quarta-feira, 2 de maio de 2007

Digressão interna (IV)

A ‘little turba’, como entendeu nomear-se o agregado de peregrinos à “cintura da ferrugem”- conhecida noutras latitudes antropológicas por Berreiro, aproveitou o percurso entre o Moutinho e o Mareado para estimular o artista da noite. Segundo o peculiar método Viggi… uma espécie de bota-abaixismo refinado e erudito. “Não há concerto”, “os Santeros andam a gozar contigo”, “cantas pior do que uma cabra velha”, “ninguém te conhece”, “é preciso avisar o INEM”, “não vais receber cachet”,”os gajos andam a gozar-te”, “depois das sessões de canto livre só te faltavam os concertos da JCP”, “se nos deixas ficar mal…”, “ainda tens daquele Hax falso?”. Como os nossos sagazes leitores terão reparado, à excepção da sexta e décima proposições, é tudo baixaria e aleivosia.
Docámos, por fim, num bar de aquecimento, adjacente ao espaço do concerto, para fazer a contagem decrescente para o espectáculo- os Santeros continuavam desaparecidos- e confraternizar antecipadamente com os indígenas. Que é dizer, com o público Santero.
Assim, numa primeira mirada, constatámos que tínhamos irrompido num furo do 12 ano. O Landru, veterano das Mil e Uma Noites, reconheceu imediatamente a confort zone onde nos devíamos refugiar até que avaliássemos a situação ou os Santeros viessem de salvadego. Adivinharam, o balcão daquele bar minimal, atrás do qual atendia aquele que parecia ser a única pessoa com que nos poderíamos convergir numa fala comum.
“Para nós whisky”, pediu o Landru, completando com aquele ar inefável de Príncipe da Cidade: “olha lá, isto que está a tocar é Shadows?!”.
“Shadows? Quá, quá, quá, quá, quá. Shadows, tiozinho? Quá, quá, quá, isto é Ape Man”.
Felizmente, a cousa passou discreta, porque entretanto Clarence era interpelado por todos os passantes. Com palavras de saudação, respeitosas, e cúmplices. “Então, Mad Dog? Boa, Mad Dog! Mais um concerto, Mad Dog? Jubilado, Clarence confrontou as delegações da Suécia e da China que o acompanhavam: “então, não dizem nada?”. Dizemos, dizemos. Onde estão as gajas?
Já se sabe, o nosso Clarence não resiste a uma provocação destas. E vai daí aplicou o seu charme Mad Dog junto da Lolita, de sardas artificiais e cabaia- vá lá, um apontamento etno-linguístico, Cheong Sam ou Qipao- que servia às mesas: “então, não me vais ouvir cantar?”.
“Não, vou a um concerto na Moita”. Foi tal a afronta e a desfeita perante as delegações do exterior, que o Mad Dog embatucou nas virtualidades semânticas da réplica, aproveitando o Luís P. para lhe oferecer uma bebida para a voz. “Toma Joe, é bom. É uma espécie de groselha”. Adiante veremos as consequências deste cordial, uma variante tinta do dry martini. Metade vermute, metade vodka, em copo grande. Sem gelo.
O Landru, sem que ninguém desse conta, ia celebrando a meteórica ascensão a secretário-geral, rilhando copo atrás de copo, ao ritmo imaginário dos…Shadows. Bom, eis que chegam os Santeros e soava o primeiro aviso fasten your seat belts.
A ‘little turba’ esgueirou-se para o exterior, para o passeio ribeirinho da Avenida da Praia, ao Mareado, convicta de que o Landru iria enrolar um telescópio afegão. Só que…o Landru jogava a mão direita ao bolso do mesmo lado e a mão entrava na algibeira esquerda; descia a mão esquerda para o bolso desse lado e a pata teimava em entrar na algibeira direita. Com desagradáveis implicações ao nível da amplitude das rotações e do equilíbrio em geral. E da vontade de fumar em particular.
Desmotivados, partimos para o concert hall e quanto ao Landru, soube-se mais tarde, foi salvo por um anjo que o levou para Lisboa. Como a Madre Teresa fazia em Calcutá.

