quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Alain Badiou: Sarkozy elabora uma ontologia do lucro!

“Il élabore, nôtre president, une ontologie du profit: ce qui n´a pas de profitabilité n´a pas de raison d´être”, aponta Alain Badiou , um dos mais polémicos filósofos da actualidade mundial, num panfleto politico e ideológico de alta voltagem, intitulado, “De quoi Sarkosy est-il le nom?”. O manifesto está a causar imenso impacto no interior do espaço politico europeu. A mensagem principal elabora através de uma perfomativa construção filosófico-científica , a tese de que “se nada contribui para furar a realidade, se nada se situa fora dela, se nenhum ponto pode ser sustentado por si próprio, custe o que custar; então não existe senão a realidade e a submissão a esta realidade, a que Lacan chamava ´o serviço das utilidades`. Como se sabe, o serviço das utilidades é o dispositivo dos que possuem a posse dos bens”.

Badiou tenta erguer uma política de emancipação que rompa com a ordem das opiniões estabelecidas, a desigualdade e a protecção armada dessa realidade, a que chama “hipótese comunista”, mas que estilhaça o legado histórico perdedor da ex-USRR e das democracias de Leste. « Ce point est essential: dès le début, l´hypothèse communiste ne coincide nullement avec l´hypothèse «démocratique» qui conduira au parlementarisme contemporain. Elle subsume une autre histoire, d´autres événements. Ce qui, éclairé para l´hypothèse communiste, semble important et créateur est d´une autre nature que ce que sélectionne l´historiographie démocratique bourgeoise. C´est bien pourquoi Marx, donnant ses assises matérialistes à la première grande sequence effective de la politique d´émancipation moderne, d´une part reprend le mot «communisme», d´autre part s´écarte de tout «politicisme» démocratique en soutenant, à l´école de la Commune de Paris, que l´État bourgeois, fût-il aussi démocratique que l´on veut, doit être détruit».

«No fundo, apelido de comunismo, e era esse o sentido que já lhe era dado por Marx, uma sociedade que se postule livre da regra dos interesses. Uma sociedade na qual o que se procura, o que se faz, o que se quer, não seja determinado, de uma ponta à outra, pelos interesses individuais ou de grupo. É isso o comunismo. (…) Isso pode não ser um programa mas, sem esta concepção, penso que a vida política não tem interesse nenhum. E não tem interesse nenhum porque consiste em saber, tão-só, como se irá negociar entre os interesses de uns e dos outros , assinala numa entrevista a Fréderic Taddéi , inserta no colectivo ‘Réseau des Bahuts’».

Atenção, no entanto. Badiou não vive do passdo nem está prisioneiro de fórmulas arcaicas, tipo marxismo-leninismo grupuscular. “O marxismo, o movimento operário, a democracia de massa, o leninismo, o Partido do proletariado, o estado socialista, todas estas invenções notáveis do século XX, não são realmente de mais utilidade. Na ordem da teoria, devem ser certamente conhecidas e meditadas. Mas na ordem da política, tornaram-se impraticáveis. É um primeiro ponto de consciência essencial”, escreve no livro, onde insiste em sublinhar, como vivemos “num periodo intercalar dominado pelo inimigo”, a alternativa pode estar situada numa “nova relação entre o movimento politico real e a ideologia . (…) A hipótese comunista como tal é genérica, ela constitui o ´fundo` de toda a orientação emancipadora e classifica a única coisa que faz com que nos interessemos pela política e pela história”. Para ler e comentar, sem perder tempo, portanto.

Alain Badiou, “De quoi Sarkozy est-il le nom?", Edit. Lignes. Paris.2007

FAR

16 comentários:

Ana Cristina Leonardo disse...

FAR, um bom ano para ti (o teu e-mail não funciona). Agora, vais-me desculpar, quando me falam do Lacan apetece-me logo puxar de uma pistola ou, pelo menos, de um maço de cigarros

Anónimo disse...

A.C.L.; Compre o livro e veja, please.Se é que, em Portugal, o caso não está já a dar que falar...Vejo o Ipslon( papel) mas não a revista literária do Expresso. O texto do Badiou põe tudo a claro, de uma forma radical, poética e subversiva. Não há memória de coisa tão deslumbrante para quem sofre com este sistema despótico e intratável. Salut! FAR

Ana Cristina Leonardo disse...

FAR, o Expresso há muito que deixou de ter uma revista literária!

Anónimo disse...

Ana Cristina L. : Não descortino lá muito bem o seu antagonismo com o Lacan. Acha-o um charlatão ou feiticeiro? De qualquer modo, um fazedor de paraísos artificiais de grande e profundo nível, pelo menos, ao nível escritural. Claro, com amigos nos anos 70 iamos ver as aulas dele na Sorbonne-Panthéon. Era uma missa inolvidável: com os Tel-quelianos ( Sollers, Kristeva, Baudry), os linguistas( Reicanati, o fabuloso Milner) e os discípulos, Safaoun, Leclaire e Dolto. Ele dizia, com um charuto brasileiro torcido no canto da boca, a Amélia Resende, o Serras Gago, o Alfredo F-Alexandre, estavam comigo; Portanto, Lacan, a meio da sala enorme do palácio cheia, olhando para a sua secretária-assistente, Glória, que tinha sido casada com um congolês psicanalista, sublinhava que o " amor é dar o que se não tem, a quem o não pode pedir...". E a malta ria e depois ia para a Maspero " desviar " os livros que ele recomendava...Prefiro o Serge Leclaire e o Green ou o Castel, no entanto, à prosa dadaista de alto coturno do deus-déspota J.Lacan, que se perde em interpretações romanescas e labirinticas sobre a herança freudiana.Salut! FAR

Táxi Pluvioso disse...

