quarta-feira, 19 de março de 2008

Augusto Santos Silva



"Como a Jane Birkin atirou o ministro para o trotskismo

O ministro dos Assuntos Parlamentares partilha os apelidos com o banqueiro fundador do BPI mas não há qualquer laço de família a uni-los, apesar de ambos serem do Porto,Augusto, o ministro, é Santos da mãe e Silva do pai, um casal humilde de enfermeiros do Hospital Santo António.Artur, o banqueiro, pertence a uma família que há quatro gerações tem membros que dão o nome a ruas do Porto: o bisavô foi um dos líderes do 31 de Janeiro, o avô ministro da Educação da I República e o pai um advogado do reviralho que desafiou Delgado a candidatar-se à presidência.Apesar da ausência de tradições na família, o jovem Augusto forjou precocemente uma sólida consciência política. Em 1970, pediu à mãe que lhe oferecesse a Obra Poética de Fernando Pessoa em papel bíblia como prenda pelo seu 14.º aniversário. Os 70 escudos que custava o livro não foram suficientes para fazer a mãe desistir de lhe fazer a vontade.Intermináveis tardes de discussões sobre existencialismo na sala de bilhares do Rumo, na Rua N. Sª de Fátima, à Boavista, foram decisivas na sua formação, mas foi a improvável Jane Birkin que atirou Augusto para os braços do trotskismo.Uma bela tarde foi ver o "Blow Up" ao cinema Estúdio, em Costa Cabral, onde o porteiro era permissivo e deixava menores de 17 anos entrar em fitas classificadas. Ficou com a respiração suspensa quando Jane Birkin e as amigas entraram no quarto do fotógrafo e se começaram a despir. Mas o fotograma seguinte mostrava a cantora de "Je t'aime, moi non plus" a abotoar-se.Esta censura foi a gota de água que transbordou o copo. Tornou-se anti-fascista. No liceu, no ocaso do marcelismo, a rebeldia juvenil era disputada por duas tribos de maoístas e um pequeno núcleo trotskista. Optou por este. "Se a Birkin me obrigava à acção, o trotskismo descansava-me: a acção bem podia continuar a ser ler uns livros e revistas, agora um bocadinho menos convencionais".Membro do semiclandestino Comité de Acção Liceal do D. Manuel II, seguiu à risca o programa de formação base - Iniciação à Teoria Económica Marxista, de Ernest Mandel, um ensaio sobre o Estado de Lenine e o Combate Sexual da Juventude de Wilhelm Reich - e deu o seu "supermicrocontributo" (a palavra é dele) ao derrube da ditadura. Uma greve política de solidariedade com a proclamação pelo PAIGC da independência da Guiné e a recusa em participar no concurso Taco a Taco que punha em competição na RTP os melhores alunos dos liceus (o D, Manuel venceu, apesar de alinhar com as reservas por causa do boicote político dos titulares) foram as duas acções mais vistosas em que esteve envolvido, para além da participação em reuniões clandestinas, na encosta da ponte da Arrábida, e em manifestações relâmpago à saída das fábricas onde distribuíam panfletos contra a guerra colonial.O 25 de Abril apanhou-o como militante clandestino da UOR (União Operária Revolucionária), um grupúsculo trotskista, que posteriormente se viria a integrar na LCI (Liga Comunista Internacionalista), onde começava a despontar a estrela de Louçã. Ele, porém, não chegou a integrar-se.Se a aproximação ao trotskismo foi cinematográfica, a ruptura foi livresca. Saltou fora depois de ter lido um livro onde se detalhava o papel de Trotsky, como comandante do Exército Vermelho, no esmagamento sangrento dos marinheiros em Cronstdt.Atravessou o Verão Quente como militante desalinhado da esquerda revolucionária. Na Faculdade de Letras, era ele quem mandava, contratando professores e desenhava os currículos. Cá fora, desenvolvia um trabalho de base, de animação cultural e social nos bairros pobres, de que uma das coroas de glória foi a construção de um infantário em Campanhã. Começou em 1976, na candidatura presidencial de Otelo a longa marcha que havia de o levar até à entrada para o PS, em 1990. Em 1980, está com Eanes na candidatura presidencial. Em 1985 está com Pintasilgo na primeira volta. Na segunda, junta-se à campanha de Soares integrando um grupo de ex-MES que iria aderir em pacote ao PS. No momento em que o seu passado político o atinge como um "boomerang", depois de ter reagido com críticas a Cunhal aos insultos sofridos em Chaves, Augusto Santos Silva garante que vota no PS desde 79 e que nunca votou no PCP. E confessa que em 1974, quando tinha 18 anos, ele estava do lado errado e Mário Soares é que tinha razão.
"
JORGE FIEL, Diário de Notícias, 19/03/2008

13 comentários:

Anónimo disse...

