sábado, 2 de dezembro de 2006

Ética

A época é complicada para escrever porque a sobrecarga de trabalho (a maioria, bastante duvidoso para a minha formação enquanto futuro médico) é imensa.
Ainda assim, é sempre possível encontrar espaço para – no meio de todo aquele surrealismo – nos divertirmos. Mais do que isso, não perdemos uma oportunidade para discutirmos. E claro, se possível, política. Se os professores falam de “custos” ou coisa assim (na nossa gíria “as janelas de politização”) o grupo ataca sem perdão. “Desculpe senhor professor, queria colocar-lhe umas questões...”. E a brincadeira começa.
Na cadeira de Ética Médica (onde o Regente é o Prof. Dr. Miguel Oliveira Silva, senhor de uma inteligência fantástica e bom dinamizador das aulas), nem foi preciso tanto. Grupos de três alunos apresentam o trabalho que quiserem. Nem foi preciso conversarmos muito e já sabíamos o que íamos fazer.
O que decidimos perguntar foi muito simplesmente isto: “é lícito, num plano ético, um médico contribuir para um modelo socio – económico que provoque um acesso diferencial aos cuidados de saúde, nomeadamente que doentes com recursos económicos distintos acedam a cuidados de saúde qualitativamente diferentes?”. Sem falácias nem mentiras. A pergunta é simples e directa. Fizemos inclusive um pequeno referendo entre alguns alunos e alguns médicos (já vos digo os resultados no fim).
Como não queríamos ser hipócritas, mostrámos logo as cartas: nós achamos que não. E provámo-lo logicamente. Primeiro mostrámos que a Carta dos Direitos Humanos, o Código Deontólógico, a Constituição Portuguesa e – oh, sublime ironia – o juramento de Hipócrates dão directivas no sentido da saúde ser para todos.
Depois, mostrámos como países como Cuba, Portugal, França e Noruega, com PIBs tremendamente distintos e situações diversas, tinham índices de saúde globais tão bons como os EUA, único país do top10 do Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU com sistema de saúde maioritariamente privado. Portanto aquilo que os senhores em fato de gala dizem ao país de tanga de “a saúde privada dar melhor saúde” não se verifica.
E mais: o Relatório de Disparidades da Saúde do próprio governo americano é um must see para todos os liberais e sociais democratas que adoram a privatização da saúde:
Em 11 das 13 medidas principais de qualidade de serviços usadas no relatório, os indivíduos pobres têm, de forma estatisticamente significativa (>10%), pior qualidade de cuidados de saúde do que os indivíduos ricos.
Para todas as 8 medidas principais de acesso aos cuidados de saúde usadas no relatório, os indivíduos pobres têm, de forma estatisticamente significativa (>10%) pior acesso a cuidados de saúde do que os indivíduos ricos.
Visto isto: que um país com um PIB extraordinário consegue ter piores índices de saúde do que um não – democrático, há muito que pensar acerca dos sistemas de saúde maioritariamente privados.
E a questão fulcral do nosso trabalho é se médicos que juram que a sua primeira preocupação é o doente, ao favorecerem modelos socio – económicos que conduzem a estatísticas como as dos Estados Unidos, são bons médicos. Afinal,a Ética Médica só começa no momento em que os doentes entram pela porta da sala de consulta ou quando votamos num partido que faz com que pessoas não tenham qualquer acesso à saúde, estamos a violá-la?
53 em 56 alunos disseram não à nossa pergunta. 12 médicos em 64 disseram que sim. A pergunta para quem disse que sim é muito simples:
Qual é a Ética da Ética Médica?

Manuel Neves

2 comentários:

Anónimo disse...

Joe Manuel, foi com imenso prazer que televi a claque do GLORIOSO a cantar "..a todos um bom natal!", e presumo que andaste por lá a fruir o bailarico. Quanto ao texto, esses 12 médicos perturbam qualquer ente ou doente. Abraço.

Manuel Neves disse...

Fui dos que cantei isso, sim senhor =)
Quanto aos 12 médicos... Enfim. Esses não sei se merecem um bom natal.