sexta-feira, 14 de outubro de 2005



Fotos de Ivone Ralha

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

(...)

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstrato
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.


Herberto Helder, ‘Tríptico’, II
‘Ou o Poema Contínuo’. Assírio & Alvim

11 comentários:

Anónimo disse...

manuel fernandes, este deve ser para ti...

Anónimo disse...

Se alguém tem alguma coisa a objectar, que fale agora ou se cale para sempre!!!

Anónimo disse...

Boa Ivone !
Quem fala assim não é gago !!!!
O anônimo que se cosa nas suas paranoias.....
Beijocas

Anónimo disse...

Paranoia= paranóia

Anónimo disse...

Armando:
Tenho-te como pessoa de bom gosto e melhor senso.
Face ao comentário do anónimo das 3:47 PM, sugiro que passes a exercer alguma forma de censura prévia ao que é publicado neste blog de elevadíssima qualidade.
O comentário é digno de um animal.
É animal?
Está mal?
Consulte o Dr.Rosal!
Um abraço.

Anónimo disse...

Uau!!!

(não sou o primeiro anónimo)

Anónimo disse...

porque será que ninguém desmente o primeiro comentário, porque será...

Armando Rocheteau disse...

Caríssimos:

O Administrador do blogue é o André.
Poderia acusá-lo de se andar a perder em debates liberais.
Sei que é pelas causas da minha esquerda que tenta conquistar a direita. Boas causas.

Na definição da política do blogue tem sido exemplar. Aceitámos comentários abertos. Assim tem sido.

Do resto tenho inveja.

André Carapinha disse...

Caro Armando:
Favor não menosprezar o contributo da minha análise sobre o liberalismo para o sucesso deste blog (embora, obviamente, eu não ande aqui a escrever posts para ter "blogs de platina"). Desde que o meu texto "Eu e os Liberais (3)" foi transcrito no Blasfémias quase duplicámos as visitas, a maior parte delas vindas de clique directo no link do Blasfémias. Neste momento estou com pouca produção porque tenho muita coisa para fazer, embora o meu regresso esteja para breve.
Quanto à questão em aberto: tenho de facto muita pena que se use um blog para andar a fazer tricas e mandar bocas pessoais. Na minha opinião, não é para isto que um blog serve. Mas não me parece que deva estar a apagar comentários por esta razão. Aliás, acho que só devo apagar comentários se forem insultos pessoais primários (ex: "vai para o caralho", o único que até agora apaguei, e com reticências), e, obviamente, spam.
A liberdade dos blogs tem destas coisas- o lado escuro da liberdade é a falta de responsabilidade.
Abraços a todos, até breve.

André Carapinha disse...

Já agora, uma vez que ninguém ainda comentou, quero destacar os belíssimos excertos aqui publicados desse grande, grande poeta que é o Herberto Helder, o maior poeta português vivo e um dos grandes de sempre, que escreve utilizando a imagética e o simbolismo de forma brilhante, conseguindo aquilo que o poeta sempre procura: a universalidade da expressão.

Anónimo disse...

Para quem tiver 'tempo' e gosto pela bela poesia de Herberto aqui fica mais uma pérola:

(...)
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira no planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
(...)

Herberto Helder, Prefácio, Ou o Poema Contínuo. Assírio & Alvim


Eu sou fã!