terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Alain Badiou: “Os partidos são organizações estatistas”

No calor da polémica que nos tem exaltado e jubilado, sobre os limites da Democracia e dos partidos, alternativas e becos sem saída, pareceu-me importante buscar no magnífico e triunfal trabalho teórico de Alain Badiou, de novo, mais algumas pistas de grande acuidade e pertinência. E voltaremos a esse dispositivo de combate e desmistificação, sempre que as circunstâncias o aconselharem, como soe dizer-se…

1. «Distingamos partido, forma específica de acção política colectiva, invenção especial que data do final do séc.XIX, do tema geral que abrange a organização. Toda a política é organizada, disso não se duvida. Mas o partido remete para outra coisa, que ultrapassa a organização. Partido quer dizer: organizado para o Poder de Estado. Hoje, isso toma a forma obrigatória da maquinaria eleitoral, das alianças, da “esquerda unida” e outras invenções, através das quais circula a eternidade negativa da decepção e da corrupção. “Política sem partido”, não quer dizer, de modo algum, sem potência, bem pelo contrário. (…) os partidos, hoje, não são partidos políticos. São organizações estatistas, mesmo que se digam de oposição frontal. Constituem esses partidos, os que “não têm política”, porque o espaço parlamentar dos partidos é, de facto, uma política de despolitização». Entrevista Alain Badiou/Daniel Bensaid, in “Penser la Politique”, Marx au XXI Siècle. Paris.

2. «Durante a fase da política dos partidos, o paradigma lógico era a dialéctica hegeliana, a teoria da contradição. Hoje, a lógica dialéctica hegeliana está saturada. Não podemos já usar o paradigma da contradição. Sobre as hipóteses formuladas por Negri e Hardt, a democracia é a criatividade do movimento. Há nisso uma boa dose de vitalismo. No fim da linha Negri, o conceito permanence no interior da clássica oposição entre o movimento e o Estado. Trata-se, efectivamente de uma concepção vitalista: a democracia é a espontaneidade e a capacidade criadora do movimento».

«Existe, de um lado, a definição da democracia como forma de Estado; e do outro, a Democracia Imanente, determinação colectiva do Movimento. Penso que a oposição Estado/ Movimento também está saturada. Nós não podemos simplesmente opormo-nos à opressão ou ao estado do sistema repressivo, só com, do outro lado da barricada, a criatividade do Movimento. Isto é um velho conceito».

«Devemos procurar encontrar um novo conceito de Democracia, aquele que fica de fora da oposição entre Democracia Formal (que é a democracia enquanto forma e Estado), e o betão Democracia (que é a Democracia do movimento popular). Negri permanece no interior desta oposição clássica utilizando outros nomes: o estado do Império, a multitude do movimento. Mas novos nomes não indicam coisas novas». Entrevista com estudantes, Universidade de Washington, finais 2006.

FAR

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