terça-feira, 29 de janeiro de 2008

"Um país de mal dizentes e de lambe-botas."

« "Um país de mal dizentes e de lambe-botas." Não partilho de uma visão derrotista relativamente ao Povo Português. Muito pelo contrário. Penso que o Povo Português tem um enorme bom senso e muita experiência acumulada ao longo dos quase nove séculos de história que tem atrás de si: uma cultura inata, que lhe faz escolher, normalmente bem, as opções a seguir, em especial nos momentos decisivos.

E, no entanto, há umas franjas, que às vezes se tornam muito visíveis, ainda que hiperminoritárias, de sinal contrário: os lambe-botas e os maldizentes. Os "lambe-botas" são os que estão atentos aos sinais do poder, sejam quais forem - político, económico ou cultural - para, em genuflexão, colherem umas migalhas que caiam do poder. Às vezes migalhas, outras grandes benesses, conforme o jeito e o estatuto dos artistas da genuflexão.

Por outro lado, os maldizentes profissionais, que se comprazem em dizer mal de tudo e de todos, em especial da Pátria. E dos governos, claro, sejam quais forem. Sem se importar com o que vem depois. É a política do quanto pior melhor. Por feitio, azedume, por estarem mal com a vida e com eles próprios.

Uns e outros são nefastos, naturalmente. Os lambe-botas mais do que os maldizentes. Mas deixemo-los falar, com a tolerância possível, enquanto a caravana passa
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Mário Soares. Diário de Notícias 29/01/2008

22 comentários:

Armando Rocheteau disse...

Não tendo eu pedalada para aguentar as polémicas em que me meto resolvi chamar o Mário para me defender.
No hard feelings.

Táxi Pluvioso disse...

O candidato presidencial anti-Manuel Alegre sabe do que fala. Ele que lambeu as botas dos americanos e da social-democracia europeia para lhe pagarem as sedes do partido. E ia lamber aos ingleses por gasolina e armas para atacar Lisboa.

É um facto que o passado não interfere no presente, ou ele também teria culpas na situação actual.

Armando Rocheteau disse...

Porra Táxi! Sei que não gostas do homem, mas ele tem as costas largas, embora não seja Platão.

zemari@ disse...

Vamos a factos comprováveis:

Este gabiru de balzaquianas, sempre pimpão, reuniu à volta dele uma corte que é uma corja de lambe-botas ou maldizentes profissionais.

São incompetentes (não é da minha esfera!), retrógrados (um e.mail??), iluminados (ah! mas pode fazer-se isso?!) madraços (não me diga? Para já?), enfim são uns melgas.

Têm sinecuras em Institutos com nomes pomposos, Palácios Nacionais, Comissões Coordenadores disto e daquilo, Organismos de prestígio e nenhum préstimo e em Fundações sem fundamentos.

Resumindo, são uma cáfila de "afilhados/as", mentalmente carunchosos, que sabem imenso de nada, com umas credenciais bolorentas, mas que conseguem tornar, com grande eficácia, este País ainda mais vil.

Armando Rocheteau disse...

Já agora um pedido. Alguém me diz como é que se posta um ficheiro em mp3?

Zemari, como disse acima ao Táxi, o Soares tem as costas largas, e, não conheço outro político com a sua coragem.

Anónimo disse...

