terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Da Capital do Império

Olá,

Hoje creio eu que vos vou surpreender. Desculpem-me o meu entusiasmo mas vou falar-vos de cinema, mais precisamente de um filme que fui há dias ver. “There will be blood” que não sei como vai ser chamado aí desse lado do charco.
Antes disso tenho a dizer-vos que eu continuo a ser um grande fã do cinema. Só vi televisão pela primeira vez na minha vida aos 20 anos de idade em 1972 (um dos benefícios do colonialismo) e o cinema foi aquilo que marcou o meu mundo áudio visual. Dai que só use a televisão para ver futebol e noticias e todos os dias diga para mim: “Tenho mais de duzentos canais de televisão e não tenho nada para ver.”
Talvez por isso continuo também a preferir ver os filmes na sala de cinema, apesar de aqui nos Estados Unidos às vezes ficar irritado com o reflexo pavloviano dos americanos que quando entram na sala de cinema têm que ter na mão um pacote enorme de pipocas e noutro um copo enorme de cartão de Coca-Cola. Americano, qualquer que seja a sua idade, quando compra bilhete de cinema começa a sentir o sabor de pipoca e o gosto de Coca-Cola. Está-lhes gravado no seu AND e por isso têm que entrar na sala com isso na mão. O resultado é que as vezes os filmes iniciam-se e o maralhal ainda está a mastigar pipocas ou então a chupar o fim da Coca-Cola pela palhinha que com o gelo a derreter provoca aquele barulho irritante schlup schlup schlup. Ou então a meio do filme alguns têm que ir despejar a Coca-Cola, algo que acontece principalmente em dois escalões etários, os muitos jovens e os mais velhos idades em que a capacidade das bexigas está em ordem inversa ao tamanho dos filmes.
Mas apesar dessa pequena irritação cultural americana nada bate um filme visto no écran grande. Raramente vejo filmes na televisão e creio que nunca aluguei um DVD, embora tenha uma colecção enorme dos meus filmes favoritos em vídeo … que nunca vejo.
Isto tudo a propósito de “There will be blood” um filme cujos minutos iniciais de um tal Daniel Plainview (o actor Daniel Day Lewis) a garimpar num buraco no meio de uma zona semi desértica inospitável, sem outro som que o da picareta e do seu respirar são só por si memoráveis.
Plainview reincarna o princípio da América. A terra hostil, a pobreza dos que a exploram, a sua cobiça, a sua energia, a sua brutalidade.
Plainview (que se pode traduzir por “vista clara”) é isso mesmo. O seu individualismo, o seu egoísmo, a sua capacidade de usar as necessidades dos outros para ele avançar, estão ali à vista clara de todos, como também estão a sua criatividade, a sua vontade de vencer, ultrapassando barreiras físicas, económicas e sociais.
A religião surrealista evangélica que acompanha os pobres nessas zonas abandonadas também está lá em coexistência tensa e nervosa, às vezes em confronto com o capitalismo que cresce e se fortalece nessas zonas, formando a identidade americana e do seu capitalismo. Às vezes em “cooperação” forçada a lembrar Henrique IV de França que em 1593 se converteu ao catolicismo porque “Paris vale bem uma missa”. Plainview “converte-se” também ao evangelismo louco porque precisa disso para avançar.
É um filme com momentos de ternura (uma curta cena de Plainview com o seu filho num comboio, sem palavras, sem abraços, sem beijos, é magistral) mas sempre de tensão, de incerteza que é afinal aquilo que é a vida principalmente em situações novas e difíceis.
Sangue ao contrário do que o titulo possa indicar há pouco. Na cena de um trabalhador que morre num poço de petróleo o seu sangue e o seu corpo misturam-se na lama, no sujo da nova força que revoluciona a paisagem, o país.
Capitalismo criador e que como tudo o que cria também destrói. A analogia da América está ali, numa história bem contada que prende qualquer pessoa sem pretender ensinar ninguém, sem pretensiosismos intelectuais, uma vitória para o realizador Paul Andersen a provar que na “indústria” do cinema americano se produz também arte do mais alto calibre.
Daniel Day Lewis faz um papel como há muito não se vê no cinema. A voz e a pronúncia que usa durante quase todo o filme ficou-me gravado na memória com um ponto de interrogação E três dias depois a luz acendeu-se no meu cérebro. É uma imitação perfeita da voz do falecido realizador/actor John Houston. Não sei o porquê disso. Mas actuação de Day Lewis vale só por si o preço do bilhete. Junte-se a isto uma cinematografia extraordinária e música composta por Jonny Greenwood do grupo Radiohead, e “There will be blood” é uma vitória, um triunfo para aqueles que como eu gostam do cinema.
Façam-me um favor: se este ano forem ao cinema duas vezes, uma delas tem que ser para ver este filme.
Abraços,

Da capital do Império,
Jota Esse Erre

3 comentários:

AZUL DRAGÃO disse...

Jota :

Raramente vou ao cinema...
Mas vou querer ver esse filme !

O meu prejuízo foi maior porque vi televisão pela 1ª vez aos 10 anos de idade.

Questão de idades e de colonialismos !

Um abraço

Ana Cristina Leonardo disse...

Estreia a 14 de Fevereiro em Portugal

Anónimo disse...

João Botelho sobre o cinema português:
- http://www.youtube.com/watch?v=0Cky0P0y3mQ (parte 1)
- http://www.youtube.com/watch?v=DnLAWXag1Qg (parte 2)
- http://www.youtube.com/watch?v=rC1czLvua2A (parte 3)