O Próximo e o Médio Oriente mostram uma poli-identidade cultural e política divergente,inassimilável entre-si e muita vezes antagónica...
A assimétrica, múltipla e diferenciada civilização árabe, que viveu sob o jugo otomano mais de cinco séculos, incarna ainda hoje o cisma provocado, depois da morte de Maomé e mais tarde do assassinato do seu genro e primo Ali, pela exposição de duas formas de práticas morais e sociais autónomas, a sunita e a xiita, sendo esta última a prevalecente no Irão, Iraque e grandes zonas da Síria e do Líbano, e caracterizada por uma espécie de imanato escatológico que só se reconhece na ressurreição do profeta, fantasma que a revolução de 1979 de Khomeiny acicatou de forma perversa a nível mundial. Na intersecção das lutas políticas e religiosas entre as duas sensibilidades muçulmanas tipo, surgiu a figura do jihad, a apelativa guerra santa que Jean-Pierre Filiu, historiador e diplomata, dissecou em textos de grande valor estratégico. Clique aqui .
Há dois tipos de jihad - o pequeno e o grande - caracterização induzida da palavra de Maomé. " O primeiro é espiritual e místico, sendo um combate contra as pulsões negativas que coabitam em nós. O segundo é militar. Este tem um valor menor do ponto de vista da religião "., avança Filiu. Só que, observa, depois da época das cruzadas, o xiismo passou a ser combatido pelos integristas islâmicos que focalizaram toda a força das armas também contra os mongóis que tinham arrasado o Irão, o Iraque e o califado de Bagdad, na segunda metade do séc. XIII. " O jihad( combate) representa a expressão de uma comunidade unida face a uma ameaça ressentida colectivamente como essencial. Mas esta ameaça, que Al-Qaeda designa como essencial para o conjunto dos muçulmanos, sendo longínqua na maioria dos casos, o inimigo visado acaba por ser o outro... muçulmano ", frisa.
" Al Qaeda significa base em árabe. Ela contradiz fundamentalmente o seu próprio programa de intenções: não tem base, nem sociológica, nem étnica e nem territorial. Não se pode falar propriamente de projecto: é uma mensagem mínima repetida até à hipnose ", comenta para ainda postular: " É evidente que Al-Qaeda distinguiu-se mais como base de dados que como base territorial, logística e concreta ". E, na longa e terrível destruição inter-comunitária que sacode o Iraque, escalada mortífera agravada depois do Verão, o historiador descortina uma marca do jihad radical que Moqtada al-Sadr, de inspiração contraditória no xiismo mais sectário, insiste em espalhar ao som de atentados e represálias sem fim.
FAR
Sem comentários:
Enviar um comentário