domingo, 13 de janeiro de 2008

Alain Badiou-III: “A coragem é uma questão de tempo”

De uma entrevista dada pelo autor, “De quoi Sarkozy est-il le nom?”, diatribe super-radical de grande impacto mundial contra o capitalismo neoliberal, inserta no jornal Humanité, de 6/Nov-07, mais alguns pontos nucleares sobre a sua argumentação.

I.“O serviço dos bens, para retomar a expressão de Lacan, é o serviço do capitalismo liberal. Os bens são produzidos e distribuídos num regime de economia de Mercado. Se estamos ao serviço do serviço dos bens, é isso que devemos apoiar. Ora, do meu ponto de vista, o capitalismo liberal não fixa nenhuma orientação para o futuro da colectividade. O cidadão não passa senão por ser o que comparece perante o Mercado. É o consumidor, tal como é sinalizado pela circulação das mercadorias. Por isso, a nossa sociedade tal qual se encontra não consegue representar o seu futuro colectivo. As pessoas, elas próprias na sua particular existência, estão excluídas de construir o que ultrapasse o consumo e o aforro. É isso a desorientação.”

II. “A coragem consiste em fazer finca-pé num ponto. Não só de duração curta, mas também longa. É uma questão de tempo. Boa parte da opressão actual é uma opressão sobre o tempo. Estamos constrangidos a arcar com um tempo dividido, descontínuo e disperso. No qual, a rapidez é o momento maior. Esse tempo não é o do projecto, mas sim, o do consumo, o do assalariado. A coragem poderá consistir em tentar impor uma outra temporalidade. A fazer força em certos pontos contra ventos e marés, numa duração que não dependerá de critérios de sucesso ou de derrota impostos pelo modelo da sociedade liberal “.

III. “Os oprimidos não têm outra hipótese a não ser a sua disciplina. Quando não se tem, nem o dinheiro, nem armas, nem poder, não existe outra coisa senão a unidade. A nossa questão central. É, portanto, qual é a forma que pode tomar uma outra disciplina? Do ponto de vista filosófico, penso que é necessariamente uma disciplina da verdade, uma disciplina gerada pelo próprio processo. O que surge, o que acontece, deve ser a lei comum para essa disciplina ser realizada. Dito de outra forma, é o próprio processo político que deve engendrar a sua disciplina.”


FAR

12 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Sakozy meteu na cabeça que vai fazer outra revolução francesa. Não há ninguém que lhe explique que a base teórica da outra revolução veio da Suiça? Se ele não tem em França intelectuais para pegar uma gata pelo rabo, muito nenos tem para uma revolução.

Anónimo disse...

Mister TP: Se conseguir ler e perceber Alain Badiou, este livro-bomba maravilhoso que está a causar furor em todo o Mundo, V. Excia deixará de pensar como pensa agora. E, o que é mais importante e decisivo, ficará apto a tentar lutar, a valer, contra os embustes desta sociedade e civilização que o agrilhoam de forma tão vexatória e iníqua. Percebido? V. Excia tem que ter a coragem de fazer um esforço...para ser livre e acreditar na transformação de um Mundo atroz e desigualitário, que nos faz escravos e sugeitos sem vontade nem consciência. FAR

PS. Estes extractos completam, de forma admirável, o que aqui já foi analisado sobre esse livro-panfleto que desafia todos os poderes...de mistificação, de ilusão e de contra-revoluçãona actualidade.

Táxi Pluvioso disse...

Um livro que vai salvar o mundo? O único que li foi o "Que fazer?" do Lenin, mas houve muitos.

Pelos extractos aqui apresentados não me parece nada de original. Um livro panfletário antigo, "Da greve selvagem à autogestão generalizada", já aflorava estes temas.

Anónimo disse...

O Senhor T.P. fabrica coisas: com deliberada má-fé, com estultícia e com refinada alegria de servo. Continue a ler José Ferrer Mora, please! FAR

Táxi Pluvioso disse...

Não fabrico nada. Compro tudo feito... nos livros.

Livres são os podres de ricos, os outros, carneiros são, e carneiros serão. Morremos todos antes de ser livres.

Como vão os amores do século? Como é que Sarky, sendo conservador, faz o amor? Teremos Sarky nos coros do último disco da Bruni?

Quem nos dera que o nosso Cavaco ardesse de calor por uma cantora pop. E, fugisse para férias escaldantes, com a Mafalda Veiga, ou, também pode ser o João Pedro Pais.

Anónimo disse...

Caro Maturino Galvão: No fabuloso livro do Badiou existe uma monumental(!) crítica à Democracia parlamentar e ao voto. Depois enquadra tudo isso, na história da Consciência de Classe, de Marx passando por Lénine e Mao, até Maio 68. Subtilmente, diz que Sarkosy é de Direita extrema e representa, potencialmente, um grande perigo. Esta uma das vertentes desta biblia de libertação de infinitesimal rigor e força. Claro, ela mexe com tudo: a mundivivência de cada um. Eu navego nestas águas, há muitos anos.Como tenho dado a ver nos escritos de circunstância que posto.Ele, Badiou, foi maoista-althusseriano e, nos anos 80, aproximou-se das teses heterodoxas de Deleuze e Guattari, muito próximas das de Castoriadis e Lefort.Saque o livro e vai ver que ficará a pensar de outra maneira: a exploração e a desigualdade não cessam de nos agrilhoar e confundir. Tente ver e pensar as coisas de outra maneira,ok? FAR

Anónimo disse...

"Biblia de libertação infinitesimal" .FAR, com franqueza:-))))

Anónimo disse...

Anónimo das 6.09 PM: No calor da refrega, com os sentidos plenos e a alegria da démarche revolucionária, existem expressões que escapam. Nada é quimicamente puro! O que não quer dizer... Sr. anónimo, não se perca em pormenores, please! O que conta é a intensidade, a dinâmica e o forma de criar esperança na multitude dos homens em revolta. Percebido? FAR

José Pinto de Sá disse...

Como dizia Sade, "encore un effort, si vous voulez être républicains!"

Anónimo disse...

"Esta uma das vertentes desta biblia de libertação de infinitesimal rigor e força", o que significa que o rigor e a força tendem ambos para zero, como diria o Mestre Bento Jesus Caraça, quod erad demonstrandum.

Anónimo disse...

Estes anacrónicos anónimos das 12.24 PM não têm emenda. Este silogismo pré-quântico,pre-einsteiniano e pré-Podolski-Rosen é um acto falhado e reverencial perante a ordem capitalista terrorista, sr. anónimo. Ainda por cima feito anonimamente. Com a sua esperteza saloia, o sr. anónimo quer negara necessidade de revolução e futuro. . " Não se pode tentar fixar a explicação de um fenómeno, uma teoria ou uma prática política, nem a um princípio de ordem pura, nem a um princípio de desordem pura, nem a um princípio de organização em última instância. É preciso combinar estes princípios em conjunto: ordem/desordem/interacção/ organização ",como assinala Tomas Khun. Estas farpas sem efeito nenhum, ainda por cima anónimas, só servem para despertar ainda mais e melhor caminho aos ensaios de nova prática política preconizados por Alain Badiou.E eu que já tinha dito que não respondia a anónimos de tez revisionista-leninista-bacoca...FAR

Anónimo disse...

A ignorância científica e literária nunca deu proveito a ninguém.