sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Quénia: o clash das oligarquias

A mediação de Kofi Annan no Quénia deve tentar o impossível: impedir o alastramento da guerra civil num dos países mais prósperos e estáveis da África Oriental. O poder das kalachk´s e as despudoradas ambições dos herdeiros de Jomo Kennyatta desvastaram a parte oriental do estado, onde agentes profissionais “acenderam” uma guerra tribal sem eira nem beira. Jean-Pierre Campagne assinou dois textos decisivos sobre a questão,, no Libé, clicar aqui, ultrapassando os relatos assimétricos de intelectuais quenianos dados à estampa pelo NY Times, nas duas últimas semanas.

J-P- Campagne, como no mesmo jornal o salientou Gérard Prunier, clicar aqui, apesar de sinalizar que existem cerca de 40 tribos no Quénia, o espaço politico da revolta tem claras motivações de tentativa de conquista do poder. Houve instrumentalização das rivalidades étnicas, “em casos pontuais”, releva. A marcha para a democracia pluralista data de 1992, pois, anteriormente, o fundador Jomo Kennyatta e o seu successor Daniel Moi, sendo de etnias diferentes e com falanjes desiguais tenderam a governar e a cumprir, via ditadura e oferta de privilégios inter-étnicos, sem limite para o oportunismo, claro.

Os actuais rivais, Mwai Kibaki (etnia kikuyus) e Raila Odinga (etnia Luos), associaram-se, numa coligação Arco-Iris, para derrotar Moi, em 2002. Conseguiram-no. Passados cinco anos, novas Presidenciais cavam a ruptura entre os dois líderes. Foi a ruptura na ruptura de uma prática política camuflada pela corrupção, o nepotismo e o abuso do poder. Prunier assinala e caracteriza essa situação,de facto: “(…) o Quénia é um desses países do Terceiro Mundo onde as „ elites “ políticas, tão ferozes como corruptas, adoptam superficialmente os slogans dao Banco Mundial para melhor praticarem as formas de exploração que o próprio Marx teria dificuldade em imaginar: uma mistura de acumulação capitalista primitiva, de saque burocrático, de neo-feudalismo rural e de roubo vergonhoso da ajuda internacional”.

Campagne, no referido texto, analisa o pulsar politico de alguns países vizinhos do Quénia. A Somália, que vive em estado de guerra larvar há mais de 25 anos, tem uma só etnia unificada pela mesma lingua e religião. Segundo a sua tese, “são clichés racistas que exploram as guerras tribais” - a Etiópia e a Eritreia, que se digladiam na Somália, são dirigidas por dois elementos da mesma confissão religiosa; e que estiveram aliados, em 1991, para afastar Megistu, antes de se iniciaram um processo de afrontamento por razões económicas e de hegemonia regional. O caso de Omar Bongo, do Gabão, é outro exemplo da fraca importância das raízes étnicas: está no poder há 40 anos, originário de uma tribo ultra-minoritária, que usa e abusa das novas formas de cooptação e sedução política corrompendo tudo o que se lhe oponha. No Senegal, na Costa do Marfim e, de há uns anos a esta parte, em Angola e Moçambique, as elites que controlam o poder estão em vias de se adaptar a melíflua e sediciosa forma de corromper…a democracia.

FAR

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