domingo, 6 de janeiro de 2008

Conto

Zero mortos
O primo mais encorpado, o pontão loiro da família morena, segurava-lhe os dedos como se ela os tivesse como finos tubinhos de vidro, enquanto caminhavam em pensadas passadas.
O recinto era de apertos, mesmo dentro dos sapatos.
Esperaram. Havia de chegar alguém com o familiar mais velho.
Imaginaram o saco preto em escasso balanço, a surgir pendurado na cerimónia de uma mão que tresanda todos os dias, àquele peso de corpo no melhor fato e ripas de caixa, tudo junto.
Não veio.
Antes lhes depositaram junto aos enlagrimados olhos, um berço completo com pernas de insecto em fraca madeira. O lençol estava sem arrumação própria na sua lisura, a dobra desalinhava-se no carril debruado da almofada. Parecia habitado em desvolume.
Não chovia nem tinham a pressa ganha nos tempos carregados de fortes cinzentos, por isso, deixaram-se estar a matutar sobre o objecto em vez do objecto esperado, ter ali a sua sombra.
Ela espreitou primeiro o céu e logo a alcofa, e em instinto feminino baixou com solenidade o pequeno lençol, naquele gesto de inventar um rosto seu.
Encontrou umas cinzas espalhadas.
O primo minguou os seus dedos de menina na sua palma grande, cova de suores maiores. Cinzas? Era o mais velho. Já tinham acabado os sacos?
A neta esticou num repente de abismação, o pano até à fronha. As suas mãos ficaram uminha nas do primo.
Passado o deslavado que traz o susto, ela arqueou as costas e afundou os olhos uma vez mais na alva almofada, quando no seu desejo avistou nela um couro cabeludo bem branco, de penteado com risca de lado.
Não havia meio de começar aquela trovoada, para os levar na furibunda corrida de pés ainda enxutos?
Trouxe o lençol mais para o meio do berço, concretizando então o resto do antepassado nas suas carnes de antigamente, as rugas das assentadas da existência, o sorriso sempre malandro a boicotar o juízo dos outros, o negro vivo dos olhos a camalearem as desenluadas noites e os seus lábios de vermelho carnudo já com conversas de serão grande, a mexerem-se no desenho das frases. Era ele.
Sem esperas, pontapeteou a coberta para o alto, deitou para fora braços e pernas e num salto de gazela que escapa de afilado fim por um triz, susteve-se agilmente em si próprio, no areado piso.
Em assombrosa satisfação, depois esquinou rumo ao traço mais directo para a sua casa, o mais velho. Ninguém esquece esse caminho, é como saber engolir as estrelas sempre que não são tocáveis.
O primo, avariado de realidades, seguiu-o ao longe encostado na meia desconfiança, enquanto se des-soltava custosamente dos sonhos malucos da mais nova.

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