Henrique Raposo escreve no blogue da Revista Atlântico um texto onde justifica a sua abstenção no referendo de 11 de Fevereiro. Vale a pena debruçarmo-nos sobre os seus argumentos, uma vez que espelham uma opinião que se começa o ouvir por aí: a de que, sendo esta uma questão moral, não deveria ser a política, ou a lei, a resolvê-la.
Essa é, justamente, a contradição original do argumento. Se o aborto é uma questão moral, o que é evidente para mim, e parece ser também para HR, então de facto não deve ser resolvida pela lei. Acontece que, como é bom de ver, já existe uma lei, proibicionista. Se HR defende de facto que esta é uma questão da consciência de cada um, então o que deve fazer é votar Sim, ou seja, votar contra uma lei que nega o primado da consciência. Mas se tem assim tantas dúvidas, que vote branco ou nulo em vez de se abster. É que este referendo tem três resultados possíveis: vitória do sim vinculativa, vitória do não vinculativa ou resultado não vinculativo; e só o primeiro irá alterar alguma coisa. Ao abster-se, HR cauciona um dos resultados possíveis que não mudam a lei, essa que, justamente, prevê aquilo com que desacorda. Contradição? Lá saberá.
Parece-me que esta visão contraditória de HR tem uma explicação psicológica: uma repugnância por tudo o que seja "Estado" (é só ler o ínicio do artigo). Pena que não consiga perceber que, neste caso, está a fazer o jogo contrário ao seu, o daqueles que entendem que a lei deve interferir em questões da moral íntima de cada um.
Há uns tempos, num autocarro, um velhote defendia o seu voto Não com o seguinte argumento: "O que é que o governo tem a ver com o aborto? Isso é comigo e com a minha mulher". Não pude evitar lembrar-me deste episódio singelo ao ler o texto de HR.
2 comentários:
pela liberdade de escolha em segurança
Por favor...então o estado não deve ter nada a haver com o aborto?
Ou o estado só serve para pagá-lo?
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