quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Benjamin (1)


Fustel de Coulanges recomenda ao historiador interessado em ressuscitar uma época que esqueça tudo o que sabe sobre fases posteriores da história. Impossível caracterizar melhor o método com o qual rompeu o materialismo histórico. Esse método é o da empatia. Sua origem é a inércia do coração, a acedia, que desespera de apropriar-se da verdadeira imagem histórica, em seu relampejar fugaz. Para os teólogos medievais, a acedia era o primeiro fundamento da tristeza. Flaubert, que a conhecia, escreveu: “Peu de gens devineront combien il a fallu être triste pour ressusciter Carthage”. A natureza dessa tristeza se tomará mais clara se nos perguntarmos com quem o investigador historicista estabelece uma relação de empatia. A resposta é inequívoca: com o vencedor. Ora, os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. Isso diz tudo para o materialista histórico. Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes génios que os criaram, como à corvéia anónima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.

Walter Benjamin
, in Sobre o Conceito de História (1940)

2 comentários:

Anónimo disse...

Savaravaha, André Carapinha: Boa oportunidade para lançar à boleia mais uma dose feérica de ideias-acto, que imagino que V. admire e exorte,qb. Ora, Castoriadis altera Benjamin e Marx, ao propôr:"A história da Humanidade não é a história da lutade classes, é a dos horrores, se bem que ela não seja apenas isso. É verdade que há uma questão a debater, a do totalitarismo ".Gostaria de o ter visto a comentar o livro do Badiou- De quoi Sarkozy est-il le Nom?- Tentei por cinco vezes lançar para discussão os pontos nucleares postos na mesa pelo iconoclasta Alain Badiou, fenómeno da Esquerda Ultra-Radical universal.Esses comentários e nótulas de apresentação estão insertos no Blogue, entre Dezembro e Janeiro já deste ano.
Ora, o que se pode acrescentar a essa argumentação decisiva de Badiou, que contesta o marxismo-leninismo,o papel redutor das organizações-ditas-revolucionárias em exercício e o ludíbrio da democracia parlamentar. É isso que vamos ver, agora.

1." Creio que é necessário voltar à distinção clássica entre Democracia formal, ao nível do Estado, e democracia de Massas, do ponto de vista do exercício político possível para o povo";

2. " O exercício do Poder afasta a Democracia verdadeira". E como " É, hoje, possível um verdadeiro exercício democrático?";

3." As soluções comunistas tradicionais tornaram-se indefensáveis, em torno do Poder de Estado";

4." As soluções leninistas mostraram-se pertinentes sobre um ponto particular: o de conseguir a insurreição e a tomada do poder. Por outro lado,revelaram-se extraordinariamente dificéis e finalmente contra-produtivas, ao nível do exercício do poder. Ainda vivemos todos esses equívocos ".

Como diria Buenaventura Durruti,a verdadeira revolução é ilegal por excelência...FAR

Anónimo disse...

Intelectualizante demais!!!