segunda-feira, 24 de março de 2008

Da Capital do Império

Olá!

Hoje escrevo para vos dizer que o Obambi está um pouco à rasca. Vocês lembram-se que quando ele iniciou a campanha há muitos e muitos meses atrás o homem foi acusado pelos pretos de não ser suficientemente preto. Escreveram-se artigos, comentários, opiniões sobre se o Obambi era “black enough”. Depois o marido da Hilária meteu o pé na poça e insinuou que o Obambi não podia ganhar eleições porque era preto. A partir daí os pretos começaram a votar quase que por unanimidade pelo Obambi, a brancalhada que estava incerta ficou furiosa com mais uma clintonice e votou ainda mais pelo Obambi. A Hilária teve que mandar calar o Bill.
Agora o Obambi está à rasca porque está tudo a dizer que ele é preto e não é suficientemente branco. Isto porque o reverendo da igreja do Obambi, um tal Jeremias, disse em tempos que a SIDA era um plano da brancalhada para matar os pretos e que na sua igreja não se canta God Bless America mas sim God Damn America. Aparentemente isto são coisas de pretos e a brancalhada ficou ofendidíssima porque isso não é verdade e porque o Obambi lhes tinha dito que tinha “transcendido” a raça.
A barraca foi tal que o Obambi teve que ir à televisão explicar porque é que não pode denunciar e afastar-se da igreja que o “trouxe para o cristianismo” (essencial na politica americana). Para tal disse que se o Jeremias de vez em quando afirmava coisas tolas o mesmo fazia a sua avó (branca) quando fazia comentários sobre os pretos e que ele nunca tinha cortado relações com a avó.
Eu fiquei assim um pouco atrapalhado porque as avós não se escolhem, mas aqui na América, igrejas há uma cada esquina e pode-se ir a uma diferente todos os Domingos e conhecer dezenas de reverendos tipo Jeremias cada qual com a sua pancada. O Obambi poderia por exemplo ter escolhido a igreja de um outro reverendo famoso que afirma que tem que se apoiar Israel para garantir a segunda vinda de Jesus. Esse mesmo reverendo disse que o furacão Katrina foi vingança de Deus contra os homossexuais e prostitutas. O problema talvez é que esse é branco e …. ninguém notou.
Tenho a dizer-vos no entanto que os tipos das relações públicas do Obambi fizeram um trabalho excepcional pondo o “transcendente racial” em frente a umas dez enormes bandeiras americanas. Até parecia um presidente preto a falar na Casa dos Brancos (que a Hilária quer transformar em Casa da Branca).
Claro está que por esta altura vocês estão a fazer a pergunta que os americanos estão agora a fazer. O Obama é preto, branco ou transcendente?
Em primeiro lugar tenho que vos explicar que na complicada questão racial americana só há pretos e brancos. Nada pelo meio. O que pode ser confuso. Como vocês se devem sentir quando olham para as fotos do reverendo Jeremias que é mais claro do que muita malta do Alentejo e Algarve ou mesmo quando eu vou à praia. Lembro-me aliás que há uns anos atrás a presidente da Câmara de Washington era mulata de pele clara e um conhecido politico Moçambicano ficou totalmente confuso quando a mesma lhe foi apresentada.
“Tinham-me dito que era preta,” disse o tal moçambicano. “Na América é preta,” explicou um funcionário da embaixada muito sério. “Então eu sou branco,” disse o ministro moçambicano (preto). Olhou para mim e disse: “Tem a certeza que não é preto?” A malta riu a bom rir.
A razão por que o Obambi não era considerado “black enough” não era portanto por causa da sua cor da pele não ter a cor preta. A razão prende-se ao facto do Obambi não ser descendente de escravos, não ter tido família que passou pela era da segregação tipo apartheid que se viveu na América, ter sido totalmente educado por uma família branca (o pai queniano foi-se embora), não ter portanto crescido com conhecimento dos ódios e divisões raciais que marcaram o país.
E paradoxalmente essa é talvez a razão por que o Obambi escolheu a igreja do Jeremias. Na América a igreja é mais que um lugar de culto. É parte viva da cultura, é parte da identificação, parte daquele sentimento tão comum dos americanos de se querem identificar com um grupo ou uma etnia, de estarem sempre à procura das suas raízes – italiano-americanos, sueco-americanos, luso-americanos, “hispanicos”, africano-americanos etc. Uma nação construída na base de enclaves étnicos, raciais, religiosos e estaduais. Quando se pergunta a um americano de onde é, ele responde por afiliação estadual, depois étnica, depois religiosa. Uma nação sem um povo comum e daí a reverência de todos os americanos para com as suas bandeiras, os seus hinos patrióticos, a sua constituição, o seu exército. É o que os une.
O que os divide mas que continua ainda para muitos a ser a sua identificação é precisamente a sua identidade étnica, religiosa, racial, marcada por tragédias e confrontos e no caso da raça marcada pelo “pecado original’ desta nação: a escravatura. A igreja para a população negra é algo de vital. Foi o que manteve os negros juntos, onde nasceram as canções de protesto, o único lugar de reunião durante a escravatura. O único lugar de esperança e onde hoje se ouve ainda a voz irada dos protestos contra as desigualdades da sociedade, muitos deles totalmente desfasados da nova realidade mas reflexo de uma ira contra os vestígios desse passado
O Obambi que em tempos procurou a sua identidade nessa igreja pensava que podia transcender agora tudo isso. O passado apanhou-o e os clintonistas quase que não conseguem esconder o seu regozijo. A Hilária espera que o Jeremias seja o santo que a vai salvar.

Da capital do Império,

Jota Esse Erre

6 comentários:

Anónimo disse...

Hello, JotaSERRE: Bom texto pela filigrana das Informações. Mas acho que V. leva as coisas mesmo muito sérias, a brincar...O que é uma pena,claro?!? FAR

zemari@ disse...

Para a minha sogra, veneranda D. Ilda (n. 1920), filha de 3ª geração de brancos de S. Filipe, ilha do Fogo, Cabo Verde, mas americana, nascida num hospital de Rhode Island, a questão também é simples:
"Tem 'raspas', é preto."

Ana Cristina Leonardo disse...

Um prazer, como sempre

Anónimo disse...

Transcendemo-nos...
Em África há brancos mais
pretos que os pretos e
na Europa (sobretudo em
Portugal!) há pretos mais
brancos que os brancos!
Que ganhe o melhor...

Anónimo disse...

O que me dá mais gozo é ser português com as raizes na fundação da nacionalidade e ver que os meus pares se acham brancos. É um risco que não corro nem no norte da Europa nem nos USA.
LC

Anónimo disse...

E agora que a Hilária mentiu, quanto a ter chegado a Bósnia sob chuva de balas, será que o pentágono concede-lhe a experiência de estar sob fogo cerrado em Bassorá, ou pretos e brancos desistem de votar em alguém que confunde mentira escandalosa com cansaço?