terça-feira, 9 de março de 2010

anaCrónicas 4

A guilhotina tem a marca do terror. Contra livros parece então o cúmulo da desvergonha, principalmente quando quem manda guilhotinar é quem edita. Como pode quem tem supostamente o amor dos livros dar cabo deles? Mas é assim, já o mesmo acontece às maçãs e ao peixe quando o excesso traz na oferta a quebra dos preços. Eles lá sabem porque raio é que acham que isso é lei a respeitar na economia básica? No meio desta regra há quem a ela não pertença e ao lado tenha fome. O mesmo para o livro, embora, no caso, esse tipo de fome seja menos perceptível e muitas vezes o faminto nem se dê conta dada a omnipresença da fome de primeiro tipo, a do estômago. Nunca o livro esteve tão claramente reduzido à sua expressão comercial, como nunca ouve tanta capa a despropósito da substância literária interior – vende-se para o olho.
Robespierre certamente que mandaria para a guilhotina não os livros mas quem guilhotinasse livros. E no meio de tanto novo analfabetismo em expansão ficamos de facto surpresos - ele há estatísticas para tudo portanto será difícil que tudo nelas, nas várias, não venha provar a senda constante do progresso (o puguesso como dizia o Cavaco mais primitivo) em direcção ao progresso ou se preferirem, à modernidade, essa galdéria que está em todas as bocas.
Como é possível? Na Itália, quando Berlusconi, esse supra-sumo da estética capilar requentada, entre outras aquisições, comprou a Mondadori, mandou as completas do Goldoni armazenadas já não sei onde pelo mesmo caminho, a guilhotina. O armazenamento, explicam, é mais importante que o livro e certamente mais importante que os leitores. Importância medida pela relação espaço versus pilim – como nos estacionamentos, essa mina de ouro certo. Os livros na realidade estão estacionados. Na altura pareceu-me que a façanha estava à altura do bicho. E pensei que viria bem ao mundo se o guilhotinassem a ele, talvez mesmo entre as partes – é uma metáfora, claro, já que não guilhotinam tomates. Mas aqui, com a tradição miserável que o livro e a leitura têm, guilhotinar livros do Sena, do Eugénio de Andrade, da Sofia? De facto tem razão o Luís Fernandes quando no Público clamou para que não lessem as coisas da Leya, essa editora que, entre outros tops, tem o Saramago. Será que o Nobel vai fazer ouvir a sua voz ou, tratando-se do patrão, a calará? Era uma boa ocasião para sair da editora e eventualmente fundar outra, alternativa e não monopolista. Mas isso obviamente obrigaria a ir contra a lógica best seller.

FMR

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