. Chorava mesmo a sério, enquanto subia as escadas da estação do Metro.

Sentia saudades da liberdade.

Uma carga policial é uma carga policial, é uma carga policial...

É verdade, pá, podes dizer que sou um sentimental.

Esta merda faz mesmo pensar.

Qual é o sentido?
Para onde caminhamos: tu, eu, os nossos filhos?...

Será que, algum dia, em qualquer lugar, lhes poderemos dar aquilo pelo qual aspirámos?

Será que eles pretendem de nós um legado de valores?...

A bota que pisará o cravo será apenas um pormenor na paisagem?...

Não tenho respostas para te dar, pá. Nunca tive respostas. Por isso me acho nesta idade cheio de dúvidas, nu, frágil e desprotegido como quem acaba de nascer.

Náufrago.

Procuro um sentido para esta selva inóspita onde me movimento. A cada passo – mais cauteloso que o anterior – olho em meu redor. Quando encontro uns olhos que me acolhem, uma mão que se estende, um abraço – emociono-me sinceramente. Volto a acreditar que é possível criar uma fraternidade. Procuro em cada um aquilo que é genuinamente meu.

Sempre que fecho os olhos ocorre-me esta imagem , pá.
Remexo-me, inquieto, na cama e fico de olhos abertos até que me vençam o sono e o cansaço.

Não vou a marchas, nem a manifestações: os rebanhos são bonitos – mas de animais sem capacidade de escolha e que obedecem à voz do pastor e ao latir de cães...
Revolto-me por dentro.
Não salivo perante estímulos exteriores.
Scolari é-me indiferente e, além disso, deu-me a incontornável possibilidade de não reconhecer nem respeitar qualquer bandeira...
A minha bandeira é feita de uns braços abertos enquadrados por um sorriso fraterno.

Fosse eu capaz de revoltar-me por dentro e exteriorizar o quanto me dói esta Realidade!

Assim, digo apenas o quanto esta merda me faz pensar
e sofrer...

Fosse eu capaz de gritar em voz alta a dor que é viver esta Realidade.

O meu país é um abraço muito apertado com um sorriso quente, o beijo logo a seguir. Um lugar onde existe uma panela ao lume, onde o odor da cozinha se sente, onde o vapor que sobe do prato e me embacia o olhar que disfarça a lágrima do reconhecimento de me saber em casa.

Há dias em que sinto uma imensa vontade de chorar.
Uma enorme vontade de deixar que as lágrimas brotem, purificadoras.

O país aonde me sonho tem os contornos fraternos de uma mesa manchada pelas nódoas do vinho tinto, o cheiro acre dos inúmeros cigarros, o eco forte das gargalhadas. Aquele estender de pernas sem medo a nada. Os olhos de um Amor logo ali.

Quando vejo uma bota militar (ou militarizada, tanto faz) a avançar para um cravo sinto que há no ar uma ameaça velada.

E, esta merda, não só me dá que pensar.

Preocupa-me.












Fernando Rebelo- Abr./Maio -07

6 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

A carga policial é necessária para dinamizar consciências e levar corpos aos hospitais privados. É o mercado a funcionar (mas às avessas. É tão este mercado que funciona de todas as maneiras e feitios). Há o serviço (privatizado ou construído de raiz) logo é preciso criar o utente.

Quanto às consciências leva-as o vento com as trovas (ou trevas) que passam.

Anónimo disse...

Militares portugueses enviados para acções de guerra no Afeganistão
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1293765&idCanal=10

zemari@ disse...

Chapéu! Chapéus ao alto!!

Gabriela Ludovice disse...

Estamos sempre como que acabados de nascer quando somos sensíveis.. e essas películas de espanto são os nossos ossos, aquilo que verdadeiramente nos sustenta na vertiginosa obliquidade!

um olhar por acolher..

Armando Rocheteau disse...

Caríssimo Fernando:
Fico-te a dever um post para resposta. Sem o teu fulgor literário, ele surgirá. Dá-me um tempo.
Grande abraço para ti e, consoante os casos, beijinhos e abraços

Anónimo disse...

Um abraço de quem tirou a foto. E de quem estado desde esse momento inquieto, a pensar nisto que escreves.