quarta-feira, 17 de março de 2010

anaCrónicas 9

Não se escreve em definitivo sobre nada. E a experimentação na escrita não deixa de ser uma experimentação dos conceitos ou da matéria que para lá caminhe entre o informe e a forma – não há como a escrita para pensar e não há pensar que não seja ficção. Falou o José Gil, na última aula, que venho glosando numa espécie de vontade de ser eco, do risco como pensamento, isto é, de que pensamento e risco seriam sinónimos. Tenho andado a tentar perceber isso. Uma coisa acho que entendi: as teorias cheias de consistência – e nelas incluo as plenas de inconsistência, a medida contrária que afirma a irracionalidade mas não explica as cidades nem a romanização por exemplo, menos ainda o pão e circo, o canibalismo e outras façanhas humanas consistentes e constitutivas do ser, como também o extermínio selectivo – são formas de esquivar ao risco.
Quem teoriza no arame faz uma coisa que o teórico consistente não é capaz de fazer.Olhando-se não se reconhece na imagem sempre movente e aí talvez escape ao narcisismo, doença destes tempos de filhos únicos e protecções materno-paternais ansiosas.
A imprecisão do que se quer fixar é uma constante e o desejo de forma, outra. Quem, como se diz, tem os pés na terra, diante do bitoque de que fala o Gil, esquece o resto e converte-o em entretenimento. Começa polémica e risco o que começa e se foca em qualquer coisa discernível e termina culinário. Estes últimos, os dos pés na terra, são muito úteis como polícias. Os outros não têm finalidade. São mesmo inúteis. Talvez aí comece qualquer coisa.

FMR

1 comentário:

Edward disse...

Este texto está muito bem escrito. É um texto muito objectivo e gosto sobretudo da parte que diz: "Nao se escreve em definitivo sobre nada." A escrita realmente faz-nos pensar, faz-nos reflectir e por vezes serve para nos lembrar da merda que fazemos e que nao podemos voltar a tras para remediar erros do passado.
Quem teoriza no arame nao é teologo. Nao sabe o que é teorico e nao sabe conduzir um discurso bom e consistente. Gostei muito deste texto. Tem partes e frases muito interessantes e que o stor devia incutir nos broncos dos seus alunos já que não fez isso connosco. Fique bem