segunda-feira, 17 de março de 2008

Exercícios

O exercício, de encontrar aquela alma

As palmas das mãos são como canoas tornadas inquietas pelas suas brechas futuras, as que as levarão ao desleixo de não ter como se abrir, que na língua mais clara, se chama afundamento.
Antes disso, precisam de fazer algo mais importante, que é ver a alma do outro.
Essa coisa que foge a sete pernas, a hospedar-se na debandada, a rir-se desde o algodão do poente que depressa se desfaz em cegueira de noite, essa coisa que nos empurra a acreditar que não bastam as outras coisas de uso mais vago, como os olhos a libertarem sossegos ou as palavras entretidas de melancolias no embalo dos descontos da vida, para que seja alcançada.

Essa coisa da alma do outro, não é caça que se estende com balas ou pauladas tamanhas nem cozinhado que se mexa na sua quentura.
É preciso saber do seu porto que oferece a chegada, para para lá sem morte, se viajar.
A alma assoma-se desse mundo, que é a pele que não nos pertence encostada a uma palma de mão que é a nossa.
Essa é a lição, do exercício de aprender sobre o estranho mundo de dentro.
Se queres ver-lhe a alma, tens de tocar!

Aconchegá-la à realidade, com as tuas mãos.

1 comentário:

Anónimo disse...

“dedos e dedos

voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
na ternura completa das mãos

inventemos asas até que nos
tenham como irmãos os pássaros
e as crianças nos persigam
pelo areal – o voo que é delas também.

acredita que o nosso olhar tocará um dia
o horizonte com tal força que a nossa palavra
ficará redonda, redonda como os ombros
desta noite em que te convido a descobrires
comigo o amor enorme que a maré nos tem

quando nos cobre os pés e nos obriga a nascer.”

Vasco Gato em “UM MOVER DE MÃO” Out 2000