terça-feira, 18 de março de 2008

Mambo 37

Para ti Papito, algures.. feito Estrela
Foto:g.ludovice
Aproximei-me em passos vagarosos dele, estava sentado à secretária na sua biblioteca, a pensar ou coisa assim. Ao fundo rente ao tecto, havia uma rasgada tira de janela por onde o pai espreitava os poentes e nos chamava para com ele, os vermos. Estava lá essa janela, porque ele a tinha desenhado para só isso. Estendi-lhe uma pequena encadernação de capa verde. A primeira folha estava guardada para ele escrever-me uma coisa com que eu pudesse iluminar o resto da minha vida, queria eu. Não adivinharia o que lá poria ele, só sabia que seria especial, que ficaria diferente de todas as outras pequenas rectangulares páginas já escritas por colegas, professores e amigos. Acho que por volta dos dez anos, era costume ter-se um livrinho destes, era como um acrescento à existência, sempre que o abriamos nos viamos como pequenos tesouros aos olhos dos demais, para além de que ali ficavam as caligrafias e marcas das pessoas importantes que iam e partiam da nossa vida, muito mais rápidamente do que suporíamos, tão breve é a vida e tão enrolada é a história do mundo para alguns. Agarrou no livrito com as suas mãos parecidas com as minhas agora, olhou-me com aqueles castanhos olhos doces quase de criança e escreveu: "Se eu pudesse agarrar uma estrela no céu, não seria mais feliz do que ter a filha que Deus me deu." E como as estrelas são para mim tão grandiosas, fiquei naquela altura sem perceber como podia o pai dizer-me uma coisa daquelas.

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