segunda-feira, 17 de março de 2008

Da Capital do Império

Olá!

Hoje quero falar-vos de quatro medalhas. Lado a lado unidas por uma pequena barra cilíndrica. Perderam a cor por falta de limpeza e são hoje todas acastanhadas, cor de bronze.
Pertenciam a um velho que conheci. Quatro medalhas que me confirmam as histórias que me contou. Força aérea no norte de África em luta com as forças de Rommel que avançavam. Levantavam voo de uma pista no deserto bombardeavam as unidades alemãs em avanço da blitz krieg e quando regressavam horas depois já tinham que ir aterrar noutra pista mais atrás devido ao avanço rápido das tropas de Rommel.
“Era como ir ao serviço,” disse-me ele. “Bombardeávamos voltávamos, enchíamos os tanques bombardeávamos, voltávamos”. Falava dos egípcios em termos politicamente incorrectos. “The Gypos”.
Depois foram as missões de apoio à resistência de Malta em que a maioria não voltou. Ele voltou. Teve sorte. Sorte que o levou depois à campanha de Itália. O seu enorme respeito senão mesmo adoração por esse carácter dúbio que foi Montgomery transbordava das suas palavras, referindo-se ao general britânico sempre como Monty. Já Patton o americano era um “cowboy”. Recordava com um sorriso a máxima do americano: “Nunca nenhum filho da puta ganhou uma guerra por morrer pelo seu país. Ganhou por fazer os outros filhos da puta morrerem pelo pais deles.”
“I am one of those bastards,” disse ele um dia.
Em Itália Monte Cassino e outras tantas batalhas até ao empurrão final das forças nazis. Depois os bombardeamentos punitivos sem misericórdia contra alvos na Alemanha até à derrota final do nazismo.
Ficou visivelmente irritado quando lhe perguntei sobre Dresden e as bombas incendiarias; a ofensiva aérea de “bomber Harris” que numa só cidade matou mais alemães do que a atómica de Nagasáqui. A guerra é assim, faz se para ganhar, disse-me. Estranhamente não tinha qualquer ressentimento contra os alemães. A sua guerra foi feita do ar, onde a única coisa que conheceu dos alemães foi o fogo antiaéreo que a si por milagre, sorte, perícia, nunca o afectou. Odiava e temia o fogo antiaéreo, não os “Jerrys” que o disparavam. “Ainda hoje tenho medo e tremo só de pensar nas explosões da flak,” dizia-me ele
Ganhou quatro medalhas. Todas elas dadas no fim da guerra. Estranhamente nunca as tinha mencionado. Muitas vezes - isso sim - tinha falado dos seus aviões, dos seus motores – como ele amava aqueles motores – e da camaradagem e esforços para se arranjar bebidas alcoólicas no meio da guerra.
Morreu há uns meses. Poucos notaram. Menos ainda choraram Dei com as medalhas outro dia. Fechadas num saco de plástico transparente. No fundo de uma gaveta. Olhei-as e não sei porque fiquei embasbacado a olhar para aquilo.
Uma guerra. Brutal. Justa. Em troca quatro medalhas. Esquecidas num saco de plástico. No fundo de uma gaveta. Faz pensar.

Abraços

Jota Esse Erre

2 comentários:

AZUL DRAGÃO disse...

De facto faz pensar...
Faz pensar em muita coisa !

Anónimo disse...

Se uma guerra justa faz pensar o que se dirá da guerra no Iraque