segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Cinco coisas que eu adoro num jogo de futebol

Nick Hornby (Alta Fidelidade, About a Boy) é o autor da pérola mais espectacular para adeptos de futebol: Fever Pitch (Febre no Estádio - Diário de um Fanático). É divino. Enternecedor, magicamente futebolístico e com um sentido de humor simples e britânico.
Num dos últimos capítulos, Hornby sintetiza as razões que o levam a gostar de futebol. Agarrando na ideia (se nos processarem por plágio, eu apago isto num instante, Armando), vou enumerar o que mais gozo me dá na tribo da bola.

1. Golos - é óbvio. Toda a gente gosta de golos. Quantos mais, melhor. Mas eu gosto de golos que me façam saltar e gritar. É diferente marcar o terceiro golo ao Setúbal e marcar nos últimos minutos ou marcar num derby (há ainda o gozo particular de um golo de uma reviravolta). Se tivesse que levar só alguns golos para uma ilha deserta (a expressão é de Hornby), levaria o golo do Geovanni em Alvalade, o 1º golo do Benfica em Milão contra o Inter, o golo do Simão contra o Ceportém na Taça (o 3-3), todos os golos do 3-6 e - last but not least- o golo da Académica no Dragão que nos deu o título (abracei tanto o velhinho que, em pleno Bessa, nos comunicou o golo vindo do relato, que nem sei como é que o homem sobreviveu).

2. O público em grande (especialmente quando estamos a perder) - é tribal, arrepiante e sobre-humano. Estar no meio da multidão e não ouvir a nossa voz, sentir que os jogadores jogam ao ritmo dos cânticos, vê-los a olhar para nós como se as estrelas estivessem na bancada... É indescritível. Escolho o fabuloso apoio no derby de alvalade do golo do Geovanni, o jogo contra o Manchester na Luz e aquela maré vermelha a cantar o Ninguém Pára o Benfica no dia 22 de Maio de 2005.

3. Penalty falhado pela equipa adversária - é uma reviravolta deliciosa. Estão os outros aos saltos a festejar o facto de ser penalty e nós calados já a fazer contas à vida. Quando nos aperecebemos que a rede não andou é como nascer outra vez. E quando é em desempates - o que significa que já há duas horas de tensão no coração de toda gente - é como ver que tivemos boa nota no exame, que a tal rapariga também gosta de nós, enfim. É muito bom. Escolho o penalty que o Miguel Garcia falhou na Taça contra o Benfica e o do Adriano do Nacional no ano em que fomos campeões - o meu pai relatou-mo por telemóvel "foda-se, isto já podia estar resolvido, vamos levar agora o empate... vai marcar agora... FALHOU! FALHOU! À TRAVE!" e eu voltei a respirar.

4. Expulsão de um jogador da equipa adversária - especialmente quando é um dos rivais. O longo caminho de saída merece todos os acenos e sorrisos de gozo. E há aquele momento de expectativa enquanto o árbitro não levanta o cartão. O jogador a esbracejar, o público a pedir o cartão e depois o vermelho no ar, com o jogador a fazer que não com a cabeça e toda a gente a rir. Amei a do Hugo Viana no jogo da Taça e a do Beto no derby do Luisão. A Luz quis enforcá-los ali mesmo. Mais peculiar foi a do Buba na Luz, este ano, sendo ovacionado de pé pelos três golos que tinha marcado aos rivais verdes.

5. Ambiente hostil nas bancadas - não há nada como festejar na cara deles. Em Portugal só acontece em Alvalade, Dragão e...Guimarães. Há poucas coisas tão futebolísticas como entrar no sector visitante de um estádio e sentir os assobios e ouvir a outra versão do Glorioso SLB. Vemos os dedos no ar, os esgares de anti - Benfiquismo, os gafanhotos a voarem do outro sector. E aí, apercebemo-nos de que o clube incomoda muita gente e há cócegas de gozo na alma. Há sorrisos de desprezo, gestos com os dedos devolvidos e a certeza que não há nada mais importante do que o que se vai passar dentro das quatro linhas.

9 comentários:

André Carapinha disse...

Eu por acaso levava para a ilha deserta o golo do Fyssas contra o Porto na final da Taça de 2004 e o do Luisão contra o Sporting no jogo do título em 2005. Isto embora tenha vivido os anos 80, as finais da Taça dos Campeões, etc., mas esses golos quebraram malapatas que num dado momento pareciam eternas.