Armando, céus e abrenúncio, deixa-te de brincadeiras:Quem é que defende, hoje, o Soares? Para quê e porquê? Ele devia ter-se retirado quando deixou Belém,certo? A sua herança política não é má nem cinzenta,como a de Eanes ou a de Sampaio. Mas que cometeu erros enormes e imprimiu um estilo de fazer política completamente nefasto para o futuro de Portugal, lá isso, ninguém lho nega.E disso ele não se livrará no Tribunal da História. Facilitismo: amiguismo, desenrasquismo:nepotismo:negocismo enviesado; e, acima de tudo, culto da Mediocridade disfarçada em fatalidade e no maquiavelismo da mais despudorada das impunidades. Soares é uma coisa, os soaristas são outra, e bem pior que tudo o que ainda mexe na política portuguesa. A " forma" como " desgraçou " o PS, antes de ir para Belém, e o tristíssimo episódio da candidatura de 2005,quase que apagaram os " fogachos " da manif. da Alameda-1975-de braço-dado com Vera Lagoa e os neófitos da Direita "democrática" portuguesa, que, lá dizia o outro, é a mais estúpida do Mundo. Armando,hoje o Socialismo é uma aposta que necessita de reformulações muito exigentes- veja-se o que se passa em França e na própria Alemanha-de forma que os oportunistas de todos os bordos, não acabem por defender a " economia comunista de mercado", que quer dizer,na linha de um Badiou ou Lasch, a edificação de um sistema hibrido que saca/solicita ao mercado a competição de todos contra todos, a livre-troca e a maximização dos lucros individuais, e ao comunismo a " democracia limitada", a instrumentalização do Direito, a obsessão/obscena da quantificação e a desconectação total do futuro dos dirigentes e dos dirigidos.
Este é um momento mesmo para esquecer,Armando.Fiquei muito abalado com a tua rendição que, faço votos, seja momentânea. FAR

Ana Cristina Leonardo disse...

Posso dizer uma coisa?
Eu gosto do homem. É aldraboso, será vingativo (dizem), vive com uma beata, não fala inglês e tem pronúncia de Toulouse. Mas que, apesar de tudo, teve um grande faro político, teve.
Posto isto: este excerto é simpático para o povo português, apenas isso. E, na realidade, não adianta grande coisa...
«Não partilho de uma visão derrotista relativamente ao Povo Português», diz ele. Eu também não. O problema é o país. Embora, bem vistas as coisas, todos os países sejam um problema (talvez com excepção do Canadá... - é um mito meu que um dia tirarei a limpo)
NOTA: este não é um comentário político; é um comentário feminino-ó-emocional (e com isto é que me lixei).

Táxi Pluvioso disse...

Soares é espadaúdo como o Pinto da Costa.

Ana Cristina Leonardo disse...

O Pinto da Costa ficava bem num filme do Martin Scorsese: ascensão e queda de um pinga-amor
Se a vida fosse um romance, acho que o Pinto da Costa ficava bem interpretado pelo Albert Finney e o Soares pelo James Cagney

Anónimo disse...

" Lá, onde se gera o perigo,cresce também o que salva", Hölderlin. Os meus amigos ainda não
repararam que, Soares, como quem não quer a coisa, com um subtil mas assimétrico oportunismo, conseguiu sempre levar a água ao seu moinho?!? Andou com os comunistas, foi seduzido pelos EUA, atravessou a via sacra do poder de Estado; e, agora, apoia os alter-mundialistas, sem o dizer explicitamente...A grande sensação que transmite, no entanto, é que sempre pegou nas ideias e nos conceitos de uma forma instrumental muito rudimentar, a léguas de distância do seu antigo " perfeito", Álvaro Cunhal, que tinha a maestria da alta maceração conceptual...de umas velhas receitas estalianas...Que o debate continue. Sempre. FAR

Ana Cristina Leonardo disse...

A grande sensação que transmite, no entanto, é que sempre pegou nas ideias e nos conceitos de uma forma instrumental muito rudimentar, a léguas de distância do seu antigo " perfeito", Álvaro Cunhal, que tinha a maestria da alta maceração conceptual...de umas velhas receitas estalianas...

FAR, não posso concordar. Porque foi precisamente a nível instrumental que ele passou a perna ao outro...
Cunhal era um dogmático, Soares um pragmático; mas já agora acrescente-se: teoricamente, mesmo para um estalinista, Cunhal era bastante fraco. Leiam-se (deus nos livre e guarde!) os livros (de "teoria" e os romances). Talvez o mal de Cunhal, ocorreu-me agora, como o do homenzinho do bigode, tenha sido o de não ter ido para pintura.

j.a. disse...

Tanta teoria, tantos acordos
e desacordos e no fim "somos
todos bons amigos", "isto
é uma democracia" e não
deixamos de nos "lamber"...
e de mal dizer uns dos outros! Deixemo-nos de
cerimónias e vamos lá a um
abraço, rapaziada!

zemari@ disse...

Como sempre.

Mas tolerância não é perder a coluna.

Anónimo disse...

