terça-feira, 2 de março de 2010

“Se for caso…”


Foto Sol de Carvalho

Prometi que mandava um texto para a segunda série do 2+2, e aqui vai. Não era para ser isto, mas o que tem que ser pode muito. Esta manhã, mal acordei, recebi um sms de Maputo. Era o José Manuel: “Morreu Leopoldo Fernandes, madrugada de hoje”. Parece que agora não faço outra coisa senão escrever obituários. De há uns tempos para cá, desataram todos a morrer. Lembro-me do meu pai, aos setenta e tal anos, desterrado num apartamento em Vila Nova de Gaia, com vista para o pátio: “O mais triste na velhice é que os amigos estão todos mortos”. Cito de memória, e a memória já me vai traindo. Já não me lembro como conheci o Leopoldo. Sei que foi em 1985, porque ele figura no programa de uma peça que encenei com o Tchova Xita Duma pelos dez anos da Independência. Fui desencantar o programa e lá está ele na foto de grupo, franzino e sorridente, ao lado da Joaninha Zambeze, mais o Bartolomeu, a Ana Magaia, eu sei lá… Já na altura era um sobrevivente. Em 1977, com 24 anos, tinha ido parar ao campo de reeducação de Sakuzo, acusado de ser surumático. Mas não o reeducaram. Ao fim de três meses revistaram-lhe a enxerga e encontraram-lhe passa. Aplicaram-lhe cinquenta chambocadas, mas nem assim o reeducaram. Acabou por fugir e andou dias a corta-mato, às escondidas dos leopardos. E dos frelos, que eram mais perigosos. Felizmente há gajos assim, não há nada que os reeduque. Continuou a gostar de suruma, e de cerveja, e de mulheres. Continuou a parar pela esplanada do Goa, com a malta da pesada. Continuou amigo do Che, da Dorinha e da Gina China, que morreu de Sida na berma da Julius Nyerere. E continuou a cantar. Cantava bem, até ganhou um concurso no Rádio Clube, com o nome artístico de Tony Fernandes. Dei-lhe um fado para interpretar na peça, com letra escrita pelo Patraquim. Era um actor a sério. Tinha estudado teatro em Lisboa, com o Gutkin, mas a escola não lhe domou a exuberância. Manteve-se um actor à africana, como eu gosto, tão liberto do texto como um jazzman da partitura. Nunca o convenci a empinar um papel; nunca o vi gaguejar num improviso. Encontrei-me com ele pela última vez faz agora um ano, na sede da editora Ndjira, em Maputo. Eu tinha ido entregar o manuscrito de um livro, ele trabalhava lá como revisor. Tinha a barba grisalha, filhos ainda pequenos. Disse-me que gostava de voltar ao palco, e eu deixei no ar uma vaga promessa. Despedimo-nos, combinando um encontro para dias depois. Para matar saudades, para beber uns copos, “se for caso”, como ele dizia. Mas não. Não voltaremos a trabalhar juntos. Não voltarei a exasperar-me por ele me chegar grosso a um ensaio. Na semana passada queixou-se que não se sentia bem. Ontem pediu para o levarem ao hospital. Em Maputo era Verão, máxima 33, mínima 18, mas não foi sentar-se no muro de casa a apanhar fresco, diante do charco perene na esquina da Sekou Touré, onde antes era o lar dos Velhos Colonos e agora é outra coisa qualquer. Agora é sempre outra coisa qualquer. Ontem pediu para o levarem ao hospital, e foi lá que se apagou, de madrugada, entre a imundície e o cheiro a mijo. Sozinho, como morremos todos.

José Pinto de Sá

5 comentários:

Anónimo disse...

So o JPS para descrever tão bem quem foi o indomável Leopoldo. Gostei muito do texto.

Terezinha MC

José Manuel Cardoso disse...

Há três dias, foi-se o Johnny Morgado, ontem foi-se o Leo, hoje foi-se o Jorginho Ramos. Três amigos, três homens bons, numa assentada. E por aqui me fico...
José Manuel

disse...

Um Homem nunca morre quando não quer. Ele nunca quis.

Ivone Ralha disse...

Grande texto Zé. Não o conheci, mas estou a vê-lo.

Anónimo disse...

Também acho o texto muito bom, Zé! Já to tinha dito e volto á carga! Gostei. Amélia