Correcção: "badiou" é lá no no norte, em Lisboa diz-se "vadio". Filósofos franceses? essa tem graça, mas nos dias de hoje todos são filósofos, até os tempos são filosóficos.

Anónimo disse...

Mister T.P. :O seu niilismo já era. Badiou é um dos maiores filósofos de todos os tempos. Ainda está vivo e tem imensa aceitação nos EUA.Para combater o seu niilismo da era da pedra lascada, leia este livrinho maravilhoso que faz furor por todas as bandas radicais do Mundo. Ou, então, continue a ler o Ferrer Mora, please! FAR

José Pinto de Sá disse...

Parabéns, FAR! E obrigado por me (nos) dares a conhecer esta obra. Que esse tipo de rfelexão desagrade à carneirada não admira. "Se o inimigo nos ataca, não é uma coisa má; é uma coisa boa." Já agora, um doce a quem identificar o autor desta citação...

Táxi Pluvioso disse...

Se tem aceitação nos Estados Unidos, então é bom - Mao Zedong também dixit.

Radical é a Glock. Os filósofos servem apenas para dar contentamento e prazer à lareira. E não é niilismo da pedra lascada. É optimismo do Nietzsche polido...

Anónimo disse...

Quem sabe, tenta saber mais. Quem não sabe, tenta jogar em águas turvas.Vamos avançar: Vamos discutir o magnífico texto do dr. JJ Pereira?!? Concordo com quase tudo: Que pena ele estar " preso " ao anacrónico PSD!!! Vamos discutir isso e ter cautela com as pulsões primárias e nauseabundas?!? Salut, José Pinto de Sá. FAR

Anónimo disse...

Ana Cristina L. Estou à espera que nos explique a sua aversao a J. Lacan.Tinha-se esquecido desse pormenor, creio?!? Salut! FAR

Ana Cristina Leonardo disse...

O Lacan é absolutamente incompreensível. Quem disser o contrário terá de se explicar. E, como o Freud, não curou ninguém. Na minha modesta opinião, é um charlatão. Isto só é grave porque, às vezes, as pessoas precisam mesmo de ajuda. Psicológica, quero eu dizer.

Ana Cristina Leonardo disse...

Quando digo incompreensível, quero dizer que os seus conceitos têm cientificamente validade zero.

Anónimo disse...

A.C. L. Querer assassinar Lacan num parágrafo parece-me muito arriscado, pelo menos. Ele foi médico e conviveu de perto com grandes psicólogos e psiquiatras, como Dolto, Pontalis e Laplanche. A sua obra movimenta dezenas de milhares de páginas. Só no Google existem mais de 556 mil postes sobre ele. Foi o papa castrador, mandarinal e despótico da Psicanálise europeia, que ele no início readaptou contra a reaccionária norte-americana. Agora esta forma de execução sumária para o abater de uma penada, parece-me um exercício que destoa na qualidade das suas intervenções, AC-L. Salut! FAR

Anónimo disse...

Quem tem medo de discutir o texto do Pacheco Pereira sobre os Blogues? FAR

Ana Cristina Leonardo disse...

FAR, só enunciei a minha posição para responder à sua pergunta: feiticeiro ou charlatão? Não a justifiquei. Um dia destes ainda ponho um post-it sobre o referido... Mas só para avançar um pouco mais: as perturbações mentais causam demasiado sofrimento para serem utilizadas como ideologia (reaccionária, revolucionária) ou como rampa de lançamento de egos demasiado insuflados.
Sobre a minha opinião sobre o pai da psicanálise, há dois post desenvolvidos na Pastelaria. Basta procurar Freud no Glossário. Algo me diz que não estaremos de acordo.

Anónimo disse...

A.C.L.: Como escreveu o Heidegger, " quase sempre, o pensamento essencial e decisivo de uma época passa incólume entre as alas dos seus adeptos e adversários ". Com efeito, o " sistema " Lacan dominou a vida cultural, política e filosófica francesa de 1969( ano da publicação dos "Escritos", um livro que ajudou a fazer Mai 68...)até à sua morte, em 1983.A sua influência e poder eram totais,totalizantes e totalitários: até o Guattari, que " pensava " ser o seu delfim, e o Deleuze, em 72, o trataram com muito respeitinho no Anti-Édipo. Portanto, urge pensar o enquadramento ideo-conceptual da época e tentar ser justo com, o que Cervantes dizia( J.Sena, usava muito esta expressão), os " monstros " da natureza humana. Salut!FAR