quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Da Capital do Império

Olá!

Agora que o Ted Kennedy - o velho leão do Senado - decidiu transformar o Obambi em Obamelot é talvez importante explicar-vos que isso aconteceu porque os dirigentes tradicionais do Partido Democrático estavam a ficar um pouco lixados com as clintonices dos Clintons.
Por exemplo o senador Patrick Leahy, um dos baluartes dos Democratas no Senado acusou os Clintons de “usarem truques baratos abaixo da dignidade de um antigo presidente”. O Senador John Kerry (que perdeu as últimas eleições para o Bush) acusou os Clintons de quererem “roubar as eleições com mentiras e distorções”. O proeminente Democrata Ed Schultz acusou os Clintons de “mentirem deliberadamente sobre Obama” e de serem “uma vergonha” para o Partido Democrático. O antigo dirigente dos democratas no senado Tom Daschle acusou os Clintons de “distorções descaradas” e o Bill de actuar “de forma não presidencial” enquanto o comentarista democrata William Geider acusou os Clintons de “jogarem sujo como é seu costume quando se sentem ameaçados”. O palhaço do reverendo Al Sharpton que ganha a vida a descobrir actos de racistas brancos (quase sempre inventados) foi mais directo: “cala a boca Bill!” disse ele numa estação de televisão embora eu tenha a dizer que mais Sharpton do que isso foi o Andrew Young (também reverendo) que apoia os Clintons e que disse que o Bill “é mais preto do que o Obama porque teve mais pretas que o Obama”! Verdade verdadinha.
Por esta altura vocês já devem estar a notar que pelo menos até agora quem tem estado a concorrer à presidência não é a Hilária. Também não é o Bill. É um novo candidato que se chama Billary Clinton
Antes de avançar tenho a explicar-vos que no vocabulário americano há um adjectivo único: clintoniano. Diz-se que uma acção ou declaração é “clintoniana” quando é uma desonestidade camuflada numa meia verdade ou numa mentira dita de forma tão sincera que só os Clintons conseguem-na fazer passar como verdade. O Bill é particularmente bom nisso. O antigo Senador Bob Kerry (não é família do outro Kerry) que os conhece bem disse noutro dia que o Bill é “um homem excepcionalmente bom …a mentir”.
Exemplos de “clintonices”: Quando a Hilária foi derrotada na Carolina do Sul na semana passada o Bill declarou que “o Obama ganhou muito bem tal como o Jesse Jackson ganhou em 1988”. A declaração foi clintoniana. Teve como objectivo mandar o Obama para o gueto da política racial, recordando a campanha de Jesse Jackson que teve como apelo quase único o eleitorado negro. Mais do que isso a declaração do Bill teve como objectivo tentar alienar o eleitorado branco do Obambi que está a tentar levar a cabo uma campanha em que a questão racial quase não é mencionada. Com essa declaração os Billary disseram adeus à maioria do eleitorado negro mas fizeram as contas e ficam a ganhar porque junto de muitos eleitores Obama é agora … Jesse Jackson, um preto sem qualquer possibilidade de ganhar.
E depois o Bill, numa finta clintoniana, disse à CNN que a campanha do Obama é que tinha introduzido a questão da raça na campanha e disse que os jornalistas deveriam “ ter vergonha” de engolirem as “distorções” do Obambi. “Vocês deviam ter vergonha,” disse ele numa performance clintoniana com a cara vermelha de irritação falsa a um grupo de jornalistas caloiros meio espantados com a clintonice.
Os Billary ficaram no entanto caladinhos quando um influente membro da sua campanha Sergio Bendixen declarou que o Obambi não vai ganhar na Califórnia porque “o eleitor hispânico não tem mostrado muita afinidade em apoiar candidatos negros”. Típico clintoniano. Como me disse um democrata do congresso: “Em qualquer outra campanha já teriam dito ‘hasta la vista’ ao Bendixen”
Ainda outro exemplo: O Obambi disse que Ronald Reagan tinha conseguido vencer duas eleições seguidas com grande apoio de Democratas porque na altura tinha sido o homem de ideias novas na cena política Americana. O que é verdade. Os Clintons puseram um anúncio na televisão a dizer que o Obambi apoiava as ideias do Reagan. Foi clintoniano. Tal como a declaração do Bill a dizer com um ar magoado, que a imagem de que o Obambi se tinha oposto à guerra no Iraque era “ o maior conto de fadas da minha vida” quando na verdade o “conto de fadas” é a historia que a Hilária se opõe à guerra. Aprovou, depois foi contra e depois a favor de uma retirada, agora é contra a guerra mas sem retirada, tendo em conta a situação “fluida” mas poderá ser a favor se não for contra. Clintoniano
Aparentemente o Ted Kennedy ficou bem lixado com o Bill e na semana passada telefonou-lhe para protestar contra as “clintonices” dos Clintons. Graças aos detalhes deliciosos de um membro do “staff” dos Kennedy toda a gente no mundo jornalístico sabe que o telefonema acabou aos berros e que o Ted decidiu então dar o aval da família real dos democratas ao Obambi.
Tenho a dizer-vos que eu gosto sempre de ouvir o Ted Kennedy discursar embora na maior parte das vezes não concorde com o que ele diz. Faz discursos à antiga daqueles capazes de trazerem lágrimas aos olhos. A sua voz é ainda forte e a sua pronúncia e cadência de Boston dão-lhe uma personalidade única
O Ted Kennedy no seu discurso a anunciar o apoio da família real ao Obambi começou por dizer que era amigo dos Clintons e que “eles” (Ted aqui já esta a juntar o Bill à Hillary!) eram colegas no senado e que a Hilária “tem estado na linha da frente no combate por questões como saúde e direitos da mulher”.
Mas depois disse apoiar o Obambi porque este é um líder que “não é cínico” e que “não demoniza aqueles que têm pontos de vista diferentes”.
“Desde o começo que se opôs à guerra no Iraque e não permitam que quem quer que seja negue essa verdade”, disse o Ted. O “tio Teddy” (como lhe chama em público a Caroline, filha do John) acrescentou que o Obambi será capaz de pôr termo “à velha política da distorção e falsidades”, da “velha política de por raça contra raça”.
E depois contrariando mas sem as mencionar as declarações dos Billary de que o Ombambi não tem experiência o velho leão do Senado - que está no Senado desde que descobriram a América - afirmou que “o que conta em termos de liderança não são os anos passados em Washington”.
Noutras palavras: “fuck you Billary”.
Que delícia!
Abraços,

