sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Schizos e Paranos (2)

Inventar um novo estilo de escrever, de ler, de pensar. Continuemos neste desafio e provação. Mas com os sentidos e o erotismo bem activos, claro. Convidamos todos a participarem. A nos darem as suas linhas de acção e pensamento. A mostrarem as suas escolhas e predilecções. Nas últimas semanas, desencadeou-se uma grande troca cruzada de opiniões, em torno do Holocausto, provocada por uma crónica irregular e despretensiosa sobre uma visita a Auschwitz-Birkenau. O mundo da Blogosfera lusitana vive agora no balanceamento que lhe é permitido pela “ética republicana”, à la JP Pereira, e o trauma luxuriante dos filhos do pós-modernismo militante, de que o Metablogue é o expoente máximo e soberano.

O que se passa, efectivamente, é que a profusão dos comentários, e de alguns marcantes e expressos, criaram uma boa série de argumentos para seguir os conselhos de Wittegenstein à letra. Que nos prescreve, com non-chalance, o autor das Pesquisas Filosóficas? Três coisas, para que Jacques Bouveresse alerta, fundamentalmente: “A primeira, relaciona-se com o facto de não só uma cadeia de razões tem um objectivo, uma finalidade, como muitas vezes não possui nenhum começo. A ausência de justificação (no sentido de ausência de lugar para um problema de justificação), não pode, realmente ser interpretada como uma ausência de legitimidade. Podemos dizer do conceito agonal (reminiscência) o mesmo que Wittgenstein diz da dúvida, pode estar ausente ou funcionar no grau mínimo ou no máximo”.

Na última colecta póstuma de textos, “Deux Régimes de Fous”, Gilles Deleuze aborda as suas relações intelectuais e humanas com Michel Foucault. A traços fortes e decisivos, portanto: “ Não só o admirava como, ainda por cima, me fazia rir. Ele era mesmo muito engraçado Não tinha com ele senão uma coisa em comum: ou trabalho, ou digo coisas insignificantes. Há muito poucas pessoas no mundo com quem se consiga falar de coisas insignificantes. Passar duas horas com alguém, dizendo coisas insignificantes, é a súmula da amizade. Só com grandes amigos se pode falar de coisas insignificantes. Com Foucault, era do género uma frase para aqui outra para acolá. Um dia, na corrente da conversação, ele disse: eu gosto muito de Péguy, porque é um louco. Questionei-o: Porque dizeis que era um louco? Basta olhar como escreve. Isso é muito interessante em relação com o próprio Foucault. Isso queria dizer que alguém que sabe inventar um novo estilo, produzir enunciados novos, é um louco”.

(Continua)

FAR

6 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Depois de ter visto as trombas desse tal David Fru-Fru, tenho quase a certeza que foi ele que vi, numa entrevista da CNN, a explicar a origem da expressão “eixo do mal”.

Estive para completar a minha argumentação anterior, dizendo que, uma coisa é dizer que o Wbush é um idiota, outra muito diferente é considerá-lo um idiota. Pensei que FAR, um homem que preza a objectividade e o debate de ideias, não ia chutar com isso. E não é que chutou mesmo.

Francamente, acredita mesmo nisso. Wbush levanta-se, lê o relatório matinal da CIA, e depois entram os assessores, um, a um, colocando-lhe ideias no cérebro. Terminado o expediente ele vai dormir sem dar ar um da sua graça.

Citar um jornalista como fonte de verdade. Pode ser, pode não ser. Mas um jornalista francês?!!!! Quando sabe perfeitamente que os franceses não dão duas para a caixa. E pior, com 40 anos de serviço. Então não sabe – e contra mim falo – que os velhos são rabugentos, cheios de tiques, com o cérebro parado no tempo. Que por razões fisiológicas são incapazes de processar toda, ou mesmo uma ínfima parte, da informação existente.

Peço que leia o seguinte artigo.

Com isto tudo não quero, de maneira nenhuma, mudar a sua opinião. Se o Fru-Fru diz uma coisa, e um jornalista diz que ele disse outra coisa, acho que deve acreditar no jornalista. Isto chama-se mediatização. É trabalho dos jornalistas explicarem a realidade.

Mande notícias do par do momento. Quero saber se, se me sair o euromilhões, tenho alguma chance de entrar no "brúnico" tálamo.

Anónimo disse...

Mister TP,Ainda bem que está sempre- sempre!- com esse humor nonchalant, que até lhe fica muito bem. Espero que continue a ler...o Sade e o Nietzsche. Bom vento! FAR

Ana Cristina Leonardo disse...

Nas últimas semanas, desencadeou-se uma grande troca cruzada de opiniões, em torno do Holocausto, provocada por uma crónica irregular e despretensiosa sobre uma visita a Auschwitz-Birkenau.

- FAR, essa é comigo ou anda tudo de repente a escrever sobre Auschwitz-Birkenau?

Anónimo disse...

A-CL: Como diria Julia Kristeva, Intertextualmente, a prosa múltipla que agenciei, falava de tudo e de mais alguma coisa. Entendo que devemos tentar o impossível,iè, ser realistas e didácticos.Até para ver se ultrapassamos, aquilo que Vaneigem sinaliza: " La jouissance de tout me passionne trop pour que m´arrêtent encore les mots que tentent de m´épingler, de me définir, de me juger, de me grandir ou de m´amenuiser selon les éclairages variables du pouvoir dominant et de ses pouvoirs de rechange ". Bom vento! FAR

Ana Cristina Leonardo disse...

FAR, não serei a Julia Kristeva mas deu-me para perceber que o post falava de tudo e mais alguma coisa. E não o comentei por me sentir épingler, em nenhuma língua. Só por curiosidade. E por, não ter sentido essa tal "grande troca cruzada de opiniões" de que fala. A não ser que se estivesse a referir a "grande" no sentido numérico. E, mesmo assim, grande, para uma despretensiosa Pastelaria, claro.

Anónimo disse...

Ana Cristina L.:Então já leu o livrinho maravilhoso do Alain Badiou? Não perca tempo, please!
Ando a ler umas coisas do Serge leclaire, que já morreu há anos,com prefacio da Julia Kristeva. O Bouveresse publicou um novo livro sobre Literatura e Filosofia- irei escrever sobre isso, em breve! Avanti:FAR