sexta-feira, 7 de outubro de 2005

As praxes como elementos reveladores da pobreza geral do sistema educativo em Portugal

Quase no final de Setembro, as Universidades e outros estabelecimentos de ensino superior encheram-se de vida nova.
O cair da folha na Natureza contrastava com a renovação da nossa ‘Alma Mater’.
Tinham chegado os calouros.
Aquilo que supostamente deveria ter sido a primeira semana de aulas estava transformado numa série de manifestações do mais refinado grunhismo: a praxe, ou melhor, as praxes. Sim, porque a coisa não se poderia ficar apenas por uma partida de mau gosto. Um grunho que se preze exibe uma vasta panóplia de actividades, cada uma mais estúpida e cretina que a anterior – directamente retiradas de séries de TV com adolescentes made in USA ou de filmes made in USA que pretendem retratar a vida nas universidades dos USA. Claro, que o grunho não tem capacidade para criar o que quer que seja, limita-se a reproduzir e, pior ainda, a reproduzir-se. Adiante.
O mais grave é que o calouro gosta, acha graça, colabora e vai a todas. Afinal de contas, não é todos os dias que uma pessoa entra para a Universidade. O calouro tem já uma visão própria da instituição que irá frequentar nos próximos 5 a 6 anos da sua vida: andar por ali, semana académica, entrar para a tuna, umas frequências e uns trabalhos, sentir a vida académica, manifestações, queima das fitas, benção das capas, copos, e pronto está a coisa feita. Quais exigências, quais elevação do espírito?!
Está na Universidade. Mais nada! Tem direito a pavonear-se pelas ruas envergando o traje académico.
(Ainda hoje vi duas moçoilas no Continente do Seixal com o dito traje. O pior é que ninguém as insultou e lhes cuspiu em cima. Coitadas, pareciam tão orgulhosas...)
São os grunhos a corroer aquilo que deveria estar a salvo: a Universidade.
Chegaram lá porque os deixámos lá chegar. Querem bons empregos com melhores ordenados. Querem tratar das vidinhas e nós, quando os vimos pintalgados com verniz das unhas e rímel, sorrimos de forma alvar em vez de os atirarmos ao rio.
O calouro – forma embrionária de grunho – acha-se especial no seu casulo de inscrições feitas na cara, de humilhações várias a que se submeteu. Está a um passo de atingir a qualidade de divindade da grunhice.
Traz consigo um longo historial iniciático: as festas de Natal no infantário, nas quais fazia o papel de ajudante do Pai Natal, as festas de final de ano na Primária, nas quais fazia uma coreografia tosca ensaiada por uma professora que gostava da Aeróbica e que tinha visto o “Fame”, na Preparatória, onde fez merda da grossa mas foi a uma festa dos ‘finalistas’ no 6º ano e depois atravessou o deserto até ao 9º ano e, quando chegou ao 12º, foi a Lloret del Mar, na viagem de finalistas e foi, trajado(a) a rigor, ao Baile de finalistas. Está apto. Estudou q.b., passou pela escola, se os pais têm posses vai chegar à Universidade. Na privada, não! Eu escrevi: ’se os pais têm posses’.
Os grunhos com dinheiro têm a coisa organizada de outra forma...
Todos lemos sobre as praxes. Está tudo dito e escrito. Só não vê quem não se quiser dar ao trabalho de ver.

À margem
: perto da secretária onde acabo de digitar este texto está um manual escolar destinado ao 10º ano de escolaridade. O título é: “Ser em português”.
Há coisas do caraças!

À margem2
: um amigo enviou-me por mail um texto do Mia Couto – autor pelo qual não nutro nenhuma admiração especial – intitulado “Os sete sapatos sujos”, trata-se de uma oração de sapiência que ele foi convidado a proferir no ISCTEM, creio que em Moçambique. Gostei de ler.

Fernando Rebelo

8 comentários:

Pedro Santos Cardoso disse...

E o pior é que, àqueles que rejeitam a praxe, espera-lhes uma espécie de gueto social.

Anónimo disse...