A.C-L:" O ser esconde e esconde-se. A aparência dissimula e brilha. O nada fecha ", Heidegger. Boa tese a sua sobre A. Cunhal. Aliàs, creio, que ele tinha primos e/ ou sobrinhos, os Medina, que eram(são ainda?) bons pintores e escritores.Conheço pouco da sua obra, por inibitórios reflexos esquerdizantes. Mas tenho imenso respeito pela sua coragem humana, claro! Eu imagino um Blogue como um atelier de Ideias, de verdade e com força argumentativa multi-direccional. Só, assim, vale a pena: para avançarmos, para sermos mais livres e felizes." Heidegger consegue dizer coisas como esta: a desolação, a devastação são piores que o aniquilamento ", Ph. Sollers, que é um grande comentador de Heidegger, in Éloge de l´Infini, Gallimard. Vou continuar a pensar a sua questionação, que vale para todos. Gosto de partilhar tudo e de ver toda a gente, audaciosamente, a pensar no Bem, no Belo e no Desejo. Salut! FAR

FernandoRebelo disse...

Mário Soares conseguiu tornar-se na face da Direita - pior que Sá Carneiro, pior ainda que Freitas do Amaral. O interlocutor privilegiado de F. Carlucci.
O que é hoje o PS deve-se a este senhor.
A sua herança política está no PS enquanto partido na governação com maioria absoluta.
O homem Soares não tem, nem nunca poderia ter, a dimensão de Álvsro Cunhal. Álvaro Cunhal é outro mundo,faça-se-lhe essa justiça: qualquer tentativa de o comparar com Soares é infrutífera.
Soares é o exílio dourado em S.Tomé, mais tarde Paris e a Alemanha de Willy Brandt, Londres,na Primavera Marcelista, a pisar a bandeira portuguesa (a mim, esse gesto, não me molesta nem um pouco, nunca me declarei um patriota e nem gosto um bocadinho deste país...).
Soares representa a balbúrdia, a desorganização, o arranjismo, o amiguismo - em suma, o tasqueiro que faz batota nas contas quando topa que os comensais estão 'grossos', mas satisfeitos; ainda que esta satisfação seja temporária.
Pagamos caro políticos destes.
Muito caro. Neste rumo de José Pinto e qualquer coisa que nos governa, com a devida benção de Soares, caminhamos para o abismo, sem quaisquer vislumbres de escapatória possível.
Soares não presta, nunca prestou.

Ana Cristina Leonardo disse...

Cunhal é outro mundo,faça-se-lhe essa justiça: qualquer tentativa de o comparar com Soares é infrutífera.

Entre o Soares e o Cunhal o meu coração nem balança: venha o Soares. O Cunhal é tudo o que eu considero contrário à vida: dogmático, ditador, inflexível e impiedoso (não me ocorrem mais adjectivos). E quanto à conversa estafada da coragem, prefiro os bombeiros, sempre usam a coragem para o bem de todos!

Soares representa a balbúrdia, a desorganização, o arranjismo, o amiguismo - em suma, o tasqueiro que faz batota nas contas quando topa que os comensais estão 'grossos', mas satisfeitos; ainda que esta satisfação seja temporária.

Pois, pois... Antes aldrabão que fascista, e cada vez acho mais que este lema separa águas.

Ana Cristina Leonardo disse...

Já me esquecia:
Soares (...) a pisar a bandeira portuguesa (a mim, esse gesto, não me molesta nem um pouco, nunca me declarei um patriota e nem gosto um bocadinho deste país...).

É curioso como este episódio é sempre citado pelos que odeiam o Soares, uma espécie de denominador comum que junta patriotas, internacionalistas e até monárquicos (embora a bandeira seja republicana). Curioso grupo...

Anónimo disse...

