quarta-feira, 10 de março de 2010

Os putos são porreiros


Os putos são porreiros, disse a mãe sem olhar para a amiga. Com a ganza na mão esquerda e o isqueiro na direita, deixou a chama tocar ao de leve na bolinha esverdeada. Ao de leve, para não a queimar. Ya, disse a amiga. Não sei como há pessoas que não curtem crianças. A mãe esfarelou a pedra e misturou-o ao tabaco com a ponta dos dedos. Os adultos são materialistas, ‘tás a topar? E a outra: Ya, não entendem a inocência dos putos. O aroma do haxe chegou até ao quarto, até ao miúdo sentado à secretária. Tinha à frente um caderno, e copiava as frases escritas na ficha. O gato pediu um saco ao seu novo amo. Lá fora a tarde ia radiosa, o sol entrava pela janela, batia em cheio na folha branca. A luz era tão forte que feria os olhos. Uma mosca esvoaçava às cegas de encontro ao vidro, a zunir. O gato foi à floresta apanhar uma lebre. A mãe enrolou o charuto, acendeu-o e passou-o à amiga. Depois estendeu a mão para a aparelhagem e subiu o volume. O miúdo conhecia bem aquela música, a mãe punha-a sempre que tinha visitas. Curtes este som? A amiga fez que sim com a cabeça mas não disse nada. Inspirava fundo, fechando os olhos para sentir a pedrada. Uma, duas, três vezes. Devolveu o charro e recostou-se nas almofadas indianas. Pela porta entreaberta, o rapazinho espreitou para a sala. A mãe tinha os olhos fechados e acompanhava o compasso da música com um balanço repetido do tronco. A amiga também tinha os olhos fechados, mas erguera os joelhos à altura do queixo, num movimento que lhe expunha as coxas. Pela fresta, o puto ficou de olhos postos no triângulo branco das cuecas, marcado pelo sulco da racha. A mãe disse qualquer coisa, mas a música estava alto e o miúdo não ouviu. A amiga ouviu, e respondeu. E ao responder moveu-se e baixou os joelhos. A atenção do puto voltou-se para a mosca pousada na vidraça. Amolecida pelo calor, não teve tempo de levantar voo. Num gesto súbito, o rapazinho aprisionou-a no punho cerrado, mas sem apertar, para não a esmagar. Com mil cautelas, não fosse ela fugir, segurou-a entre os dedos da outra mão e ficou um instante a observá-la. Depois, com gestos minuciosos, arrancou-lhe as asas, uma após outra, e pousou-a na folha do caderno. O bicho, na agonia, contorcia-se e rodopiava em arabescos loucos, deixando um rasto sanguinolento no branco do papel. O puto ficou-se a vê-la durante um bocado, até que a música acabou e a voz da mãe chegou da sala. Querido, já acabaste os trabalhos? Está quase, mamã. Num gesto seco, abateu a palma da mão sobre o insecto e esborrachou-o. Então acaba, e depois vem lanchar. O miúdo limpou a mão aos calções e ouviu a mãe a perguntar à amiga: Não queres um chá? Chá preto? Não, chá preto nunca bebo. Excita muito. Este é de flor de tília, lúpulo e lavanda. Bué de relaxante.

José Pinto de Sá

6 comentários:

Ivone Ralha disse...

:)

Desenho de ?

:)

Anónimo disse...

Boa,Zé!

José Pinto de Sá disse...

O desenho é do José Luís. Tenho-o na parede, e estava a olhar para ele quando me ocorreu esta estória, sobre um tema que me interessa muito.

José Pinto de Sá disse...

Já agora, e desculpa a ignorância, qual é o significado de :) ?

ze joao nunes disse...

Belo texto!

Ivone Ralha disse...

:) é um smile!
:( está triste...