sábado, 16 de fevereiro de 2008

Exercícios

Exercício de autoterrorismo

Escolho um livro. Sem olhar atentamente ao que me espera.
Abro-o e ponho o dedo que mais dançarino estiver.
Na sua sombra, embarro a vida com o parágrafo, como aprendi mentalmente a untar uma forma com gordura, sem nenhum espaço sem ela e com um infantil orgulho em sujar as mãos.
Passo a ser aquilo, sem poder desgostar-me, aquilo que estiver escrito.

Inventei este exercício, para compreender os outros.
Mas é apenas um exercício de transformação, que mal há em querer ser outro no seu chão por dentro?
Qual o impedimento ético em querer abarcar o mundo, de forma a ser eu a única raptada?
Calhou-me Beckett, em “Mallone está a morrer”, não achei piada.

O conteúdo da desdita página pareceu-me terrível, mas não posso desgostar-me com a vivência alheia em mim.
Por isso, não me desiludi quando o horizonte mais a perder de vista tinha-o de súbito à cintura e o próprio corpo que me confere contornos e viagens, foi atravessado de cada vez que a cama o fazia levemente ondular, por uns rios caudalosos de metal.

Tal como com Mallone, também estava lá um pau que servia para caçar coisas sem propriamente disparos e que se tornou num animal doméstico de fascinante faro, pois que perseguia avidamente a solidez que permite o desesperado amparo.
Tive acelerada a mente em décadas, naquela imersão na quase imobilidade.
Foi-me levado aos preconceitos da vida, um enorme apagador e literalmente decompôs-se a armada fixidez de algumas ideias como se tivessem apodrecido nas suas estruturas, a um ritmo voraz.
Na continuação da leitura, o essencial tornou-se algo estranho, um pau para chegar ao mundo, não ao dos outros mas ao mais próximo antes do começo das branqueadas quatro paredes a cal, chegar com ele ao copo na sua preciosa água, ao interruptor da luz e do rádio com outras vozes que vêm, à peça de agasalho ao fundo do entardecer, ao indispensável saco das bolachas, ao lápis, aprender a importância de poder chegar a, e o espanto de nesse perímetro individual de coisas miúdas, poder-se com susto compreender o tormento de outras existências que ali não chegam senão pela minha dor de não saber a elas chegar, fora do exercício.
E sempre penso que amanhã há-de ser outra semana e que outro parágrafo de um outro destino, me será um soberbo apuramento desse tal mundo dos outros.
Anseio pelo próximo livro, não sem algum comedimento.

1 comentário:

Anónimo disse...

Gabriela: Texto fantástico, maravilhoso, profundo, total. Continue,please! E as fotos também são muito boas, regra geral! Estou muito feliz por si, como é evidente! FAR