domingo, 9 de outubro de 2005

Os cartões dos pontos

Aqueles que têm carro e precisam de ir às bombas de gasolina já se deram ao trabalho de contar o tempo que ali se perde?
Chega um cidadão à bomba, vem de trabalhar, está cansado e com fome, quer pôr algo como dez euros de gasolina, escolhe a bomba 5 porque não tem ninguém e tira a mangueira. No mostrador ainda está registado o valor do comprador anterior. O cidadão olha para o posto na esperança de que alguém o veja. Até que isso aconteça demoram uns dois a três minutos. Finalmente o mostrador fica a zeros e o cidadão pode abastecer. Sacudidas as últimas gotas do combustível para dentro do depósito, o cidadão dispõe-se a pagar. Há uma fila de 4 pessoas à sua frente. Nada de grave, pensa o cidadão para consigo, podia ser pior. Só está uma caixa a funcionar. O cidadão observa com atenção a pinta da funcionária, sorri satisfeito: a mulher tem ar de despachada, transpira eficiência por todos os poros. Já pôs aquela senhora a andar, restam três. O cidadão calcula mental e satisfeitamente que antes das sete estará em casa.
Nem pensar nisso!
Esqueceu-se o cidadão que entre os três circunstantes que o antecedem existe um grunho. É verdade. Eles estão por toda a parte e em qualquer momento surgem. Este estava no meio, armado em Virtude. O cidadão não tinha reparado nele, estava tranquilo, ou melhor, com vontade de chegar a casa o mais depressa possível. Baixara as defesas, essa é que é essa!
E, naquele momento, ali o tinha: sacando o cartão dos pontos. O homenzinho tinha abastecido 55,49 € de gasóleo e estava a pagar com notas de cinco euros todas amarrotadas e mais uma carrada de moedas que retirara dos bolsos e depositara em cima do balcão. A empregada, educada e diligentemente, ia contando. Atrás do cidadão que consultava o relógio de cinco em cinco segundos já se encontravam mais cinco outros cidadãos. A coisa estava composta, como se costuma dizer no teatro. O problema era que ali o pano nem sequer dava sinais de abrir...
A funcionária parecia um polvo, contava moedas, carregava em botões que tinham o condão de pôr fim a uns irritantes ruídos que provinham de quem estava junto às bombas, de mangueira na mão, à espera de abastecer. No fim, faltavam 3 euros e 23 cêntimos. O grunho sacou da carteira e exibiu o cartão de crédito.
Pensam que se dignou a voltar-se para trás e, pelo menos, esboçar um sorriso em jeito de pedido de desculpas? Nada. Coçou as partes baixas, ajeitou as calças e balançou um pouco os ombros. São sinais.
Depois, veio a cena dos pontos. Com aquele pagamento o grunho obtivera uma enormidade de pontos, a coisa era séria, dava para não sei quê e nem sei que mais. O grunho estava indeciso. A funcionária olhava apreensivamente a fila que se estendia nas costas largas do grunho. Coçando a grenha gelificada o grunho não sabia o que fazer, era uma decisão arriscada.
Cambada de cidadãos que não protesta, não espanca, nem defenestra um bicho assim!, pensarão os que lêem.
Pois, tudo isso é muito bonito de pensar, assim, a olhar para as letras impressas no monitor. Mas, estar lá, numa estação de serviço, ainda por cima?... Calma, já não somos muitos...
O grunho pediu o catálogo, desviou-se um nadinha para o lado esquerdo do balcão e alguns bons minutos mais tarde o cidadão arrancou da bomba, não sem antes ter aguardado mais uns minutos para observar a cara de felicidade que o grunho exibia a caminho do carro soçobrando um ‘pack’ com dois balões para ‘brandy’.

Fernando Rebelo

1 comentário:

Anónimo disse...

É por estas e por outras que eu não tenho carro...