Da capital do Império

Jota Esse Erre

6 comentários:

Anónimo disse...

JSR, acho o texto divertido e prolixo. No entanto, dado que o estado da América e do Mundo- crise económica e social profunda...-lhe deveria incutir uma dose de maior reflexão e de perspectiva(s).Lêem-se os comentadores económios do NY Times e do Financial Times e fica-se com ma sensação de desorientação e vazio enormes. Bom vento! FAR

B. César disse...

Se a Hillary e o Bill se concentrassem mais em fazer campanha em vez de tentarem deitar abaixo o Obama talvez já tivessem a nomeação no papo. Dia 5 logo vemoa para que lado a corda parte.

Táxi Pluvioso disse...

Resumindo o eterno candidato ao solar branco, McCain, vai concretizar o seu sonho de ser chamado presidente of the united states of america.

As eleições USA interessam muito aos europeus que anseiam por saber que dono lhes sai na rifa. (Os americanos interessam-se mais pela superbowl). Os dirigentes UE gostariam de ser manadados pelo "jovem senador negro" (como lhe chamam os jornalistas lusitanos) por razões óbvias.

zemari@ disse...

Nunca "ganhei" uma eleição na vida.
Também não será desta. Os meus candidatos preferidos, Huckabee e Edwards, foram à vida.
Bolas!
Mas pode ser que o Benfica vá à falência!

Táxi Pluvioso disse...

Eu apoiava o tipo com a mulher boa como o milho. Aquele que disse ter visto um OVNI. Dennis Kucinich de seu nome, creio.

Ana Cristina Leonardo disse...

Grande relato! E o mais extraordinário é que quando se chega ao fim nem sequer temos a cabeça à roda.