quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Azagaia bem disse!

Quando vi as imagens na televisão, na terça-feira, liguei para Maputo e perguntei a um amigo o que se estava a passar. “As pessoas estão fartas”, respondeu-me simplesmente. A revolta já era previsível. O espantoso foi tardar tanto. O salário mínimo nacional, para a indústria, não chega a 50 euros mensais. Para a agricultura fica-se pelos 32 euros. O quilo de pão, ao cabo de três aumentos seguidos, está agora a 58 cêntimos. A gota de água foi o aumento dos transportes semi-colectivos, os chapas, que em certos casos atingiu os cinquenta por cento. De 14 cêntimos para 21 cêntimos. Façamos as contas para uma família de pai, mãe e cinco filhos (normal em Moçambique). Só em transporte para o trabalho e para a escola, gastariam agora 66 euros por mês. Se o pai e a mãe trabalharem (o que já não é mau, porque o desemprego é altíssimo), restam 34 euros para renda de casa, alimentação, vestuário, livros escolares, saúde, etc… Vale a pena prosseguir a listagem? Como já disse, só espanta que as pessoas não se revoltassem antes.

O presidente do Banco Mundial, que concluiu uma visita ao país na véspera dos acontecimentos, não poupara elogios ao “exemplo moçambicano”. Para o Banco Mundial, Moçambique cumpriu todas as metas estabelecidas, e o desempenho fiscal excedeu as melhores expectativas. O discurso oficial do costume, para exportação. Ainda há dias o presidente do banco central moçambicano previa que o crescimento económico, num futuro próximo, andaria pelos 7 por cento ao ano, e prometia: “Nos próximos anos vamos ter uma economia robusta, e isso deve-se em grande medida ao efeito multiplicador dos grandes projectos que se estão a implantar no país”.
“Tu que não percebes economia nem política / Dizem que o país desenvolve / Mas no teu prato não vês comida”, canta o rapper Azagaia, na sua canção “A Marcha”, que toda a cidade conhece e trauteia. Já não há mais contemplações, nem auroras a borboletar maninguemente nos olhos índicos das criancinhas, no discurso gasto dos intelectuais do regime. Azagaia já encheu o saco: “Abaixo o pacifismo / Vamos andar de cabeça erguida / Nem que para isso tenhamos que sacrificar alguma vida”.

Na segunda-feira começou o ano lectivo, com as novas tarifas dos chapas já em vigor. À noite, os pais fizeram as contas, que não podiam variar muito dos valores que atrás referimos, e pela milésima vez concluíram que não havia mais furos no cinto. Na manhã seguinte os utentes saíram à rua e implementaram um boicote aos chapas. Facto de realçar, e que a RTP se esqueceu de referir, o boicote foi convocado por sms: “Não ao aumento da tarifa dos chapas”. As mensagens começaram a circular na segunda-feira à noite, e as pessoas reencaminhavam-nas para os amigos. Sem qualquer iniciativa (ou sequer aproveitamento) dos sindicatos (enfeudados ao governo Frelimo) nem dos partidos políticos da oposição (escleróticos, burocráticos e boçais), todos eles apanhados de surpresa.

Os manifestantes (jovens, muitas vezes crianças) cortaram as ruas, incendiaram chapas recalcitrantes, e confrontaram-se com a polícia, que usou balas de borracha e gás lacrimogéneo, matando (provavelmente) 3 pessoas e ferindo mais de trinta. Ao cortarem a EN1 (que liga ao norte do país) e a EN4 (que liga à África do Sul), isolaram a cidade. Ao cortarem a avenida Acordos de Lusaca (que liga a cidade ao aeroporto), obrigaram ao cancelamento do tráfego aéreo no aeroporto de Maputo. Aviões que se dirigiam para a cidade tiveram que aterrar noutros aeroportos do país, onde os passageiros aguardaram que a situação se normalizasse. Durante umas horas, os manifestantes isolaram a cidade, e paralisaram-na, cortando as principais artérias, fazendo encerrar as escolas e o comércio. Relatando os acontecimentos, o diário mediaFAX noticiou que “população enfurecida” destruiu a Escola Comunitária Armando Guebuza, por considerar que “o Chefe de Estado é o maior culpado da actual crise”.

O governo, apercebendo-se do potencial da revolta, fez marcha-atrás imediatamente. O aumento das tarifas ficava sem efeito, e logo se ia ver. Só que aí os transportadores não estiveram pelos ajustes: “O petróleo aumentou, nós temos que aumentar. Se as pessoas não pagam, pague o governo”. E o boicote passou à segunda fase, desta feita protagonizado pelos transportadores. A esta hora, ao fim do terceiro dia do movimento, parece que o governo está disposto a subsidiar-lhes o combustível. Não admira, se atendermos ao facto do sector ser economicamente dominado pela própria elite frelimista. Subsidiam-se.

José Pinto de Sá

4 comentários:

Anónimo disse...

Avanti J.Pinto de Sá! Serão os chineses, com os seus péssimos costumes de comunismo de mercado, que estão a incendiar África? Salut! FAR

Anónimo disse...

E é o Povo quem mais ordena.
Por cá... reclama-se...
reclama-se... mas nada se faz.
África ainda tem coisas boas.

C. Indico disse...

Mas os Chapas são dos Generais !

José Pinto de Sá disse...

Os chapas são dos generais e de elite frelimista em geral. Por isso o governo cedeu tão depressa às exigências dos transportadores. No entanto, e mesmo se os acontecimentos acabaram por fazer jeito aos transportadores, é inegável que o boicote foi o acontecimento político mais importante dos últimos anos. As pessoas bateram-se, souberam encontrar formas de organização autónomas, e... ganharam.