segunda-feira, 29 de março de 2010

Da Capital do Império

A situação em África deverá piorar antes de … piorar. Essa é a opinião do JOE. Não um Joe qualquer mas sim o Joint Operating Environment (JOE), um estudo efectuado pelo Comando Conjunto das Forças Armadas americanas sobre o que nos aguarda a todos no futuro.
Claro que todos nós sabemos que - como disse alguém - é difícil fazer previsões principalmente sobre o futuro e que muitas vezes as previsões só servem para tornar a leitura dos signos em algo de respeitável. Mas de qualquer modo previsões – principalmente quando feitas pelo Comando Conjunto das forças do império – não devem ser totalmente ignoradas e este estudo abrange um pouco de tudo e de todos, desde a Europa á China e Índia, aos movimentos extremistas, ao ciberespaço e mais. Mais senso comum (que na verdade deveria ser chamado de senso raro) do que qualquer revelação extraordinária.
Para aqueles que mantêm ligações com África o estudo é no entanto particularmente sombrio porque afirma que mesmo em países onde se está a registar algum avanço (vem á mente claro está Moçambique) poderá haver recuos
Há que dizer que o estudo denota muito pouco espaço a África, só por si indicativo que para o comando das forças armadas americanas África vai continuar a ser nas próximas décadas algo de marginal.
“ A África subsaariana representa um conjunto único de desafios que incluem factores económicos, sociais e demográficos, muitas vezes exacerbados pela má governação, interferência de potências estrangeiras e crises de saúde tais como a SIDA,” diz o documento.
“Mesmo bolsas de crescimento económico estão sob pressão e poderão recuar devido a múltiplos problemas que constituem obstáculos à capacidade do governo responder a esses problemas,” acrescenta para afirmar ainda que “poderá haver algum progresso na região mas é quase uma certeza que muitas dessas nações continuarão na lista das nações mais pobres do mundo”.
O documento nota que os recursos naturais de África são uma faca de dois gumes. Esses recursos “atraem a atenção de estados poderosos” e muitos estados africanos têm dificuldades em resistir á pressão e interferência desses estados e de forças “não estatais”, situação que o estudo diz poderá afectar os estados fracos e pobres”.
Mas ao mesmo tempo o envolvimento desses “estados poderosos” em África devido aos recursos do continente poderá ser um desenvolvimento positivo porque com o seu envolvimento poderá vir também investimento e tecnologia e conhecimentos.
“A importância dos recursos da região irá assegurar que as grandes potências mantenham o seu interesse na estabilidade e desenvolvimento da região,” diz o estudo.
E o papel das forças armadas americanas? A acreditar no estudo até haver “estabilidade e segurança” em África o envolvimento militar americano será o de “impedir desastres humanitários e mesmo genocidios numa situação em que estados africanos e grupos tribais lutam pelo poder e por controlo”.
Até agora isso parece ser verdade. Mas como disse certa vez um treinador de futebol … “prognósticos só no fim do jogo”.

Jota Esse Erre

3 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Treinador de futebol? Então a célebre frase não é do João Pinto, capitão do FCPorto?

Teresa disse...

Possivelmente estamos perante um figurino só, aparentemente, diferente do neocolonialismo.
Questiono, com cepticismo, se não serão residuais a preocupação, o empenho e o investimento de “estados poderosos” interessados em explorar os recursos naturais de África, no que se refere a promover um verdadeiro “desenvolvimento da região”, o que passaria, na minha óptica, por melhorar as condições de vida precárias e mesmo miseráveis das populações africanas. Mas, seguramente, não será residual o interesse dessas potências em usufruir da riqueza que África lhes proporcionará.
E questiono a legitimidade do envolvimento das forças armadas americanas, aparentemente desinteressado e generoso, para “impedir desastres humanitários e mesmo genocídios numa situação em que estados africanos e grupos tribais lutam pelo poder e por controlo”.
Em “Um Mundo Sem Regras” Amin Malouf escreve:
“Desde que a Guerra Fria acabou, no final dos anos 1980,… um governo, o dos Estados Unidos da América, viu-se investido, na prática, do papel de autoridade planetária; o seu sistema de valores tornou-se a norma universal, o seu exército tornou-se a polícia global, os seus aliados tornaram-se vassalos e os sues inimigos elementos fora-da-lei.”
“Este processo…realizou-se em pouquíssimos anos diante dos nossos olhos esbugalhados”
“De súbito,…coloca-se a questão do poder e da sua legitimidade a nível planetário”.
“Para que os diferentes povos aceitem a autoridade de uma espécie de «governo global», é necessário que este tenha adquirido aos seus olhos uma legitimidade diferente daquela que lhe é conferida pelo seu poder económico e militar; e para que as que as identidades particulares possam fundir-se numa identidade mais vasta, para que as civilizações particulares possam inserir-se numa civilização planetária, é imperativo que o processo se desenrole num contexto de equidade, ou pelo menos de respeito mútuo e de dignidade partilhada”.
“As populações que se sentem ameaçadas de aniquilamento cultural ou de marginalização política darão forçosamente ouvidos àqueles que apelam à resistência e ao afrontamento violento.”
Enquanto os Estados Unidos não persuadirem o resto do mundo da legitimidade moral da sua preeminência, a humanidade permanecerá em estado de sítio”.

Anónimo disse...

Caro J.S.R
Vale a pena ler o texto:
WHAT DOES THE US MILITARY WANT IN AFRICA?
THAT old question. Here's a check-in from an army think-tank.

The most blunt paper amongst the four below asks:

"Taking into account the variety of subregional
perspectives on terrorism, counterterrorism, civilmilitary
and civil-law enforcement relations as
well as the broader themes across SSA, in the final
analysis, what is the most effective approach for
U.S. counterterrorism there? Can a balance be struck
between the two primary approaches, defense and
development? In other words, how may the United
States move forward with its counterterrorism policies
in the region while fully taking into account SSA
views, apprehensions, and skepticisms? Liberia’s
minister of information, Lawrence Bropleh, correctly
pointed out in July 2007 that a secured environment
attracts investors and development.145 His statement
mirrors USG policies, particularly within DoD, that
development operations must in some way become
synergized with defense operations; the former cannot
occur without the latter."

***


BY PATRICK BOND

Abraço de Maputo,
Thomas Selemane