terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Mambo 36

Lubango 2005/ O Pátio


Existia uma porta em vidro, de correr, pesada e grande para a minha verde estatura e depois, o pátio.
Brincava nele a ser nada. Só ficava ali a usar os olhos nos kissondes que passavam, tipo tanques de guerra no seu tamanho de respeito, em fila a ir a algum lado ou em confusão desperta pela minha aproximação. Podia espreitar-lhes as muchilas de pedra e as antenas encostando o rosto à terra.
Só ficava ali a engolir as cores de tudo, a seguir as formas das folhas e das flores, a enroscar-me nos cheiros vegetais como se fossem uma refeição a desoras, que é quando sabe melhor.
O pátio era também uma alcofa de raízes e tricotados verdentos, para ali iam através das lamelas, as gatas vadias expôr as suas ninhadas ao esconderijo. Depois era arranjar vidas para todos aqueles descendentes às riscas douradas, cinzentos tigrados, enfeitiçantes de olhos, felinos em miniatura no meu colo.
Havia uma torneira ao fundo, que fazia de cascata ressaltante ao bater nas duras carapaças dos cágados, sempre que lhes ia oferecer cascas de papaya, talos de alface, deliciosos desperdícios de cozinha.
Eram três e de diferentes gerações. O mais velho buscava-me ternuras. Trazia ao mundo todo o seu áspero pescoço para que lhe fizesse festas nos enrugados escamosos e na testa. Parecia-me que sorria nos seus lábios em bico.
Alegrava-me o facto de me puderem sobreviver. Não me sobretudariam de tristes lutos, como os demais seres aqui e ali e mesmo perto, dentro das casas.
Não sei nem quanto corri atrás da aflição que existia na boca do cão grande que desapareceu em seta, quando o mais velho da familia das carapaças foi raptado pelo brincalhão canino. Apenas umas rachas na casa de castanhos losângulos, no final de tudo sustos juntos, bem assomados.
No pátio, ficava só ali sem nada querer ser, enquanto tudo acontecia numa escala mais pequena tão perto da minha pequena e calada vida também a ser acontecida, no pátio.
As brincadeiras a ser outros existiam, mas não ali, só em volta da casa e na rua, mais perto do mapa das pessoas e de seus amores mais dotados de complicações que o próprio negro brilhante dos kissondes, que o compacto laranja da trepadeira, que a cor de deserto dos cágados e que as riscas amaciadas dos gatos, todos com as suas existências aparentemente simples no meu recatado assombro.

Lá fora, a montanha a começar-se e amadamente espiada desde o pátio e o grito cada vez menos raro de mundos nas pessoas e também, desejos meus ainda com som de casca que flutua, a serem voados depois.

1 comentário:

FernandoRebelo disse...

E eu no meu quintal.
Pirata em navegação, fingindo vagas de metro e meio...
Manhãs de colher umas flores por desbrochar e, com elas, fingir cigarros que se tornavam quase autênticos pelo meu bafo que virava fumo...
Aquele jardim que ainda lá está mas onde não me consentem que brinque mais.
Manhãs ensolaradas de caricas...
O jardim das minhas evasões.
Onde está ele agora que,embora estando, já não é.