sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Iraque: guerra civil deslizante desencadeia opções inadiáveis

O " Le Monde " e o " NY Times " envolvem-se em conjunto na guerra etimológica mais extravagante e sinistra do início do séc. XXI

Toda a gente sabe que a política é a continuação da guerra por outros meios. Especialmente, quando se desenrolam lutas e sublevações onde a religião e as idiossincrasias se metem de permeio. Ninguém escapa a um tal flagelo. A não ser por uma ocupação manu militari camuflada ou negociada como no Líbano nos anos 80. E que veio a influenciar o impasse no conflito israelo-palestiniano depois das soluções do plano de Oslo não se terem concretizado.

O que está a acontecer no Iraque ultrapassa em muito a tragédia libanesa. E foram os EUA que espevitaram o amplexo siderante de um multi-afrontamento fratricida e étnico religioso de incalculáveis repercussões no interior dos países e teocracias do Ouro Negro, o ersatz das democracias ocidentais. Patrice Claude, o grande repórter do Le Monde, e Tom Friedman, o iconoclasta enviado especial permanente do NY. Times, publicaram no mesmo dia crónicas e relatos sobre o pesadelo iraquiano: como se caracteriza e para onde vai...

Patrice Claude, num chat veiculado pelo Le Monde, dispara logo de início e caracteriza a guerra do Iraque, nesta fase aterradora, de " guerra civil que todos os dias se agrava". Nesta dramática e dilacerante querela etimológica, Friedman postula que " o Iraque está tão desfeito que nem parece ser capaz de suportar mesmo uma guerra civil". " Há tanta gente a matar pelas mais variadas razões -religião, crime e politicas -que todas as atitudes para enquadrar o problema se tornam irrisórias ", adianta.

Patrice Claude, que cobre para o Le Monde a tragédia iraquiana, confessa ainda acreditar que o irremediável - cisão em três partes do país - pode vir a não ser verdade." É preciso saber que no Iraque, um bom quarto dos árabes, sunitas e xiitas, estão misturados e formam casais mistos. E também é preciso saber que a maioria das grandes tribos árabes do Iraque tem uma parte xiita e outra sunita. A experiência libanesa ou a de outros países onde se travaram guerras civis mostra que nada é jamais definitivo. E penso que dentro de alguns anos, pode-se esperar para que os xiitas e os sunitas iraquianos se reconciliem ", argumenta.

Friedman escreve sem tremer: " O Iraque está agora dividido em tantas e minúsculas partes entre os caciques de guerra, terroristas estrangeiros, gangs, milícias, partidos, a polícia e o exército, que ninguém parece capaz de libertar ninguém. O Iraque entrou numa fase para lá da guerra civil - caminha da destruição para a desagregação: Não representa mais a sósia árabe da Jugoslávia. É a selva de Hobbes ".

Se Patrice Claude considera que " quem manda, hoje, no Iraque são os partidos religiosos - xiitas e sunitas -" corta cerce os rumores de que se está a preparar a instauração de um Grande Emirato sunita no Iraque, beneficiando dos apoios de estados inquietos com a guerra civil, tais como e em primeiro lugar, a Arábia Saudita, o Egipto e a Jordânia, assim como algumas petromonarquias do Golfo. Já, por seu turno, Friedman joga na apresentação das suas teses: " A América precisa de fazer reais opções no Iraque, que são: ficar dez meses ou 10 anos. Ou evacuamos o contingente de uma forma faseada em dez meses, e tentamos estabilizar a situação de qualquer maneira, ou aceitamos refazer tudo de alto a baixo, não aceitando que o Iraque se desfaça, e teremos que ficar por dez anos. Isso requereria invadir o Iraque, com pelo menos mais 150 mil homens em armas, o desmantelamento das milícias sunitas e xiitas, o controlo das fronteiras e lançar a reconstrução das instituições e da cultura política ".

FAR

Leia aqui a opinião de Patrice Claude, Le Monde.
E vá por aqui aos artigos de Thomas L. Friedman, The New York Times

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