Concordo vivamente com a crucificação de grunhos, principalmente essas personagens ridículas que andam a tirar a merda de um curso há 25 anos, e esperam ansiosamente pela chegada dos calouros para porem em prática a longa tradição da instituição em que estão inseridos, no que toca a praxes.
Vestem uma fatiota estupida, suam como porcos por causa do calor e acham que porque têm uns emblemas escarrapachados numa capa são donos do mundo.
Aos que se recusam a participar nas praxes espera-lhes um "tribunal de praxe" destinado a dar um castigo apropriado a estes traidores infames, estas criaturas ignóbeis, que se recusam a gritar a máxima "Gestão é merda!" a plenos pulmões. O que ainda me ultrapassa mais é que realmente há pessoas que gostam de ser sujeitas a isto e acham a situação o suprasumo da diversão e veneram os veteranos atrasados mentais que fazem as praxes.
Enfim, para mim era simples: era enfiá-los a todos num contentor e mandá-los para o meio de uma floresta tropical na África Subsariana ou mesmo para o meio do deserto do Sahara. Pessoas como estas deviam carregar uma pistolazinha bem carregadinha (ou mesmo uma caçadeira), apontá-la à cabeça e PUM!

Armando Rocheteau disse...

O
Fernando
em grande forma.

Estou numa de praxe.

Anónimo disse...

Não posso deixar de agradecer a Fernando Rebelo trazer este assunto à liça.

Como ele diz, a praxe é a expressão mais verdadeira da cultura do português-português.
E também deste sistema de ensino que parece um "Bíblia de Anedotas".

Fui coimbrão, vivi na República Trunfé´Kopus, participei nas guerras que acabaram com a praxe, nesse anos quase resumida a Coimbra.
Em Lisboa e no Porto, andar de capa e batina era o cúmulo da foleirice.

Mas era muito bom para apanhar boleia, o que reflecte muito a realidade dessa época. "ò Maria, sabes quem trouxe hoje no carro? Um estudante de Coimbra!»
É esta mentalidade que vem em crescendo nas últimas duas décadas e que domina vastas parcelas do poder intermédio.

Em 69, houve em Coimbra uma greve aos exames que teve 92% de apoio, em média, em todas as faculades.
O Marcelo teve que dar o que não queria de modo fazer: marcar uma época especial em Setembro, em vez da 1ª época que não houve.

O ministro da Educação era o nosso conhecido José Hermano Saraiva.
Foi à televisão (a preto e branco) com aqueles esgares à Carrilho e a dizer que os comunistas estavam em vias de ocupar Coimbra e depois o País.
Foi o maior "flop" de propaganda política/publicidadeencapotada

No dia seguinte, pais, mães, avós, irmãos, apaixonados, cunhados e tudo o mais mandaram recolher imediatamente a casa os seus rebentos.
Sobretudo as meninas que podiam ser comidas, sabe-se lá como, pelos "vermelhos" -- o encarnado era e é o Benfica.
Ora, 90% da população universitária era da província, do Algarve ao Minho (p. ex., o Porto não tinha Faculdade de Direito nem de Letras) e o sucesso da greve começou a desenhar-se ainda antes dos exames começarem.

O Saraivo não se aguentou e veio o Veiga Simão arrumar a casa e modernizar ensino.

A Queima das Fitas, que só existia de facto, em Coimbra, não podia realizar-se porque não havia estudantes para festejar. Nem oportunidade para as meninas de Letras darem o “golpe do baú”, seduzindo futuros advogados, médicos e engenheiros.

Se não havia "Queima", então também não havia razão para a praxe.
Uma daquelas pessoas que a gente tem a sorte de encontrar, o Remédios, ganhou as eleições para a Associação em 70. Deixou de haver, caloiros, semi-putos, putos, grelados e fitados. Passou a haver integração dos novos com notáveis programas (com cinema, teatro, copos, música, explicar e mostrar que a Associação tinha uma estação de rádio, atelier fotográfico, grupos de teatro, de instrumentistas ou de folclores, coros, aulas de iniciação à pintura, à guitarra (desculpem-me mas entusiasmei-me)

Foi o funeral da praxe e da Queima das Fitas que só recomeçaram a pôr a cabeça de fora no começo dos anos 80.