Manuel Neves disse...

Devia ter explicado porque é que não levava o do Luisão para uma ilha deserta. Acontece que eu ia morrendo nesse golo. Porque o estádio veio abaixo, mas eu, sempre pessimista e ainda com a faca do golo anulado ao Petit espetada, andei aos saltos em cima dos festejos, baixando braços, até encontra a careca do Paraty a apontar para o meio campo. Nem gritei muito. Senti-me aliviado, porque já sentia a desilusão.
Mas que foi bom. Oh, se foi.

Anónimo disse...

Estou de férias em Portugal,o vosso blog foi-me indicado por um amigo, e aproveito para mandar um abraço ao Armando Rocheteau que foi meu colega de equipa na Nauticus.

Armando Rocheteau disse...

Caro Carlos:
Grande abraço. Manda-me o teu mail para restabelecermos o contacto. Não me lembro bem da Nauticus, mas com a tua ajuda lá chegarei.
Continuaçao de Boas Festas!

Armando Rocheteau disse...

Já agora um acrescento sobre o Benfica. Meu pai era benfiquista e o meu filho, que não o conheceu, também. Feita a homenagem há que dizer:
O Porto adaptou-se à democracia, o meu Sporting também. O Benfica continua a ser um resquício do salazarismo.

Armando Rocheteau disse...

Devia ter acrescentado um é quando falei do meu filho.
Abraços.

Táxi Pluvioso disse...

Se o Benfica é a cara de Salazar, então que o Sporting va para a António Maria Cardoso, tratar a tendência subversiva de não ir a lado algum. Excepto aos concursos de moda e fluência linguística do treinador.
Agora percebi aquela estatística que apresentava os lagartos como os mais optimistas.
Continuem o optimismo do cachecol!

Anónimo disse...

Alto e pára o baile!
O Sr. A. Rocheteau (deve ser jogador de futebol...) revela uma profunda ignorância, albardada no anti-Benfiquismo primário que pulula por quase 4 milhões de lusos ou porventura, chegou de uma longínqua ilha tropical gaulesa!
- Desconhece que a democracia sempre existiu no Glorioso para horror (nem que seja pela cor das camisolas) do regime salazarista, verde-cinzento e cujas chefias militares abrigavam-se na aristocracia de viscondes na azinhaga do Lumiar ou nas bandas dos Clérigos.
- Ter-lhe-á, Sr. A. Rocheteau, escapado o impressionante espectáculo de enormes filas ao longo de um dia de eleições, de tal grandeza que ultrapassa de viés os actos eleitorais em muitos países por esse mundo fora!?!
- Sr. A. Rocheteau (vou abreviar para SAR) compreendo bem seu Pai e seu Filho nas suas escolhas pessoais, pois bons chefes-de-família foram e serão. Quanto ao SAR.., não sei!
- E por último SAR, convirá recordar-lhe que o GLORIOSO precursoramente introduziu o voto electrónico no último sufrágio, solução que deveria ser utilizada em todos os referendos e eleições em Portugal, para obviar os custos inerentes à fanfarra geral.
- Caro SAR, aproveito a sua excelsa pessoa para endereçar os meus parabéns pela crónica esplêndida do Sr. M. Neves, assim como realçar os ditames expostos pelos Srs. A. Carapinha e Táxi Pluvioso (será a personagem do táxi do Sr. Zé Manel?).
Bem hajam.

Armando Rocheteau disse...

Sr JorgeRBarbas:
Não sou jogador de futebol. Não gosto nem de futebol, nem de Fátima, nem de touradas.
Sou sportinguista e no país do Benfica conheci chefes de família que, cumprindo o preceito salazarista, bebiam vinho e davam porrada na mulher e nos filhos, quando o Benfica perdia.
Sei que o André, o Fernando, o Manuel e o Maturino não se reivindicam dessa linhagem. Também não gosto de vermelho, nem daquilo para que a cor remete. E, não gostei do seu tom xenófobo.
Olhe, ponha as barbas de molho e vá a Fátima. Talvez até consiga que, em 2007, um qualquer touro o excite.
Volte sempre e discuta isso com o pessoal da casa que é do Benfica.
Bom Ano! E vivó Sporting