sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Allegro giocoso


Caro Armando, Webmaster Flash:

Perdoa este incursão confessional, mas é que...estou ficando preocupado com o Manel A. Não sei muito bem porquê, é mais aquela sensação de desconforto, um je ne sais quoi, uma suspeita mal-alimentada de que este ‘puto ainda vai fazer merda’. Sabes como é a juventude? Inconsequente, irrelevante, disposable. Pior, muito pior, como diz o venerável Táxi Pluvioso, são aqueles abencerragens remoçados a botox e delusion que acreditam transportar uma herança histórica autorizada no ADN... os jovens de espírito.
Enclausurados no Espaço, sim, que a imobilidade e a inacção têm álibi, mas quasi-homens livres do Tempo. Isto é, dizem hoje os mesmos dislates que disseram ontem, mas sem sair do mesmo lugar. Numa forma mais popular, são disparatados e preguiçosos.
Pois que estou muito entristecido com a desmesurada atenção que têm merecido as farroncas genuinamente lusitanas do Alegria. Agarrem-me que eu mato-o! Não me desafiem! E outros exemplos da cartilha pusilânime. Quer então dizer o Alegria que se não o desafiarem lá fica tudo como está e já nem é preciso botar mais socialismo no aqueduto. Ó rapaz, se tens algo a dizer, avança, enche o peito e trova, trova, trova. Olha, sei lá, vai a votos.

Sei que se devem respeitar os mais velhos, por exemplo, uma palmada nas costas, mais uma almofada, uma mantinha para os joelhos, ouvir pela uncentésima vez as crónicas do tempo passado. Mas, sujeito de privilégio, o Manel teve direito a ainda mais, muito mais. O PS proporcionou-lhe bom pré, bom conduto, combustível para a alma, e, pai esmerado, até lhe cuidou da reputação. Para não chocar os enteados da sorte, aqueles que têm de andar a chafurdar para encher o bandulho, nomeou-o reserva moral vitalícia e perpétua, papel que tem desempenhado sacrificada e ininterruptamente nestes longos 34 anos que já leva de sabático. E lá de quando em vez, quando o ennui aperta, lá é dado à estampa mais um livrito de rimas. E, coração grande, a rapaziada do Largo do Rato organiza mais uma homenagem ao grande letrista, perdão, estro da nação.

Manel, deixa o Primeiro-Ministro trabalhar. Olha, faz como o Louçã, ameaça que vais partir para uma Volta a Portugal do desemprego, vais à primeira etapa, constatas que não percebes nada do assunto, desistes, e, como ele fez, vai estudar economia. É a poesia, estúpido!


JSP

6 comentários:

Anónimo disse...

Caríssimo JSP:Tem alguma razão quando, com enorme humor e veia,assaca prebendas e mimos ao nosso vate socialista...O pior é que, no PS à portuguesa, todos os tenores se tornaram em Primas Donas, mais cedo ou mais tarde. Veja-se Sampaio, Constâncio, mesmo com a infinita dose de humildade...
Manuel Alegre andou para a frente, no entanto.E tornou-se cada vez com mais classe num óptimo poeta de Amor e Combate.Tem tiques burocráticos derivados desse excesso de intimismo e sofrimento próprio dos vates e pertence a um tipo de Numenclatura Vip de que eu não gosto muito, como é evidente. FAR

Anónimo disse...

O texto está muito bom!
Et pourtant, não me desagrada que continue a haver poesia…

zemari@ disse...

Mais uma boa safra do Rio das Pérolas.
Quanto ao ex-candidato à Presidência da República, deu-lhe uma reminiscência dos tempos da “Voz da Liberdade”.
Além disso, é uma bênção para o PS. Com as suas críticas dá-lhe um aval de partido plural, que aceita tendências, mas que Sócrates sabe serem inofensivas.
O povo nunca verá Manuel Alegre como um “fazedor”.
Se criar um partido será um fiasco ainda maior que o PRD.
Não terá dinheiro nem para mandar cantar um cego num comício.
Ainda por cima, não lhe arranjam à borla, como aos outros, uns gadgets vindos da China.
Por SMS, blogues e e.mails elege um deputado para o Parlamento dos Jovens.
Ainda corre o risco de ter menos votos que o Garcia Pereira, que já devia constar do “Guiness” como o homem que concorreu a mais eleições.
A não ser que os cem mil caçadores deste país votem todos neste seu confrade.
Por falar nisso, vi-o uma vez na área de serviço de Montemor. Com aquela dimensão, vestido de camuflado, cintado de cartucheiras, fez-me lembrar um general mexicano dos tempos do saudoso Zapata.

Em relação à sua obra literária, considero “Cão como Nós” uma obra-prima (e não é por ter cães).

Anónimo disse...

O Manuel Alegre tem que voltar
a candidatar-se, seja para o que
for. E para chefe de campanha à
candidatura proponho o Zé Maria!
E viva a Poesia!

Ana Cristina Leonardo disse...

é poesia portuguesa, com certeza!Leia-se "Doze Naus", prémio D.Dinis 2008

zemari@ disse...

Obrigado e sensibilizado pelo seu alvitre, meu caro, nobre e adamascado amigo anónimo - como dizia o meu professor de História no liceu, o douto Falcão Machado.

Mas a sua sugestão fez-me lembrar a história de uma amiga médica, uma esbelta e atraente rapariga da minha idade, que se apaixonou das unhas dos pés aos belos cabelos escorridos por um jovem interno. Passado um tempo, perguntei-lhe se a nau do amor continuava de vento em popa. "Nã", disse-me, "já 'tou desejosa de desembarcar. Não dá! Ele anda sempre a pensar na carreira e eu só penso na reforma."