sábado, 29 de março de 2008

Diálogo Touraine/Marcela Iacub: “Maio 68, liberdade sem fim…”

Esta longa entrevista publicada hoje no Libération, dá sequência ao exponencial de textos que surgem para comemorar/perspectivar Maio 68. Trata-se de um diálogo entre o venerando sociólogo Alain Touraine e a historiadora Marcela Iacub. Touraine, que hoje navega nas águas de um Michel Rocard, revela alguns lances da sua convivência com Cohn-Bendit, em Nanterre, onde tudo começou em 22 de Março de 1968. Ler o texto na íntegra, aqui.
Touraine desenvolve mais alguns lances da sua dinâmica reflexão sobre a importância dos movimentos sociais e da representação política. “Hoje, não se acredita na acção. Apoiar a acção era acreditar na acção política contra os monarcas e,sobretudo, apoiar o movimento operário”. E tudo porquê? Ele tenta explicar: “Creio que, com o fim do movimento operário, a extinção da União Soviética e a supremacia dos EUA, a cena social francesa esvaziou-se”.

Maio 68 é qualquer coisa de extremamente novo, que o sistema politico e cultural não estavam preparados para receber. Se se fala, hoje, tanto dele, é por que esse acontecimento singular recomeça a fazer sentido. O periodo liberal posto em prática em 1970/75 na Europa, começa a dar sinais de esvaziamento. Não se pode viver sem um grande projecto. E o projecto consiste em reconstruirmos o que foi desfeito e desfigurado”, sublinha.

Marcela Iacub perspectiva mais a libertação dos sentimentos, desde o início da Revolução Francesa. Touraine destaca o facto de, ao contrário da Inglaterra, o direito de voto para as mulheres em França, ter sido só reconhecido em 1945. “Os estudantes exprimiram um sentimento de grande ruptura e in-ovação. Entrámos, de repente,num mundo que se desconhecia. A França acabava de sair de uma série de acontecimentos maiores: as guerras mundiais, depois a reconstrução e depois as guerras coloniais”, aponta o autor de “Crítica da Modernidade”.

Touraine vai ainda mais longe e afirma: “Maio 68, liberdade sem fim. Tradicionalmente, os que são liberais em economia, são repressivos culturalmente. A partir de 1975, entramos num periodo liberal. É o início de um periodo repressivo que, actualmente, tomou formas gigantescas. Entre meados dos anos 70 e hoje, assistimos a uma regressão enorme. O que se discute sobre a prisão perpétua para os delinquentes sexuais susceptíveis de reincidirem, era impensável há trinta anos atrás".

FAR

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