sexta-feira, 4 de maio de 2007

Digressão interna (epílogo)

Era chegada a hora de desencadear o regresso à ‘ville blanche’. Sei lá, alguém aventou (Mad Dog?) que seria melhor “fazer algum tempo” até à hora do ferry “A Caminho das Estrelas”, pensa-se que uma homenagem a todos os artistas que despontam para o anonimato, largar ferro para a travessia trans-Tejo. Sei lá, amortizar tabaco manhoso, trocar reminiscências e continuar a investigação dos homicídios em carteira.
Dava-se, porém, a circunstância de, com o intrigante desaparecimento do Landru, não haver mortalhas, e de os presentes serem demasiado ortodoxos, procedimentalmente, e avessos a todas as práticas desviantes, tais como, re-utilizações, reciclagens. Mortalha é mortalha, como em “o vinho é minha mortalha, o copo é meu caixão”. Capice?
Clarence ofereceu-se, por tudo isso, para interpelar os locais que trotavam pela Avenida da Praia, nas imediações do banco de jardim em que os sobreviventes recuperavam fôlegos. Clarence ensaiou, sem êxito, vários approches:“O senhor desenrasca-me uma seda? Abonas uma seda? Pode ceder-me uma seda?
“”Não percebo, os gajos fogem…”. Estranho, de facto, nós também não atinávamos com a razão para tanta falta de cooperação e solidariedade. E resolvemos deitar-nos ao caminho.
Arrastámo-nos umas centenas, ou seriam dezenas, de metros em terreno muito acidentado, dir-se-ia um percurso radical para tropas especiais, e aos primeiros ataques sérios de tosse, às primeiras quedas, quais baratas tontas fizemos sinal ao primeiro e único táxi que rodava por aquelas picadas. “Lisboa…a galope”.
À frente, no lugar do morto, seguia o delegado da China, atrás, coabitavam o delegado da Suécia e o Clarence. Ou porque a jornada fôra dura ou porque as juras gritadas do Clarence, em como haveria de “matar todos os comunistas”do universo, o afligiam, o Luís P. encostou-se e desatou a ressonar. Roncos tais que só terão paralelo nos índios do Amazonas que ferram o galho em redes para afugentar os animais selvagens.
“Este gajo é uma vergonha”, lamentou o Clarence, aproveitando para lamentar: “logo hoje que matámos o Landru”.
Entretanto, o taxista aparentava estar mal disposto, a julgar pela lividez da fuça e rigidez do pescoço. Decidi acalmá-lo.
“”Não ligue, são uns brincalhões. Como se chama? Gosta de ser fogareiro? Já foi assaltado? Anda armado? Como avalia o excepcional trabalho do governo de José Sócrates?Que pensa da ‘terceira via’? Se não fosse taxista que gostaria de ser? “
“Como adivinhou? Ando a escrever um livro, mas com esta merda do táxi ainda só avancei uma linha…”
“É o mais difícil. Agora é só juntar entulho. Como é essa linha?”
“É um bocado repetitiva. Pacheco Pereira é uma morsa. Pacheco Pereira é uma morsa. Pacheco Pereira é uma morsa. Pacheco Pereira é uma morsa.”.
Felizmente, acabávamos de chegar à fronteira de Lisboa.

JSP

3 comentários:

André Carapinha disse...

Magnífico relato. Os meus parabéns ao JSP.

zemari@ disse...

Saravá, JSP!!! Manning nice...

soda disse...

Aprovada a nomeação como cronista-mor proposta pelo Zemari!!! Venham mais «estorias» dessas ...que a nossa única arma contra os dias cinzentos(pois não somos americanos !!!)é o riso !