segunda-feira, 21 de maio de 2007

Lamento...

...Cara Patricia Lança, mas não é para evitar a discussão que eu (só posso falar de mim) a chamarei, quantas vezes quiser, de "islamófoba", "esquerdófoba" ou "homófoba". É precisamente para que a discussão se faça. Eu não a quero calar, cara Patrícia; mas porque me quer calar a mim? Não se considera nada disso? Óptimo, contradiga, ou melhor ainda, ignore.
Mas deixe-me dizer-lhe, enquanto me ignora, que conviria encontrar certos termos de comparação, para melhor se entender aquilo a que chama de "politicamente correcto". Pensemos por exemplo no exemplo que dá, a prostituição. Diz a Patrícia que agora já nem se chamam às prostitutas de prostitutas, mas de "trabalhadoras do sexo". Ora, eu conheço, e a Patrícia por certo também conhece, outro termo para as designar: putas. Assim mesmo. Eu, cara Patrícia, reconheço-lhe o direito de as chamar de putas. Se quiser, pode chamar os homossexuais de paneleiros. Ou os muçulmanos de terroristas. Ou os esquerdistas de ignorantes. Faça-o, ningúem a quer proíbir. No máximo, talvez a contradiga, ou melhor, a ignore.
Sucede que há aqui uma questão a pôr. Qual é a diferença entre as chamar de prostitutas, putas, ou trabalhadoras do sexo? A validade, digamos, semântica da coisa é igual. Já quanto à justeza moral, aí já é mais complicado. Os critérios são sempre uma coisa chata. Um critério a admitir (mas que poderemos discutir, ou se quiser, ignorar) será o da opinião das visadas sobre o termo. Sabendo nós (ou pelo menos julgando eu) que as palavras, qualquer palavra, não são mais que relações de sentidos entre os objectos, poderemos supor que não será a mesma coisa chamar uma pessoa de puta, prostituta, ou trabalhadora do sexo. Ou melhor, poderá ser para si, como poderá não ser para ela. Eventualmente, talvez se pudesse considerar que a opinião dos visados sobre uma qualificação terá a sua importância. Por exemplo: não me passaria pela cabeça rotulá-la de imbecil, e dizê-lo à sua frente, mesmo que fosse essa a minha opinião. Ou dizer de todos os insurgentes que são uns imbecis. Haveria formas de pôr a coisa que poderiam respeitar um pouco melhor a dignidade dos insurgentes.
É que isto do "politicamente correcto" é muito chato quando se reivindica o direito de chamar uma puta de puta, ou um paneleiro de paneleiro, mas têm a sua conveniência quando se trata de não nos chamarem a nós de uma coisa qualquer que não seja do nosso agrado. A minha mãe dizia-me que era educação, mas parece que agora se chama "politicamente correcto". Talvez seja politicamente correcto chamar a educação de politicamente correcto, não sei. Mas creia, cara Patrícia, que defenderei até à morte o seu direito à má educação, quer dizer, a rejeitar o politicamente correcto. Eu no máximo irei contradizê-la, ou mais provavelmente ignorá-la. Com limites, é certo: se me encontrar na rua e me insultar, como poderá, ou não, fazer às putas e aos paneleiros, o mais provável é eu não me ficar. Mas como cavalheiro que sou, e graças à boa educação da minha mãe, uma vez que a Patrícia é uma senhora, a minha resposta será apenas verbal. Não sei se a contradizendo ou ignorando. Logo se verá.

1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

O mundo está perdido. O nosso querido dicionário está de pantanas. As putas são trabalhadoras do sexo. As senhoras são gajas. Os homens são cabrões. Que nos espera? Os morcões campeões?

Que venha a Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário para nos salvar. Para chamarmos os bois pelos seus nomes e.. os nomes pelos seus bois.