segunda-feira, 14 de maio de 2007

Mambo 19

Lubango 2005


Entrava-se lá para os fundos, por um corredor entre um prédio e a casa. Na sala composta por quatro ou cinco mesas compridas em madeira, os alunos sentavam-se em bancos corridos. Em cada uma delas morava uma classe, da primeira à quarta. Todas as classes tinham a mesma professora que ensinava, dirigia, controlava, no mesmo espaço e em simultâneo todas elas. Havia respeito, também algum medo. A professora ensinava em sua casa, era portanto uma escola particular. À hora do recreio, saía-se ao pátio onde saltitavam os seus gatos. Havia tempo, para se comer o lanche trazido e para se brincar um pouco à macaca, às escondidas... Quando a professora chamava, as crianças entravam sem ser a mastigar. Sabiam que se passassem uma determinada porta estariam na intimidade do seu lar, por isso ficavam-se pela sala grande e pelo pátio. A única casa de banho da casa era no quintal, quando chovia tinham que ir a correr. Não a podiam deixar suja, porque seriam responsabilizados de forma séria. Quando um aluno da última classe não sabia alguma matéria básica, um miúdo das classes anteriores tinha de responder e o outro era então confrontado com a sua falta de estudo perante a sabedoria do mais novato, ficava enxovalhado no seu orgulho de mais velho e o vencedor da resposta ganhava brilhos nos olhos da professora. Todos os erros eram uma declaração de guerra por parte da professora, que armada das palmatórias de vários tamanhos segundo as palmas dos garotos, desencadeava a matança à ignorância de forma muito física. Um erro de ortografia num ditado, correspondia a uma palmatoada. Uma conta enganada, outra. Entre as suas armas estavam também as puxadelas de orelhas de preferência com vinco de unha, os abanões de bochechas, os deveres carregados para casa, a folha de reprimenda escrita no caderno diário para o pai assinar, a não ida ao recreio e uma muito especial para os casos mais graves de indisciplina ou preguiça. A nossa professora tinha em casa uns chifres de impala. Guardava-os lá numa parte da sala. Estavam munidos com um fio, que servia para os segurar à cabeça de algum menino. Então, escolhia um outro miúdo para ir passear com ele ao café Tirol, que ficava em frente. Ia para a janela, para verificar os trajectos e o cumprimento das ordens. Uma vez calhou-me. Sob pena de ser castigada também, acompanhei um colega com uns chifres de impala na testa. Era impossível a rebelião, havia sempre um possível tormento maior para os dois. A nossa professora primária era terrível, mas aprendíamos e todos passávamos nos difíceis exames nacionais, porque não aprender até chegava mesmo a doer. Nesta singular escola, andavam os alunos mais cábulas, desinteressados, preguiçosos, rebeldes, mal-educados e aqueles que por via familiar iam lá parar com esses irmãos que professavam o desespero dos pais. Entrei aos cinco anos para este tipo de ensino, por causa do meu irmão que queria ser um bicho cego, surdo e mudo para não ter de estudar. Um dia não me apeteceu fazer bem os deveres para casa, a minha cópia parecia escrita por um míope, as letras ocupavam cinco e seis linhas de uma só vez. Na outra manhã lá estava a palmatória elevada no ar, pela primeira e última vez dirigida às minhas mãos pequeninas da primeira classe. O meu olhar aterrorizado salvou-me do impacto. A professora perdoou-me porque só encostou a face do instrumento às linhas do meu destino, depois só ralhou infinitamente. A professora tinha um marido bonzinho. Tinha perdido um olho e usava um pano preto, a tapar a assustadora cavidade. Às vezes, ela pedia-lhe ajuda para fazer um ditado. Ele dizia vagarosamente todas as palavras e ela deitava-lhe um vociferar de zanga. A professora também cuidava de nós do lado de fora da escola, enquanto esperávamos os nossos pais no passeio, perto das janelas da sua casa. Num Carnaval, deitámos serpentinas para dentro de um carro estacionado. A nossa professora viu tudo, desde a sua cortina afastada. Obrigou-nos a esperar pelo dono do veículo, a pedir-lhe desculpa e a apanhar todos os papelinhos com que tão traquinamente nos tínhamos divertido. Era uma professora muito atenta.
Os nossos pais gostavam, agradeciam-lhe todos os castigos, menos quando falhava a palmatória e apanhava o pulso do aluno
ou então tinham de lhe pedir, por favor ao meu filho não lhe puxe as orelhas porque sofre de otite, no resto está à vontade, aplique-lhe os curativos… Nós sabíamos que os nossos pais, tinham-na envolta num grande respeito, porque todos aprendíamos. Na modesta casinha verde, era a nossa primeira escola de verdade, lá viviam também a nossa professora, o seu marido bonzinho com o pano preto na falta do seu olho, e os seus gatos muito educados. Um dia eles morreram e ficámos todos tristes.
Muitos de nós terminámos a primária, numa escola oficial onde já não batiam nem ralhavam, mas nós já não gostávamos tanto da professora. Já não era nossa.

