domingo, 6 de janeiro de 2008

LUIZ PACHECO


Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme. A tribo dorme: a Lina mostra um punho fechado (ideias avançadas terá a mocinha?); o rapaz está de costas e quase destapado (parece um Cupido cansado; na larga queixada, porém, uma expressão terrena, máscula - a cara camponesa e rude do avô Matias); o bebé ressona ou balbucia qualquer uma esperança que só ele entende. Ela, a Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, encosta-se a mim e calada cálida repousa cansada. Sou um deus grego ! Fauno serôdio, Pan sem flauta, Orfeu decaído de quantas desilusões e frios cinismos, um Vulcano cornudo às ordens de Vocências, do meu espaldar senhorial contemplo o rebanho provisório que inventei, patriarca e profeta do meu próprio futuro. E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chegue a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões que o enfizema vai dilatando minguando a elasticidade; que o meu coração eia! sus! bata ainda quando, num quintal que não sei, perto, o galo canta.
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6 comentários:

zemari@ disse...

Também num domingo, mas de 12 de Agosto passado, "com a devida vénia ao Zero de Conduta", o 2+2=5 publicou um "post" que remetia para uma entrevista de Guilherme Pereira a Luiz Pacheco.

Gostava de transcrever aqui alguns extractos ou de indicar o link, mas não consigo repescá-la na net. Talvez aselhice, o que é pena porque é loooonga, mas nada chata.

Lembro-me, no entanto de uma frase de Luiz Pacheco a propósito do marquês de Sade:
"Foi um tipo exemplar, mas não foi um bom exemplo".

Recordo-a porque se aplica a uma caterva de gente da nossa elite, seja lá o que isso for.

Anónimo disse...

Em Portugal quando um gajo morre é elevado aos píncaros.
Se o Inginheiro morrer amanhã ainda o vão por no Penteão...
País de merdas...

José Pinto de Sá disse...

O que o Anónimo diz não deixa de ser verdade, mas a escolha do exemplo é infeliz. O Luiz Pacheco não cabe nesse desabafo. Um gajo que editou Herberto Helder e escreveu "O Poeta Passeia por Braga..." fica dispensado de quase todos os fretes. Palavras para quê? Quais Miller, quais Bukovski. Só mesmo Sade navega assim nos mares da liberdade mais absoluta, e da ternura mais desesperada.

Anónimo disse...

Poeta não, mas sim libertino. O falecimento do Pacheco e a eventual publicação das suas obras completas e, se calhar, de alguns textos póstumos vão reduzir muito provavelmente o impacto mediático dos últimos escritos de Maria Filomena Mónica.

Haja saúde.

a) Alípio Severo

FernandoRebelo disse...

O sacana do Pacheco tinha que fazer assim: despedir-se à francesa...

Anónimo disse...

Corram a ler,corram: o L.Pacheco tem um texto sobre o FAR- por causa do Juvenil do Diário de Lisboa(69/70)- num dos seus livros de Ensaios. A minha falsa modéstia é tão grande, que já não me recordo do título do volume do conjunto, publicado na Editorial Estampa, que talvez, se tivesse metamorfoseado em "Caminho", anos depois... E, o bonito, é que eu vi-o na Cervejaria Trindade depois do 25 de Abril; e nunca falámos disso... FAR