Uma agradável surpresa

Entrámos no caveau, já os Santeros, duas guitarras e uma bateria, acertavam batidas e acordes. E o que se seguiu foi uma agradável surpresa.
Os Santeros tocam razoavelmente bem, se bem que por vezes enveredem por zonas de energia em que a expertise é de difícil discernimento, dir-se-ia uma falsa banda de garagem, trocam de instrumentos durante o espectáculo (Lyotard? Pós-Punk?) e limitam as intervenções vocais a uma espécie de pregões anarquistas. Tequiiiiiiilla. Pooooolvo. (Matriz Universal). Relegando a dominância anglo-saxónica para a marca das guitarras.
Eis que chegava o momento mais aguardado da noute. A. Carapinha anunciava a actuação do “grande”, “incontornável”, “mítico bluesman do Cais do Sodré”, ele próprio, ao vivo, MAAAAAAAD DOG CLARENCE.
Acreditem, a casa, esgotada, quase ia abaixo. Uma ovação singular atestava bem a boa conta em que Mad Dog é tido nos circuitos para-comerciais da música alternativa. MAAAAAAAD DOG CLARENCE.
Mad Dog que confraternizava ao balcão com sus apoiantes- “Joes, vocês foderam-me com aquelas groselhas”-, arrancou para o palco um tudo nada mareado. Agarrou no mic, apanhou a embalagem do ritmo simples dos blue e atacou, como peça de abertura, um untitled. Frisson.
Da garganta de Clarence, do que ela dava, repetia-se, em carrossel, qual mantra ou mnemónica, Maaad Dog. Maad Dog. Maad Dog. Maad Dog. Nada mais. Maad Dog. Maad Dog.
Imagine-se que um dos liceais que assistia ao concerto, quem sabe, filho de um nosso antigo aluno, volta-se para os colegas e, com aquele ar feliz de quem descobre a gravidade, e bolsa: “este gajo não canta um caralho”. Não resisti pedagogicamente. “Ó imbecil, mais respeito. Não percebes que Dog é anagrama de God. Daí a repetição…aventesma que sai à noite sem reler o argumento ontológico de Santo Anselmo.
Melhor ficaria a contestação de Gaunilo, a partir da experiência do idiota : “In the face of signifying discourse, certainly understands that there is an event of language”, vox, human voice, “but cannot in any way grasp the meaning of the statement”.
Não tardou a tosse, mais ou menos convulsa, e foi tempo de sacar a harmónica, silvá-la, e executar o movimento característico dos grandes deste instrumento: a descida encarpada ao solo. Porque a interpretação o consumiu, com a ajuda das notórias groselhas do Luís P., Mad Dog quedou-se no solo, qual James Brown em transe, ou um mau episódio de Voodoo. Foi resgatado pelos Santeros. Pediram uma grandiosa salva de palmas e anunciaram: agora, o Mad Dog vai descansar!
O nosso Clarence procurou abrigo junto das delegações da Suécia e da China que acompanhavam o suicídio ritual ao balcão. "Boa Joe, grande actuação. Mas acho que os Santeros te andam a foder. Vamos embora."
Saímos e já junto à Avenida da Praia escutámos uma nova ovação. No banco de jardim, fronteiro ao Mareado, lá estavam o João Leão Neves, o Jota Murinello, o José “Barroca”Barros e o Raúl “Panzerbull”Ferreira. E o Sheik. Não quiseram faltar a esta jornada inesquecível.

(continua)

JSP

1 comentário:

zemari@ disse...

Não participei nestas andanças mirabolantes, mas JSP está a levar-me até lá.

A vida é um rosário de contas boas e belas, entremeadas aqui e ali por umas outras maiores, mas mais raras, que são uma merda.

Convivendo em amorizade com este bando "sem rei, mas como muito rock", só posso cantar a plenos pulmões:
"Gracias à la vida, que me à dado tanto..."