2 comentários:

André Carapinha disse...

O meu ensino primário não foi muito diferente... Embora em escola oficial. Em Luanda, como sabes.

A pior coisa era quando a prof. saía da sala por uns minutos, e me deixava (era à vez, mas só para alguns) a horrível tarefa de tomar nota dos mal comportados. Depois, desatava toda a gente aos berros, de tal modo que era impossivel dizer que ninguém tinha feito barulho (supostamente deviam estar todos caladinhos a trabalhar, o que nunca acontecia). E eu via-me no pior papel possivel: tinha de escolher os 4 ou 5 para as reguadas (a minha gostava era da régua), porque a outra opção eramos todos... Eu nunca apanhei nenhuma, claro, porque sou branco.

Outra coisa muito curiosa eram as paradas dos Pioneiros. Eu estava à frente de um grupo de uns 15, e tinha um lenço laranja e preto, enquanto os outros tinham um vermelho e preto. Acho que sabes o que isso queria dizer: eu era o chefe de brigada, o "el comandante" do virar da esquina. "Viva o camarada presidente", gritavam os putos ranhosos, descalços, mas todos com o lencinho, debaixo de um sol abrasador. A minha função consistia, claro, apenas em liderar o pelotão, que nunca ninguém me perguntou nada, nem sequer me convocaram para qualquer reunião ou sessão de doutrina marxista-leninista-netista-a la africaine. O comunidsmo abaixo do trópico de câncer, no seu esplendor.

A UNITA e os sul-africanos andavam tão perto que parecia que se cheiravam. Uma vez faltou a luz durante 5 dias. Outra vi um militar a abater um homem em fuga, presumivelmente ladrão, no meu bairro pacato de classe média-misto (branco e preto). Outra ainda a minha mãe, que tinha medo de ratos, disse-me "vi um rato", eu percebi "vi um rapto", e sairam os nossos amigos cubanos da farra do rum e camarão, de metralhadora em punho, para "matar o rato"...

Mas não deixaram, até também por isso, de ser tempos maravilhosos, os melhores da minha vida, e não deixo de me sentir um priveligiado por ter vivido a infância onde vivi, sobretudo por ter tido os melhores amigos que se pode ter, e conhecido a melhor gente que há.

Gabriela Ludovice disse...

André, obrigada pela bela partilha da tua infância numa escola de Luanda. Acho que compreendo essa saudade teimosa, também me habita ruidosamente. De diferente é a época, a minha poderá ser localizada no final dos anos 60, princípos de 70s, ainda no tempo da colonização e na minha escola, como podes imaginar, todos os que levavam palmatoadas eram brancos, porque os meninos negros não andavam quase nas escolas e menos ainda nas particulares. Sempre me perguntei por onde andariam as outras crianças...