sexta-feira, 19 de março de 2010

anaCrónicas 10

Dizia o penúltimo Ministro da Cultura, o jurista Pinto Ribeiro, que Pessoa valia em dólares, e em bens transaccionáveis, mais que aquilo que as acções da PT no Brasil iam lucrando. E dizia isto a propósito de algo muito na moda na ficção de uma política dedicada à internacionalização da cultura, algo inexistente, como é inexistente uma visão política da utilidade social da literatura ou mesmo uma política do livro digna do nome – não que não existam pessoas dedicadas ao livro e à leitura.
Pessoa dizia abrindo novos mundos ao mundo e referindo-se o Ministro, creio, ao todo, à obra, mas provavelmente mais que à obra, à fama, isto é, ao resultado da conversão do mito em negócio possível, isto é, a pessoa, mais a obra, mais as frases célebres, mais o esoterismo e os heterónimos, mais o desassocego, corpus e personagem indefiníveis mas certamente mito transformável, na versão simplificada e à mão de abrir a boca e dizer, num qualquer marketing de campanha necessária afirmado numa paisagem qualquer, sendo que ele, o Ministro, seria o inteligente que ia pôr isso tudo a mexer, pioneiro da exportação de Pessoa numa escala intercontinental e a caminho de global, já que no Brasil há um gosto de Pessoa reconhecível e Pessoa seria um garante do nível subido da transacção e da internacionalização – diria Pessoa e ao pronunciar da palavra mágica, diante dos olhos surgiria um abre-te sésamo de possibilidades tendo como consequência a subida das acções portugalo-linguísticas na Bolsa de Nova Iorque.
Estávamos a entrar no Brasil das grandes empresas e no mundo dos grandes negócios – muitos anos depois do Caminha ter visto as partes vergonhosas das Índias de um modo tão natural que deu início a uma literatura erótico na carta crónica escrita – financeiros e portanto vá lá um bocadinho de Pessoa para dar substância espiritual, qual folha de rosto das relações que se esboroa com as primeiras brisas de desentendimento, ao terreno árido do investimento inteligente dos nossos capitalistas do sector público e privado no país do maior número de falantes da nossa língua – ou será a língua deles? Ou mesmo a mesma e outras?
Acentuando as Lágrimas de Portugal mais de que Chuva Oblíqua, O Marinheiro mais que A Tabacaria, ou numa outra vertente, mais eficaz, vendendo melhor as fotos do atravessamento distraído da Rua dos Douradores, ou da Rua Augusta, ou da Prata, teremos sempre um Pessoa qualquer mais manipulável e consumível. Poderemos mesmo dar a conhecer apenas as cartas a Ofélia. O outro não é comercializável porque não é possível de sujeitar seja a que marketing for. É irredutível a qualquer classificação e não pode ser dado a conhecer a não ser na impossibilidade de uma definição. Só o fluir da vida e da obra se pode suster nas suas contradições e nunca como qualquer coisa que se reduza seja a que complexo signo for.
Veio isto a propósito de um Ministro que ia abrir os caminhos da modernidade na cultura ao lado dos caminhos da modernidade que o Primeiro já abrira na tecnologia. Eu também quero um moinho de vento a soprar-me energia renovável na vontade de progresso. Finalmente o Quixote deixou de ter visões, elas são reais. O que certamente se segue, como marketing ministerial, será a exportação de estátuas do Pessoa versão Chiado, curtidas em plexiglás, um Pessoa completamente transparente.


FMR

1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Troco os meus livros de Pessoa por acções da PT...