quarta-feira, 24 de março de 2010

O TREMOÇO NO GOTO AUSTRAL

Agora que vou para quase velho
Vejo que não prestei a devida atenção
Ao modo como o tremoço
Me cai no goto
Não esse do engasgar
Mas o outro
O goto dos afectos
Primeiro o respeito da pele
Da casca entre os dedos
Num movimento simples de descascar
Levado no tempo de o fazer
Assim como observar a imobilidade da cadeira
Que ali está e estará até que perca a utilidade

Mas mais que o tremoço e a casca
E o miolo
Já que o essencial também não deve esquecer-se
Quando o acessório se torna visível
É poder seguir as nuvens
De um ponto absolutamente único
Na janela do quarto mais oriental da casa
- Oriental nas contas feitas de geografia instintiva –
Pois aí
Elas passam de um modo que é mais cinético do que todos
Passam mais esguias
Pondo-se a jeito para o meu cinema
E para a minha expectativa de águas ainda não passadas

Toda esta prática
É de amores com a terra que nos pariu
Ou assim me parece
Como me parece sê-lo
O modo como uma árvore se inclina quando um velho passa
Na saudação primordial
- diálogo mais que ecuménico -
Creio que o vento que a sopra o adivinha
E leva as folhas na prosa que a brisa escreve

E mais do que estas práticas
Gosto de linhas do rosto
E de as escutar no silêncio que toca
No Outono amarelecido da foto

O sorriso ter permanecido
Diálogo fundo
O que persiste
Certo é que as balizas lá estão
Na Sá de Miranda
Nos mesmos portões metálicos
Simétricas e ali postas para o nosso futebol
Cósmico de 10 metros entre as linhas extremas
E do mesmo modo
A parte não cimentada do passeio lá está
À espera da cova longa do paulito

O meu tempo intocado ali
Porque o tempo que se lhe seguiu
Nada tinha com este que cresceu comigo
E nossos
Restam dos maços de Caravela
Grandes fumaradas
Pelas barreiras abaixo acima
Fumados colectivamente
Assim como caminhadas
Intermináveis até aos mares da Xefina
Nunca lá chegados
Caminhando o mar salgado entre tubarões imaginados
Sob o mar encrespado de pequena vaga e areias revoltas

Do que hoje me lembro
É que por muito que se tenham somado promessas de novos mundos
Nada vivi mais absolutamente igualitário
Que o mundo daquela rua
De goeses changanes híbridos e lusos ibéricos

Outros mundos havia
Por certo
Como certo era existirem ainda mais
Do que esses outros e piores e melhores
E certo é também
Como diz o outro
Tudo ser relativo

f. arom

2 comentários:

Ivone Ralha disse...

Muito bonito! Gostei.

Teresa disse...

Lágrimas contidas, que dificilmente rolam, acontecem quando recordo lugares habitados, tempos vividos e afectos partilhados na minha bonita infância e desinquieta juventude. Não importa o continente, a nostalgia e a saudade do passado de cada um de nós, já tão longínquo, aproximam-nos.