terça-feira, 22 de maio de 2007

Preocupações

Preocupou-me aquela notícia, creio que da última edição do "Expresso".
Sobretudo pela parte que diz respeito à delação.
Uma piada é apenas uma piada e o Homem é o único animal que ri. E, talvez por isso se distinga de todos os outros seres.
Que um professor, a prestar serviço numa Direcção Regional de Educação do nosso país, seja suspenso das suas funções porque, fazendo fé na dita notícia, contou uma piada a uns colegas acerca da tão propalada licenciatura do senhor primeiro-ministro e que a dita piada terá sido transmitida por terceiros à senhora Directora que logo accionou uma suspensão ao dito professor é uma coisa que me preocupa.
É mau sinal.
Acho que vou reforçar: são maus sinais; é um nunca acabar de acenos inequívocos; é uma quantidade de aves agoirentas e soturnas a esvoaçar por cima das nossas liberdades.
A delação é, em si mesma, uma coisa mesquinha e aviltante já que, quem pratica tal acto, espera recompensa.
Começo por não saber com quem falar; depois, duvido se estou a falar com as pessoas que me merecem confiança; mais tarde, resolvo não dizer tudo aquilo que realmente penso; logo em seguida, desconfio de todos e, pelo sim pelo não, calo-me.
Tudo fica em jogo, tudo está em risco.
Se decidir ficar naquilo que acho que são os meus direitos enquanto cidadão livre num país que se diz livre posso dar-me mal. Pelo menos, nos tempos que agora vão correndo.
Lembrei-me de um caso que o meu pai me contou acerca do meu avô paterno que trabalhou na nossa Marinha Mercante: em dada altura foi abordado por um fulano que pertencia à Legião Portuguesa (organização que, a partir de certa altura, se virou para os Sindicatos e os pôs ao serviço da delação...). O dito fulano propôs ao meu avô a inscrição na organização e acenou-lhe com a possibilidade de uma promoção. Aquilo não custava nada: era apenas questão de uns poucos dias de exercícios para-militares na sede da organização e "a prestação de algumas informações sobre os colegas". O meu avô - pai de três filhos - disse-lhe que não e nunca se prestou a qualquer colaboração com aquela organização. Nunca prosperou e continuou a exercer as mesmas funções que até aí exercera. Morreu, uns quantos anos mais tarde, era eu miúdo de uns 7 ou 8 anos, em Luanda.
Um marinheiro que acode ao hospital, longe da família, em agonia. Não passou de ser um simples marinheiro porque foi essa a sua opção - ele que era um homem livre.
E aqui lhe presto a minha sentida homenagem e manifesto o meu orgulho em ser seu neto.
Esse era o Portugal de Salazar. Tenho ainda memória desse país.
E agora isto.
De repente, vem um cheiro acre a bafio, como se desenterrassem velhas múmias.
Ao fim da manhã, à procura do almoço, da conversa interminável da minha mãe e do beijo terno do meu pai, ouço a Antena 2. Falam do lançamento de uma - creio - biografia de Luís de Freitas Branco. Sabia-o compositor. Pouco mais que isso.
A reportagem deu-me a conhecer que aquele homem passara os últimos anos da sua vida numa situação que considerei degradante e tudo porque um director da Emissora Nacional o vira, no dia a seguir ao falecimento do então PR, Óscar Carmona, ostentando uma gravata 'em tons avermelhados', manifesta falta de respeito pelo luto imposto. Luís de Freitas Branco foi despedido da Emissora Nacional, do ensino (era professor no Liceu Pedro Nunes - o primeiro orientador pedagógico do ensino da Educação Musical no nosso país...), mesmo dispensado da colaboração que mantinha com o Teatro de S. Carlos. Os poderes que mandavam neste país deram-se ao luxo de condenar alguém que, supostamente, parecia 'incómodo'.
Junto outra palavra a delação: arbitrariedade.
Tudo me pode ser permitido, desde que tenha do meu lado aqueles que mandam. O Poder.
E desaguo na minha preocupação: em que águas navegamos agora? que ondas estarão para vir?
Desço para o fim de noite no café da rua. Desemboco numa conversa de pescadores. Animo-me. Gostava de saber daquelas artes. Porém, dou comigo a confessar que sou um leigo na matéria: eu, pescador fingido em cada Agosto num braço do Minho, a usar pedaços de maçã como isco como se estivesse à espera de qualquer peixe - Adão em busca de um mundo novo.
Eles ouvem-me com respeito e prometem-me lições, ajuda e tudo o que for preciso.
Confio. Sinto que da parte deles não haverá qualquer delação.
Regresso a casa mais tranquilo.
Pesquei à linha, hoje. E tudo o que apanhei foram preocupações.

1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Gostaria de conhecer a anedota. Se calhar foi corrido por falta de humor...

Pergunta de algibeira: como se chamava a polícia política que tinha a melhor rede de informadores do mundo? (Quinhentos paus mais a satisfação de tramar o irritante vizinho).

Não é credível que um golpe militar tenha alterado uma familiar forma de ser.