O Porto tem( tinha...) duas linhas opostas de homens do reviralho, desde os finais dos anos 6o. Uma muito forte dirigida pelos intelectuais do PCP, com Óscar Lopes e os seus amigos a " controlarem " os média e as editoras. A outra, era um magma esquerdista- onde se inclui A. Santos Silva, portanto- que tinha muitos contactos com Paris, onde o José Mário Branco e outros mentores propagavam o ideal maoista; e onde existiam ligados também à Invicta refugiados e desertores fascinados com Trotsky e outras expressões teóricas de crítica ao estalinismo. De salientar, que toda a fabulosa agitação intelectual- sem ideias nada se faz- do Porto, e do Norte, e de Portugal(aussi...),se cataliza na actividade de, pelo menos, duas grandes editoras: a Afrontamento e a Rés, onde sairam grandes textos teóricos- Kollontai, Barrot, Trenti, entre muitos outros, na altura decisiva e sintonizados, a sério e sem sofismas, com a Europa...FAR

Anónimo disse...

O passado não interessa nada para quem virou facho. Pelo menos Salazar foi sempre coerente, ao contrário desta gente que fareja só o dinheiro e poder. LF

Armando Rocheteau disse...

LF:
Santos Silva virou facho? Fareja o dinheiro e o poder?
Que grande coerência tem vexa!

Anónimo disse...

Armando e todos em geral:

Ver a foto Kimsuniana do ASS no Blogue, se bem que tenha um certo apreço pelo cientista social, parece-me um bocado exagerado...Mas é a tua liberdade de expressão sagrada, Armando.E que isso fique muito claro.

Seria mais interessante, talvez, comparar o discurso, a ciência e o conceito(s) de ASS, em comparação com os seus pares, que fazem política ou fingem que não, tipo M. Vilaverde Cabral, o António Barreto, o Boaventura Sousa Santos, e tutti quanti...

Será que a política esmaga,literalmente, a vida cultural e académica dos seus protagonistas, remetendo-os para a mais esteriotipada das tábuas de lugares comuns? FAR

Anónimo disse...

Ele é lindo. Faz-me um
bóbó cara de cú!

Anónimo disse...

O Nino pelo Benfica dava o cú. Não importa as circUnstâncias o Armando pelo PS dá também a alma e o bom senso

zemari@ disse...

O Nino deixou de dar o cú pelo Benfica e olha onde o clube foi parar.

Anónimo disse...

Isto é um Governo genial: a ministra da Educação tem estrutura anarquista de alto quilate teórico; o A. Santos Silva foi trotskista antes-do-tempo...; o Manuel Pinho foi estruturalista e banqueiro psicadélico; o Mariano Gago, é uma espécie de Bill Gates da Alameda D. Afonso Henriques; o Sócrates é a reincarnação tri-milenar do seu antepassado e homónino. O que é que precisamos mais?!? P. Costa

Ana Cristina Leonardo disse...

Estou com o P. Costa: o que é que precisamos mais?

Ana Cristina Leonardo disse...

uma dúvida que só me ocorreu agora: e qual terá sido a motivação erótica para o santos silva se filiar no ps? Edite?

Anónimo disse...

Daquilo qe eu sei: chamaram-lhe ( ao Augusto Santos Silva) intelectual de varanda. E desafiaram-no! Ele arregassou as manga e aí está, a fazer o melhor que pode!
A única asneira que lhe ouço é tratar melhor do que merece o Manuel Alegre ( o que éuma palermice que eu nunca vou perceber, mas enfim)
É! Eu gosto mesmo do Augusto Santos Silva, ainda me lembro do tempo que comprava o´"público" ao sábado para ler a sua coluna de opinião! A única página de jeito que se conseguia ler em português!
PS.: Não esquecer que o ASS, p. ex., foi que apresentou e fez aprovar a lei do direito ao subsídio de desemprego dos professores! E recorde-se que a sua proposta foi melhor do que a do PCP e do que da FRENTPROF. Factos que revelam a bela merda que são os críticozinhocos deste país. O ASS! FAZ!MUDA para melhor! Coisa que ainda não criou hábito a quem parvamente lhe atira pedras!
A diferença entre eles: O Augusto Santos Silva e os outros é que ele é o " Intelectual de varanda" que tendo-os no sítio saltou para a arena e venham daí os touros! Os outros são eternos candidato à intelectualidade, mas são "intelectuais de POSTIGO, cujo objectivo ébater pivasenquanto reviram os olhitos.

Anónimo disse...

ASS podia fazer suas estas palavri nhas:: "...Há por aí frequentes queixumes de que não temos por cá informação completa. Nada,
porém, do que de verdadeiro se passa e que ao público interesse deixa de ser trazido ao
conhecimento dele.

Mas não é informar bem o público deitar mão a todos os mexericos, a todas as intrigas, a
todas as fantasias, ouvidas nas mesas dos cafés ou a algum intrujão imaginativo, para as
lançar cá para fora como grandes e sensacionais revelações.

Inventam-se tremendas oposições entre pessoas que mutuamente se respeitam e de comum
acordo atuam; divisões internas onde só reina harmonia de vistas; conluios suspeitos em
casos em que estão perfeitamente definidas as posições e assumidas as responsabilidades...

Não fica informado o público que escuta mentiras. O facto de o boato ser propalado por
jornais ou por emissoras não lhe tira o caráter de boato."

Anónimo disse...

Do que precisa Santos Silva e a escomalha que o acompanha é que todos os portugueses malhem nele como se estivessos a amassar o pão que ele nunca comeu!