quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Rui Knopfli



"Cântico Negro"

Cago na juventude e na contestação
e também me cago em Jean-Luc Godard.
Minha alma é um gabinete secreto
e murado à prova de som
e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes
nem uma só gravura de Lichenstein
ou Warhol. Nas prateleiras
entre livros bafientos e descoloridos
não encontrareis decerto os nomes
de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos
volumes de qualquer filósofo
maldito, vários poetas graves
e solenes, recrutados entre chineses
do período T'ang, isabelinos,
arcaicos, renascentistas, protonotários
- esses abundam. De pop apenas
o saltar da rolha na garrafa
de verdasco. Porque eu teimo,
recuso e não alinho. Sou só.
Não parcialmente, mas rigorosamente
só, anomalia desértica em plena leiva.
Não entro na forma, não acerto o passo,
não submeto a dureza agreste do que escrevo
ao sabor da maioria. Prefiro as minorias.
De alguns. De poucos. De um só se necessário
for. Tenho esperança porém; um dia
compreendereis o significado profundo da minha
originalidade: I am really the Underground.

3 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado, Rui Knopfli.
Obrigado, Armando.
Muito pertinente.

André Carapinha disse...

Grande Knopfli, um dos mais maltratados dos grandes poetas portugueses.

Anónimo disse...

Rui Knopfli, grande poeta moçambicano resultado do hibridismo (pai branco e mãe negra) por isso a parcialidade e visão pura/Cosmopolita.
Abrão Morais N. Dois