ACL: Conheci com 22 anos( eu) o dr. Mário Soares em Paris. O número dois da LUAR, que tem o meu apelido, era um ás: nunca foi preso, e sabe-se como a LUAR actuava em Paris. Ora, o dr. Mário Soares, que pensava que eu era dirigente trostkista, avançou-me com um acordo político. Eu, com o Alberto Costa e o Fleming, fomos discutir o apoio do dr. Mario Soares à minha refutação da expulsão. Já tinha o apoio do Emidio Gurereiro e do José Augusto Seabra. Isto tudo para dizer:as experiências são únicas e singulares, minha cara ACL. Valem o que valem: se calhar existem outras...mas diferentes. Melhores?
ACL, parece-me muito fácil dizer mal do Álvaro Cunhal, eu, que aos 16 anos me revoltei contra a tutela dos PC´s. O que é decisivo, na minha relação com a Revolução, prende-se com a capacidade de afirmar, de fazer bem e de alargar a felicidade dos Outros.Um dia, sem eu o saber bem, viajo com o número dois da Luar para Estocolmo. Cada um ia às suas tarefas. Só que quando cheguei a casa, em Estocolmo, tinha umas notas valiosas no bolso do meu jeans. O que interessa, é o que conseguimos fazer para libertar as pessoas. O dirigente da Luar bem sabia, disse-o, que acordei às 5 da matina no Scandinavian Express para ler Deleuze... O resto são tretas, minha cara! FAR

Ana Cristina Leonardo disse...

Parece-me muito fácil dizer mal do Álvaro Cunhal

Acho que não me expliquei bem: não nutro qualquer simpatia por qualquer tipo de ditadores. E é uma chatice que isto seja um princípio: é que não dá mesmo para mudar.

Consultor da AKI disse...

"o dr. Mário Soares em Paris"
"Ora, o dr. Mário Soares,"
"o apoio do dr. Mario Soares"

"com o Alberto Costa"
"o apoio do Emídio Guerreiro"
"e do José Augusto Seabra"

Não o conheço, mas depois de ler o seu comentário, parece-me que devia comprar esticadores para o arame farpado que tem na cabeça.

Sem ofensa. É só a opinião de um especialista na matéria: há os de ferro, aço zincado, de dois fios, os da classe 175, 250 e 350.
Assim como há muitos tipos de esticadores.
O êxito da operação depende, portanto, de muitas variáveis.
Quem o avisa, seu amigo é.

Antes de tomar uma decisão, porque é que não se aconselha com o Ex.mo Senhor Doutor Mário Soares?
Com os outros não vale a pena. Pelo modo como os trata devem paus para toda a obra, uns desqualificados.

Muitas felicidades na terapia da sua permanente dor de cabeça.
Como sabe, o arame farpado pode criar inflamações e infecções muito graves.
Tem as vacinas do tétano, em dia? Olhe lá!
E se ele passa para o cabelo é o cabo dos trabalhos para o pentear.

Anónimo disse...

Anónimo das 10.14.PM- Faz pontaria ao lado. O Alberto Costa era refugiado em Paris, muito novo, e já muito próximo do dr. Mário Soares. Eu era um enragé que lia uns livros, e escrevia nos Suplementos Literários da República e Diário de Lisboa, a partir de Paris. Por isso, conheci o JA Seabra que me levou a casa do Prof. Emídio Guerreiro, que tinha grandes relações históricas com a Liga dos Direitos do Homem.Coisas muito simples, claras e cheias de humanidade, claro. Nessa altura conheci o grande amigo do JA Seabra, que era da Vanguarda Literária Portuguesa,o grande poeta metafísico Fernando Echevarria...que andava a saltar de café em café, junto ao Sena, entre o Quartier e o Louvre, para escrever e conhecer umas pequenas com boas estórias,claro. Fiz uma entrevista ao F Echevarria que, depois do 25 Abril, o JA Seabra, já no PSD, publicou sem a minha assinatura no " Povo Livre". Este Verão estive na S. Caetano para a fotocopiar, claro. Tudo isto são
narrativas de sentido axiomático socialista, diria o Félix Guattari.
E que valem o que valem. FAR

Armando Rocheteau disse...

Fernando Rebelo:
Nada como o Soares para pôr a salivar pavlovianamente o comuna que há em ti. Tu que és culto, sensível e criativo, tranformas-te e utilizas a linguagem da mais boçal das direitas. É verdade que o Cunhal foi derrotado na rua pelo Soares e assim se consolidou a democracia. Tivesse ganho Cunhal nem esta troca de opiniões seria possível. Grande Soares!