sexta-feira, 21 de março de 2008

As razões dele
O perdidismo da sua mais nova, resolvia-se por vezes nos aromas do mar. Chegava orientar-lhe a cintura do corpo na direcção da brisa e alastrava o assalto de um sorriso, na paragem de seus olhos.
Tinha de tomar conta de todas elas, era seu mérito e dever de marido rico de mulheres.
Cuidá-las com palavras cavadas no adocicado, por vezes gritos grossos de humores trazidos do mundo, outras barcos nas mãos para as viagens de pele, trocas de serviços, o beijo pelo prato.
No ajuntamento com a mais velha, conseguiu umas quantas cabras castanhas com manchas brancas, não puras de raça, mas um bom dote ainda assim.
Ao fim de uns tempos veio a do meio, com a devida autorização de coração da primeira, cansada de procriar e ser sempre ela a consumidora dos abismos da cabeça dele.
Estava na hora de o repartir como uma comida amarga só na nossa boca, ainda a paciência lhe sobrava para os desaforos do seu homem mas o seu parideiro volume, já lhe esmolava violentos descansos.
Quando lhe disse aquele sim sombreado pela quebra de si mesma, ele trouxe a segunda para a casa do lado, com a mesma árvore e sua amedrontada sombra.
Ficaram amigas na mesma história dos sucessivos arredondamentos e desarredondamentos.
Nos luares fortes, as conversas giravam entre os três, num balanço de leves digestões o mambo do milho, os enlameados futuros dos filhos todos que falhavam o saber escrever numa repetição de gerações, o terreno enchuvado a estragar a melhoria de vida, a morte dos que primeiro se tinham encovado de tristezas na doença de muitos nomes ou que num atropelamento de rua para a cidade, se tinham feito sangue solto nas areias.
As duas eram como os dois braços musculados dele, livravam-no de muitas incumbências, sabiam como manter as estrelas no alto do seu planalto. Não pareciam sofrer o fazer da existência, juntas como irmãs de destino comandado por ele.
Mas a mais nova só se derramava a sonhar pelos poucos cantos, que havia. Não queria saber do fundo de panelas, nem do rio seco com roupa a atravancá-lo de cor nem da lâmina da enxada a fazer surgir palavras de comer nos lábios da terra.
Não tinha terceira casa para ela, mas um nicho de amor sem janelas, antes recolha de quintal.
Elas desprezavam-na.
Os miúdos sorriam-lhe.
Ele não sabia bem que fazer com ela.
Desconhecia o que ia fora dela por ignorar o que estava lá por dentro, onde ela estava o mundo ficava com mais espaço mas escapava-lhe mais, ao raciocínio de chefe de casas.
Parecia um peixe fora do seu maternal liquido, não havia murete onde se sentisse encostada nem solas de pés que a entusiasmassem com desvios de sonhos.
Quando se afogava de amores por ter sido a escolhida entre as outras duas, para com ele amanhecer , só então parecia suster-se com substância.
Ele estava a ficar em alargados desesperos, mas gostava da sua nova condição; esta permitia-lhe um estatuto mais macho, ser o chão onde ela se alcunhava de vida, numa guerra perdida com a realidade.

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