sábado, 12 de janeiro de 2008

Cantar as janeiras

Mais um ano, mais um degrau na subideira para o mundo perfeito. Em boa hora, no ano de 713 a. C., o rei Numa Pompílio, sucessor de Rómulo, integrou no calendário romano o mês de Janeiro, facultando, aos filhos do estilhaçado Império, trinta e um dias para renovar esperanças e definir objectivos, que o resto do ano cumprirá. Se em Dezembro se limpam gavetas e armários, em Janeiro abrem-se portas e janelas. A palavra “Janeiro” teve origem em Jano, deus das portas, portões e cancelas, dos princípios e dos fins, representado com duas cabeças, uma olhando em frente, outra para trás. Com um olho no passado e outro no futuro, o mês de Janeiro abre uma caixa de Pandora… de coisas boas. (The Pandoras, banda americana dos anos 80, numa versão psicadélica de “You Don’t Satisfy”. Mas nessa década, o Vidal Sassoon, champô e condicionador, muda o aspecto do rock. The Pandoras ao ar livre em “You' re All Talk”. E metidas com Cherie Currie das Runaways).

Da Austrália vem uma boa ideia para este ano. Há 40 anos que a empresa Westaff fornece Pais Natal para lojas e centros comerciais. Em 2007 entrou na moda do politicamente correcto que desabrocha pelo planeta. Aconselhou aos seus empregados, contratados para representar o famoso habitante da Lapónia, na festiva quadra natalícia, que trocassem o bonacheirão e tradicional riso “ho, ho, ho” por “ha, ha, ha”. O insólito pedido tem uma explicação simples. Matar infiéis, em conjunto com os amigos americanos, engrandeceu-lhes o vocabulário com o calão do G.I. Joe. A expressão “ho” é uma abreviatura de “whore” (puta) na gíria das ruas americanas. E, não é correcto, sujeitar os ouvidos das criancinhas a palavrões, quando dão um empurrão na economia, acelerando o consumo. Se, começam desde cedo, em contacto com o vernáculo, a educação não encaixa, as transgressões suceder-se-ão e é provável que acabem a fumar e beber em palco como o Nick Cave. A empresa dá uma explicação mais científica assentada na Psicologia. Sari Hegarty, coordenadora do recrutamento de Pais Natal, explica-se: “pedimos aos nossos Pais para tentarem certas técnicas, como baixar o tom da voz e usar “ha, ha, ha”, para encorajar as crianças a aproximarem-se e a conhecer o Pai Natal”. Por causa dos americanos, os australianos têm mais para mostrar que “Fuck off Is the Only Thing You Have to Show” (das brasileiras Cansei de Ser Sexy).

Certo dia Brigitte Bardot desabafou: “dei a minha beleza e a minha juventude ao homem. Vou dar a minha sabedoria e experiência aos animais”. Brigitte esteve no topo da interacção humana. Cantou só e acompanhada. Cantaram-lhe. Jean-Luc Goddard pô-la a perguntar o óbvio. No filme “En Cas de Malheur”, de Claude Autant-Lara, Jean Gabin gostaria de estar sentado no lugar do espectador. Bem poderia ser a garota de Ipanema. Sem dúvida a mulher mais excitante do mundo. Mas isso terminou e, em alternativa, entregou-se aos bichos. Quer salvá-los da crueldade e voracidade humana. E não é a única… a olhar os animais. A Quercus recomendava neste Natal: “coma bacalhau mas com moderação”. O peixe da Consoada está em vias de extinção e a Igreja não vai autorizar o fim do jejum de carne nesta época. O fiel amigo não tem substituto. Assim, amigo que come amigo, deve libertar a consciência ecológica para que a relação de amizade perdure. Enquanto não vem a clonagem apela-se ao racionamento e ao chupar bem as espinhas para evitar o desperdício. (A rainha do rock não tem espinhas. Joan Jett também pertenceu às Runaways. Ela em “I Love Rock ‘n’ Roll”. E em “Crimson & Clover”, uma versão de Tommy James & The Shondells).

Nas terras lusas o ano começa bem.(...) (Continue a ler o Táxi Pluvioso no Pratinho De Couratos)

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