sexta-feira, 28 de março de 2008

Toni Negri ao “Le Monde”: Maio 68 corre-nos nas veias para sempre!

Os 40 anos da efeméride exaltante de Maio 68 prometem um dilúvio de teses e de cerimónias evocativas. O Le Monde, o jornal de centro-esquerda francês mais conhecido no Mundo, resolveu dar à estampa um número Especial sobre o tema. Sob a batuta do sociólogo Jean Birnbaum, optou por entrevistar António Negri, um dos mais conhecidos filósofos e altermundialistas da mouvance italiana.
Negri anuncia na sua residência de Veneza, que quer compor uma Autobiografia para ser publicada até ao final do ano.

O “maestro cattivo”, o cúmplice de Deleuze e Guattari, traça as diferenças essenciais entre o Maio 68 francês e o italiano. A experiência italiana começou nas fábricas e repercutiu-se nas Universidades. A insurreição tricolor começou em Nanterre-Universidade, se bem que Debord e os seus muxaxos tenham andado a espevitar a coisa uns anos antes por Estrasburgo, Lille e Toulouse.

“Sim, Maio 68, foi o fim do velho movimento operário. A reconstrução terminou e assiste-se a uma formidável mutação dos assalariados. Em Maio 68 nasce um movimento que procura reinventar o comunismo de outra forma. Depois disso, o capitalismo soube-se organizar. Helàs, ao contrário do movimento operário”, afirma Negri.

Birnbaum questiona-o se o conceito de “multitude”- massa, classe e outras coisas mais - nasceu em Maio 68. Negri atira: “ O operário indistinto cede o seu lugar ao trabalhador social. Na linguagem marxista, fala-se de produção para as mercadorias e de reprodução para a vida. Melhor seria realizar o inverso: dizer produção quando se fala da vida e reprodução quando diz respeito às mercadorias. É esta mutação que é fundamental em Maio 68“.

“Afirmar que a produção é cada vez mais “ imaterial”, é sublinhar que em realidade ela se torna cada vez mais vital, e que o elemento corporal se revela decisivo. 68, é a revolução dos corpos, uma reivindicação de libertinagem que passa pela libertação do desejo“, reitera.

Negri elabora um terrível requisitório contra a Esquerda tradicional: “O socialismo real é incapaz de compreender isso: não é mais possível organizar a produção e as pessoas de maneira vertical e hierarquizada. Passámos da hierarquia às redes! Em Maio 68, isso foi claro, nós tínhamos assimilado essa mutação, de um ponto de vista teórico. Mas perdemos sobre o terreno político."

“Como diz a anedota, os verdadeiros marxistas estão em Wall Street. A esquerda não conseguiu compreender esta mutação. Ela abordou-a, tão-só, sob o aspecto negativo, da forma: o comunismo acabou. Existe uma grande crise da Esquerda, hoje. Não é somente devido ao facto de não ter compreendido a nova base material da nossa sociedade. Mas também isso se prende com o facto de não ter sabido mudar, de não ter conseguido reorganizar-se, acabar com a velha forma do partido bolchevique, um modo de funcionamento que não se adaptará nunca mais ao processo de trabalho actual, isto é, intelectual e baseado em redes “. E conclui: “ Mas o pior erro da esquerda, é de não compreender a fraqueza do capitalismo, que é agora obrigado a apoiar-se num tipo de pessoas como Bush, Berlusconi ou Sarkozy. O sistema está terrivelmente fragilizado, porque o capitalismo financeiro é uma forma absurda de dominação: eis, o que a Esquerda não percebeu“.

FAR

8 comentários:

só naquela disse...

e um linkzinho não há? É que o pessoal gostava de ler a entrevista

Armando Rocheteau disse...

só naquela:
E o cuzinho lavado com água de malvas? E o pessoal a procurar os links?
Só naquela de exigir visitantes que também vão às coisas.

Armando Rocheteau disse...

Só naquela de ser realista e exigir o impossível

Anónimo disse...

A entrevista foi tirada do número especial do Le Monde, em papel.Por aí, em Portugal, já deve ter chegado. Aliàs, o Libé também já realizou uma.

Agora, outra coisa: o Google francês inclui o texto Breaking News, Breaking News que fiz à saída do último livro do Badiou, Petit panthéon portatif. Assinado pelo FAR e remete para o Blogue. Já existe outro: um pequeno texto de Bakounine. Assim se vê, a árdua missão dos que querem avançar. FAR

só naquela disse...

FAR, obrigado pela ajuda, mas não estou em Portugal. domage, mas obridago pelo Breaking News.

Armando, filho, relax fuma uma, eu procurei no lemonde.fr mas não encontrei. Por isso pedi o link, só naquela de ler.

Giuliano disse...

Figura debatida Toni Negri:

herói para alguem
terrorista para outros

Armando Rocheteau disse...

Caro só naquela. Segui o seu conselho. Fumei e fui procurar o link. Encontrei na recherche do Le Monde. Só que o acesso é pago.
Abraço

Anónimo disse...

Eu agora- depois de ter " composto " o artigo -passei a ler os comentários do The Huffington Post sobre o texto do Krugman a atacar as proposições económicas do Obama...Que vinha ontem no NY Times. 128 comentadores comentaram o texto do Prof de Princeton, que se diz " teleguiar " o cluster económico de Hillary Clinton...

Bom vento! FAR

Tenho mais textos sobre/ de Antonio Negri, que acaba de publicar um livro muito denso sobre
o Espinoza. FAR