O seu estrondoso renascimento só é comparável ao elevado crescimento cultural e científico da população portuguesa desde então.

Como se sabe a Universidade de Coimbra foi das primeiras a ser criada na Europa (1290), a par de Bolonha, Alcalá de Henares, etc.
Mas foi também foi sempre, com excepção de breves períodos, das mais retrógradas.
Acapa e batina é o sucedâneo engendrado no séc. XIX para substituir os trajes de seminaristas que os alunos usavam desde a sua fundação. De facto, um bacharel como o Eça não devia de gostar muito de andar com os saiotes jesuíticos.

E claro, passou a ser uma distinção social. Quem não podia usar capa e batina, e ninguém (ou quase) se atrevia a quebrar a regra, era “futrica” (uma coisa assim entre o “manga-de-alpaca” e o caixeiro).

Hoje, como o acesso do ensino superior só está vedado aos excluídos*, como não há doutorados e mestrados em número suficiente nem para a metade das universidades que existem, o quaro é negro.

Mas, como qualquer português normal os pais pensam que o dinheiro resolve tudo (quanto mais cara é a universidade, melhor é) e mandam/deixam os filhos tirar cursos que já nem no final do século XX tinham razão de ser.

Coitados, têm direito a um ensino de merda, que não serve para nada, mesmo nada, mas isso não lhes interessa.

“O meu filho/a, com a capa e batina mete num canto essas empregadecas de boutique e esses que têm a mania da informática. Todos vêem que o meu é um estudante da Universidade e eles não, nem nunca chegarão lá. Não têm a 'cabeça`do meu filho nem o dinheiro do pai. Ganhei milhões com o Silva”. E mete o palito na boca.

*Que não fiquem dúvidas que sou afincadamente pró democratização do ensino e qualificação para todos.
Bom, mas para isso é preciso haver ensino..., haver formação...

Anónimo disse...

O comentário de cima é para ler como se fosse por fascículos.

Se não tiverem paciência para isso, é mais que natural. Eu também não teria.
Talvez fizesse um print e o levasse para a casa de banho.
Mas como não sou o Carlitos, que quer uma biblioteca para instalar lá uma sanita com estereofonia, também não seria a melhor solução.

E raio: a adenda está ficar tão grande como o comentário...


Ainda por cima fiquei outra vez sem net

Anónimo disse...

Aproveitando a embalagem no comentário que fiz sobre Angola, no post sobre " Angola no Mundial ", devem com certeza ter renascido as praxes académicas. Se não existem ainda, é porque ainda os alunos devem ir ás aulas em coluna militar para não serem no minímo roubados no caminho...Tal como o zemari@ diz e muito bem, a " cultura do português-português "....

Anónimo disse...

As praxes não são mais do que brincadeira, se é que se possa falar assim, idiotas criadas pelos estudantes mais velhos. Eles Mostram a sua ignorancia e a sua pobreza de espirito ao realizareias as tais "Brincadeiras".

As praxes podem ficar marcadas como uma das piores vivencias de adolescentes e uma má entrada para a faculdade!

André Carapinha disse...

Uma vez, uma só vez, cometí o erro de ir a um jantar do meu curso (Filosofia).
Fui porque tinha (tenho) uns amigos que, apesar de cultos e interessantes, achavam piada ao ambiente (mais porque roubavam garrafas de vinho no restaurante).
Foi inesquecível. Estava eu em frente a um dos meus amigos, comido, bebido, começamos uma conversa sobre Kierkegaard (um dos meus autores de eleição), e estamos nós bebidos e fumados a entusiasmarmo-nos com o Kierkegaard quando:

Começam trinta grunhos aos berros em coro na nossa mesa: "Filosofia! Orgasmo e Orgia!"
Respondem quarenta grunhos na mesa em frente: "Sexo! Orgasmo! Tesão! Isso é Comunicação!".
Assim a nossa conversa, e o resto da noite, ficou arruinada por horas desta grunhice. Foi a primeira e última vez que pus os pés num jantar de curso