quinta-feira, 11 de março de 2010

anaCrónicas 6

Tem razão o Fernando Rebelo em protestar contra tanta água. Eu próprio, que sou peixe, me estou a passar. Explico-me: peixe de signo. O que apesar de tudo, não por ser filho de Março mas por no-la atirarem à cara os que, é o seu direito de expressão, querem encontrar nessas coisas um caminho de compreensão do que não percebem mas sentem muito. Na realidade quantas vezes nos perguntam o tal do signo? Mas como fui sendo sempre peixe na boca dos outros – salvo seja – lá fui incorporando umas guelras inconscientes, uma barbatana dorsal sem grande esplendor e mesmo aquela característica dos peixes que é mais óbvia e menos se vê e que é aquele olho que já vem morto, na nossa percepção mais comum, no prato ou perto dele. Um olho míope extraordinário, capaz de ver para dentro como nenhum outro. Os peixes são como o Jaime Gama, pelo menos os das águas profundas, conspiram muito enquanto podem. Antes que a esclerose avance, irremediável, sem regresso.
Pois é Fernando, esta coisa da água, passados os recordes de Alqueva que festejámos com a pátria apesar de, como foram dizendo técnicos e agricultores, ser água sem destino útil na sua escala – as obras são feitas para serem grandes mas antes não se cuidou do recheio que as preencha – é de facto uma chatice mais que cinzenta, é cinzenta no que chove dentro e parece prolongar-se no tempo tornando-o indiferenciado, insuportavelmente o mesmo. E nós somos viciados de sol e Primavera, dinâmicos na letargia de Agosto. Portugal, o sol, as praias, o peixe, o Algarve, a vida feita no exterior, a vida sem interior que não seja o da objectivação nessas condições naturais (estarão em extinção?) que os suecos invejam – também nos davam jeito aquelas capacidades que eles desenvolvem e que só a vida nos interiores propicia. Já pensaram numa sardinhada interior? Eles não pensam noutra coisa mas ainda não inventaram o exaustor específico.
A solução é levar o signo a sério e como o insecto do Kafka se irmanou da insignificância, irmanarmo-nos da água, metamorfose mais simpática. Uma poupança em impermeáveis e guarda-chuvas, que nunca resistem a um vento maior e muito menos a esta moda do granizo. É que a chuva também está diferente e vem de paragens que não eram as anteriores. E tudo por causa do anticiclone dos Açores que resolveu deslocar-se do seu sítio natural. Pode ser que Portugal também saia do sítio e desça mais um bocado no mapa cósmico. Não seria pior.
Olha Fernando, vou dar um pulo a Marrocos. Lá não chove. Não levo a barbatana, claro.

FMR

1 comentário:

FernandoRebelo disse...

A destempo, talvez... Não o comentário nem a ida mais para Sul.
O destempero vem de uma nação que nada regenera: suja,por mais que nela chova.